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UM GRITO NA ESCURIDÃO

De mãos dadas vinham mãe e filho. Ela uma senhora, semelhante a tantas outras. Viviam na periferia de uma cidade pequena cortada ao meio por uma longa estrada de transporte de provisões e que interligava àquela cidadezinha às grandes capitais.

A estrada de rodagem desempenhava plenamente o seu papel. Embora com toda a sua periculosidade era bastante atrativa pelo movimento espetacular de transeuntes e veículos. De um lado da estrada ficava o centro comercial da cidade mantenedor daqueles que segundo a própria sorte viviam do outro lado.

Todos os dias àquela mãe ia ao encontro do sustento para os filhos. Não lhe causava mais temores a via arrebatadora, como todos ali, a cruzava varias vezes. Inclusive, naquele dia já havia atravessado por mais ou menos cinco vezes. Faz-se à noite, Maria na companhia de seu filho caçula retornava de mais um dia de trabalho com uma cesta numa das mãos, na outra a pequenina mão de João e uma trouxa de roupas na cabeça, assim foi vista.

Um lapso de energia turva à cidade e suas cercanias. A negra estrada tornou-se ainda mais escura. Os faróis dos veículos pareciam, na densa escuridão, olhos monstruosos de outras esferas; suas rodas vociferavam asfalto afora e suas altas velocidades chicoteavam, com ventos ásperos, os espectadores e passantes.

De repente freares bruscos, clamores na multidão e um grito na escuridão, MAMÃE...!

Na claridade do dia seguinte um cortejo - Maria dos Santos atravessa novamente a movimentada estrada de rodagem, desta vez a pequena mão vai agarrada à alça da urna fúnebre. Ao comando solene, os monstros, no momento, de olhos apagados freavam para Maria passar - em suas mão flores e no coração um pesar. Desta vez ela não ia em direção ao Centro ali aceitavam-na, porém não lhe cabia.

João cresceu e tornou-se distinto, sempre ensimesmado seguia sua marcha; perambulando pelas ruas da pequena cidade. De quando em vez tirando risos, quando ele na tentativa de atravessar para o outro lado - quase sempre altas horas noite a dentro, cuando a negritude noturna turva os sentido e inspira medos - por sua mãe, igual criança desolada, se punha a chamar. Muitos não entendiam o por quê, mas àquele grito na escuridão tornou-se comum junto à rodagem.

Postava-se ele com seu jeito débil a chamar pela mãe, em seguida rindo-se João parece alguém reconhecer – o sobrenatural ninguém mais percebe, somente ele. Logo em seguida tomado por uma tranqüilidade e com a coragem infantil dos tempos idos atravessava a negra malha com àqueles grandes olhos ofuscantes e murmúrio plangente.
Retomava o caminho de casa e ia deixando pelas ruas que cruzava a impressão de que caminhava na companhia de alguém que lhe segurava à mão.

Seguem, ainda, constantes os freares, conquanto desde que Maria atravessou a rodagem pela última vez muita gente acredita que ela passa às noites prestando ajuda às pessoas na travessia – Se é verdade ou mito os moradores da pequena cidade preferem não questionar. No entanto as estatísticas mostram índices baixíssimos de atropelamentos e mortes numa longa faixa daquela estrada causando espanto maior aos profissionais do trânsito que a presença imaterial daquela mãe que estende a mão amiga não somente ao filho.

Cláudia Célia Lima do Nascimento
Enviado por Cláudia Célia Lima do Nascimento em 28/06/2006
Reeditado em 19/10/2006
Código do texto: T184144

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Sobre a autora
Cláudia Célia Lima do Nascimento
Luziânia - Goiás - Brasil, 51 anos
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Cláudia Célia Lima do Nascimento