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O Mercenário

Chegou bem cedo ao local. Teria que esperar sua vitima chegar. Não se importava em esperar. Tinha paciência de sobra. Esperaria o tempo que fosse preciso e ainda via a chance de confrontar seus demonios. Seus demonios... demonios que não saiam de sua mente desde que iniciara sua carreira em tal ramo. Tornar-se um mercenário foi tudo o que aprendeu desde que nascera. Aprendera a matar. Aprendera a esconder seus sentimento e não deixá-los atrapalharem em seu serviço. Não era uma vida que qualquer um desejaria seguir, tampouco ele desejou segui-la... mas era obrigado a trilhar esse caminho. Era seu único meio de sobreviver ao grande caos. Mas ja estava ficando velho para tudo isso. Talvez fosse a hora de tentar trilhar outro caminho. Talvez. Por muitas vezes e em muitos trabalhos teve dificuldade de saber se deveria seguir em frente e puxar o gatilho ou deixar aquelas pessoas viverem. Mas o final era sempre o mesmo. Criminosos matando criminosos. Não havia que sentir pena. Não haviam vitimas, apenas culpados e mais culpados! Sempre acreditou nisso e foi isso que sempre o fez seguir em frente. Acreditava tão fielmente nisso... apenas para afastar seus demonios interiores. Demonios...

O ronco do motor de um carro passando na estrada atras de si o acordou de seu transe. Era sua caça chegando a ninho. Começou a carregar a arma. As balas deslizavam perfeitamente pelo rifle que possuia em mãos. Colocou a mira em cima do cano do rifle. Estava tudo pronto para que o trabalho fosse feito. Estava bem escondido no alto de uma colina. Ninguém poderia vê-lo. Ali, na escuridão, tornava-se uno com as sombras e as trevas. Apoiou a arma no pequeno tripé a sua frente e, deitando-se de bruços na grama, passou a observar a sua presa através da mira.

Ainda era jovem. Não devia ter mais do que vinte e seis anos de idade. Tentava imaginar qual crime aquele homem poderia ter cometido para ter tal destino. Um cruel destino. Sua casa era grande e de dois andares. Teria que esperar mais um pouco para levar sua missão ao fim. O homem andou pela sala até chegar na cozinha onde beijou sua esposa que acabava de pôr a mesa para o jantar. Seus filhos vieram correndo abraçar seu pai que acabou de voltar do trabalho após uma semana fora. Estavam todos sorridentes... todos tão felizes. Novamente se perguntava qual crime aquele homem havia cometido... se é que havia cometido algum. Respirava lentamente. Não podia deixar que seus pensamentos o atrapalhassem novamente. Terminada a janta, todos seguiram para a sala de estar, onde assistiram um pouco de televisão e em pouco tempo ja estavam subindo para seus aposentos. Primeiro as crianças. Subiram, escovaram seus dentes e foram e se deitar assim como seus pais ordenaram. Pouco tempo depois foi o casal. O pai, antes de seguir para o seu quarto, passou no quarto de seus filhos. Deu um beijo de boa noite em cada um, pondo-os para dormir. Apagou a luz... fechou a porta e, finalmente, foi para o seu quarto. Sua esposa ja o esperava debaixo do chuveiro. ... estaria aquilo certo? Parecia tão errado. Ele parecia tão inocente...

Fechou a mira pela qual olhava. Abaixou a cabeça. Deveria continuar em frente? Talvez estivesse na hora de desistir dessa vida. Inspirou e soltou o ar lentamente. Olhou ao longe, para a casa. Conseguia ver com perfeição o quarto do casal através das grandes janelas de vidro que possuia ali, na verdade, grandes paredes de vidros. A luz ainda estava acesa e o casal estava no banho... tendo seus minutos de amor. Nem imaginando que o seu algoz estava ali. Algoz? Estava tendo seus próprios conflitos. Lutando desesperadamente contra si. Certo ou errado? Ele não sabia. Novamente perdia-se em seus próprios pensamentos e mal viu o tempo passar. Voltou a si novamente com a risada da esposa do homem que saia para a varando, abrindo as janelas e a porta. O homem, então, saiu do banho e deitou-se na cama. Sua esposa fez o mesmo. Apagaram as luzes. Ja estava decidido...

Sussurrou para si mesmo alguma oração enquanto levantava a mira na cabeça do homem e, cedendo a vontade de seus demonios, com um movimento de seu dedo acabou com a vida de mais uma pessoa. Foi silencioso. Logo pela manhã sua esposa acordaria e veria os miolos de seu marido espalhados por toda a cama, seus filhos acordariam com os gritos da mãe e veriam seu pai morto na cama.

"Bom trabalho, Deac."

Foi o que escutou em seu rádio. Levantou e olhou para aquela casa. Colocou suas coisas de volta na maleta em que trazia e, em passos lentos, retirou-se do local. Imaginava o que aquele homem poderia ter feito para ser merecedor de tal destino. Perguntou a si mesmo - em vão - e não achou resposta alguma. Respirou fundo. Acalmou seus pensamentos e saiu da cena. Mais um criminoso, mais um corpo condenado a morte por ter nascido no caos.
Razgriz
Enviado por Razgriz em 28/06/2006
Código do texto: T184028
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Sobre o autor
Razgriz
Sumaré - São Paulo - Brasil, 30 anos
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