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Os Dois Lados

Os Dois Lados


I) Brigas

Eram duas da manhã. Acordaria cedo na manhã do dia seguinte para trabalhar, mas mesmo assim não conseguiu pregar os olhos até aquele momento. A discussão aquela noite a atingira de tal modo que ainda revirava as cenas vividas há algumas horas, e não conseguia descansar a mente.
Levantou-se, e sem a menor sombra de sono, foi andando pelo medonho caminho escuro até a cozinha, a fim de tomar um copo de água. Esbarrou nos ursos de pelúcia jogados no corredor e nas almofadas espalhadas pela casa; símbolos de uma fúria de amor.
 Nossa garota-modelo morava sozinha naquele micro-apartamento, desses modernos, cuja planta baixa na propaganda é magnífica, mas, quando colocamos o pé dentro do hall, nos arrependemos profundamente de um dia ter comprado tal imóvel.
Pegou o copo e encheu-o de água. Virou e bebeu, e aquele líquido que entrava pelos seus lábios não tinha o sabor que ela estava precisando. Não tinha o gosto amargo da paixão, do amor, dos lábios grossos daquele que amava. Lágrimas molharam seu belo rosto, camuflado na penumbra da noite.
Viu-se então beijando-o, abraçando-o, amando-o, e chorou mais intensamente. Sua alma jorrava sangue pelos olhos – puros e ingênuos; lindos. Sofrimento, saudade, raiva, desilusão – esses opostos sentimentos se misturavam em seu coração, e suas lágrimas, se fossem vistas por algum ser, seriam entendidas como uma defesa pessoal natural.
Ligou o rádio e pôs-se a ouvir Legião Urbana, do sempre deprimido Renato Russo. Por que as pessoas ouvem músicas melancólicas quando estão deprimidas? Será que não vêem que este fato apenas aumentará sua tristeza? Pior são aqueles que ouvem músicas “pesadas”, talvez com o intuito de esquecer o que estão pensando. Então eu me pergunto, para que esquecer o sofrimento? Para que deixá-lo para depois? Por que não enfrentá-lo no momento certo, ao invés de fugir e, quando for tarde demais, olhar para o passado e se arrepender?
Laura não se questionou a esse respeito, era sua vontade apenas dormir e esquecer de sua tristeza, que a corroia por dentro, deixando-a extremamente maleável.
Voltou a cenas de sua infância, algo longínquo e agradável. Lembrou de seus sonhos e suas esperanças. Lembrou da sua ingenuidade e sentiu vergonha. Nesse momento, já havia esquecido o motivo por estar acordada até àquela hora, e já tinha descoberto muitos outros motivos para sofrer.
Como a mente humana é curiosa em seus defeitos e em suas qualidades. Sempre inovadora e um tanto imprevisível, sempre pregando peças nos despreparados. O namorado, primeiro motivo que a levou a tal estado, não mais estava presente em seus pensamentos. Não?
Há controvérsias sobre esta afirmação. Os sentados à minha direita, dizem que é verdadeira, ela esqueceu-o nesse momento, pois se lembrava do seu tempo de ingenuidade, da sua infância. Já os sentados à minha esquerda, dizem que, exatamente por ela lembrar-se da sua infância, ela pensava em seu namorado, indiretamente. Isto, explicam, deve-se ao fato de que em sua infância ansiava por alguém como ele. Sonhava, almejava um jovem que a completasse.
Pura ingenuidade. Antes de comentar sobre o fato, deixo-me inclinar-me a opinião dos à minha esquerda, já que não sou o juiz do fato, e posso, pois, tomar partido.
Continuando, então, meu pensamento. Pura ingenuidade, eu dizia. Sim, essas crises, à noite, é apenas o começo. Daqui a alguns meses, verá o tamanho do erro cometido, e não mais se iludirá com o homem de sua vida. Pena, digo-te, leitor, que esse conhecimento, por mais que tentado, dificilmente é passado oralmente. Muitos se iludem para alcançar esse conhecimento. Tanto sofrimento seria economizado se fossem ouvidas pessoas experientes no assunto.
No entanto, pessoas que não passam por tal experiência, tornam-se tolas no amor, e não entendem a verdadeira magnitude desse sentimento.
Nunca foram levados às nuvens, nem se sentiram totalmente dominados pelo seu amor. Por isso, apenas o sofrimento nos trás a visão de mundo necessária para vivermos. Pois, a vida sem sofrimento não é vida, é algo inútil e indigno de ser real. No entanto, um eterno sofredor também não é digno de viver.
Chego então, ao xis da questão. A vida deve ser equilibrada. Uma afirmação simples, mas cheia da essência da verdade.
Não, leitor; não me esqueci da Laura. Pois, então, senhor; voltemos ao fato real.
