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Noe (um conto de vampiro)

(um conto de vampiro)

Naquela noite, quanto atravessou a porta do bar em direção à rua, sem nenhuma prostituta envolta nos seus braços, sentiu na espinha um frio provocado pelo medo da caçada (odiava caçar) e prometeu para si mesmo que seria a última vez (de muitas outras últimas vezes)  que tiraria a vida de ser humano.
Não nasceu para ser um predador.  Não tinha tino. Preferia sujeitar-se a beber o sangue de alguns cães ou ratos (sempre foi muito difícil caçar gatos, são ariscos demais), que sentir a vida de alguém esvaindo-se. Mas havia um prazer incomparável naquilo tudo. Toda aquela energia vital correndo nas suas veias, dando-lhe mais jovialidade, força. Sentia-se como... Deus.
Era demais para ele. Uma blasfêmia. Sentir-se como Deus? Aquele pobre diabo? Pudera! Poucas são as chances de perdão e salvação para aquele que vende a sua alma em troca da vida eterna. A juventude custou-lhe caro. Nada do que vivia tinha o charme  e encanto dos filmes e contos. “Rá, queria um Lestat aqui na minha frente para dar poder arrancar-lhe os caninos e vê-lo apodrecer na serjeta.”
Tinha que se punir. Era imperdoável pensar nos prazeres do sangue quando tudo caminhava tão bem para a sua libertação. Sim, Deus o libertaria da amargura e da noite escura. Tinha fé. Sim, pode parecer questionável, mas Noe ainda tinha aquela chama queimando no seu coração.
Num beco fétido, caiu de joelho arrependido. Vez ou outra questionava a doutrina em tinha crescido e as escolhas decadentes que fez na vida adulta. Se eterno é tediante. A vida passa devagar e todos ao seu redor, cedo ou tarde vão embora. Quase  oitocentos anos pesavam-lhe nas costas. Já não lembrava dos rostos das pessoas que amou. Já não queria mais se esconder e mascar-se com personagem, vivendo a mesma vida incontáveis vezes. Mudando-se de tempos em tempos, sem que raízes pudesse criar.
Nunca é tarde para querer descansar dos vícios terrenos. Ainda era belo.
Pensou no seu irmão Raul,  a o grande líder e príncipe temido. O que ele pensaria da sua redenção?
Noe era um Fracassado, assim com F maiúsculo e toda a pompa que a palavra merece quando referida a ele. Nunca realizou um grande ato que orgulhasse sua família, seu clã ou a si mesmo. Era um vampiro por imposição do irmão e não por vontade própria. No inicio acreditava que tudo seriam flores. Poder. Juventude eterna. Mas a noite era escura demais, a pessoas entediantes demais.
Quão desprezível era sacrificar dezenas de vida para manter uma desprezível existência que se quer poderia considerar-se realmente importante para a sobrevivência da sua espécie.
Era em número, gênero e grau o que Camile, sua companheira, aquela francesinha arrogante cheirando a sexagenária, chamava de pathétique.
Ali de joelho no beco imundo, sacou um pequeno canivete suíço do seu bolso e fez dois cortes no braço esquerdo como punição por pensar nos prazeres do sangue. Entre os canitas, derramar o próprio sangue é um crime.
O líquido rubro escorreu suave pela pele branca. Noe acompanhou com olhos até que duas gotas pingaram no chão. Lambeu as gotículas. Sentiu no áspero asfalto o sabor daquele doce néctar.
Naquele momento esqueceu-se de seu Jeová e de toda a culpa que sentia.
Levantou e estendeu os braços o céu, tomado por um êxtase quase místico. O corte no seu braço havia cicatrizado e ele desejava mais.
Era um predador. Um caçador noturno. O grande senhor no topo da cadeia alimentar estava com fome.
Não! Estava enganado! Era repugnante. Por favor, olhe só para você Noe. Vampiros de verdade são imponentes. Podem não amar sua condição, mas dão o mínimo de respeito, algo que você jamais poderá compreender como funciona. Pobre Noe. Incapaz de compreender suas próprias necessidades e aflições. Pobre Noe. Pobre infeliz.
Perdido em na confusão da sua mente, demorou muito para  perceber o moleque negrinho e miúdo que se aconchegava em meio aos sacos de lixo e jornais num canto do beco.
Fome, medo, angústia. Eram tão iguais. Abandonados na noite escura, perdidos em seus pensamentos dolorosos. Eram tão iguais.
Foi assim que Noe descobriu que o seu Jeová guardava uma missão para esse pobre vampiro medíocre. Estava tudo muito claro agora.
Caminhou devagar até o lugar onde o garotinho, encolhido, tentava dormir. Era inverno e aquela noite estava especialmente mais fria que as outras.
Noe abaixou-se sobre o garoto e acariciou seus cabelos enroladinhos. O menino olhou Noe nos olhos e sorriu. Enfim, Deus havia ouvido sua preces e mandado um anjo para busca-lo.
Noe tomou daquele sangue tão puro, como se fosse a primeira vez. Não era um predador alimentando-se de uma vítima. Não. Sentiu-se vivo e glorificado.
De pés, ajeitou o casaco surrado. Limpou os lábios com sutileza, ajeitou os cabelos e olhando para o céu, como quem agradece por uma graça disse:
“Não haverá mais pobres descalços sofredores no mundo enquanto este Noe caminhar pela terra guardado por Jeová”.
Monica Ash
Enviado por Monica Ash em 29/06/2006
Reeditado em 10/07/2014
Código do texto: T184604
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Monica Ash
Passos - Minas Gerais - Brasil, 30 anos
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Monica Ash