Laura adormeceu em algum horário indeterminado da madrugada, exausta, sem em mais nada conseguir pensar.
Acordou cedo naquela manhã, e esqueceu de seus problemas durante seu trabalho. Tantos relatórios a fazer, tantas pessoas a consultar, tantos problemas a resolver que se esqueceu de si mesma durante aquele dia. Tantas horas de sua vida destinada a trabalhar para outros, a não ser dona de si, a não ver si mesma diante da realidade. Quais são, pergunto-me, as vantagens do mundo moderno?
Cansada, sonolenta, entrou no ônibus de funcionários que a trazia de volta todos os dias. Voltou, gradualmente, a sentir as sensações da noite anterior. À noite, o céu das verdades se abre - o céu dos verdadeiros sentimentos que abrigam nosso corpo.
Ao abrir a porta de seu apartamento, sentiu aquele estranho, mas conhecido sentimento de arrependimento pelo péssimo negócio feito. Sentiu-se também sozinha, naquele minúsculo apartamento.
Correu ao chuveiro, onde, sob cachoeiras de quentes águas, pôs-se a voltar a seus pensamentos da noite anterior. Agora, mais calma, chegaria a uma conclusão satisfatória.
- Antes vou relaxar; aproveitar esses poucos momentos de felicidade que tenho. Esse momento para mim mesma. – estava na moda na época, valorizar os momentos consigo mesmo.
O cheiro do shampoo a alegrava, um cheiro quase virginal que a excitava. Tal sabor fazia-a lembrar das noites passadas ao lado do namorado, de quando deitara, após um reconfortante banho, ao seu lado, apoiando seu queijo no peito do amado. O amor em seu coração aumentava proporcionalmente em que essa lembrança tornava-se mais nítida; já se tornara a realidade, não existiam mais naquele momento as paredes do banheiro – transportara-se para uma outra dimensão.
Conseguia sentir o cheiro de seu amado, conseguia sentir os lábios desejados molhados a tocar os seus, conseguia ouvir em seu ouvido os sussurros de amor por eles pronunciados em momentos de ternura.
De repente, em meio à fumaça da quente água, o sonho acabou-se – Trim, trim, trim! – o telefone estava a tocar.
Desligou o chuveiro, pegou a toalha, mas não o atendeu e logo pôde ouvir a voz tão desejada falando na secretária.
- Amor, onde você está que ainda não chegou? Estou com saudades, não me abandone ao vazio de minha existência. Você sabe que não sou nada sem a “little redhead” que dá razão à minha vida. Esqueça ontem, estou arrependido, você sabe, eu preciso de você, (Ouve-se um barulho de assuo de nariz), ligue-me quando puder, por favor, precisamos conversar.
Rapidamente colocou um pijama branco adornado de flores – resquícios da não tão distante juventude.
Discou o número há muito decorado. Mal tocou uma vez, alguém atendeu. Não foi surpresa ouvir aquela voz grossa e tão sua conhecida. No entanto, notou certa tristeza em sua voz, e certo pausar não antes característico da sua fala.
- Oi meu amor, tudo bem?
- Sim, quer dizer – disse ele embaraçado - mais ou menos, mas vamos indo. Onde você estava que eu te liguei e não tinha ninguém ai?
- Estava tomando banho, desculpa, não consegui atender ao telefone a tempo.
- Não tem problema, Lau. Desculpa por ontem, me exaltei, você sabe, tenho sangue italiano – tentou se justificar, abusar das desculpas, mas se arrependeu e após uma breve pausa completou – não adianta nada culpar minha ascendência. A culpa foi minha, meu amor, eu errei.
- Eu também errei, desculpa. - Ela Admitiu quase mecanicamente, sem nem perceber o que dizia. De repente, sob um acesso de loucura instantânea, provocada por uma lembrança inconsciente da sua tristeza e, não tendo em quem desabafar, pronunciou tais palavras - Eu só não entendo porque você grita comigo, sendo que não gosta que eu grite com você. – disse ela.
- Eu também não entendo essa sua atitude, mas não vamos brigar sobre isso. – Tentando nitidamente abafar o ânimo da sua companheira, para não brigarem novamente – já basta o que brigamos ontem, vamos esquecer isso. Vamos cada um olhar para nossos erros e tentar melhorarmos.
- Tentar... Você está sempre tentando melhorar e nunca consegue!
- Assim nós não chegaremos a nada, amor.
Uma grande pausa acontece. Artur respira alto, tentando se acalmar. Esse ato irritou profundamente Laura, que já não respondia pelos seus atos.
E assim segue-se cada vez mais negativamente a conversa. Ninguém ousando desligar o telefone, pois sentem uma atração pela outra pessoa, apesar dessa ferir profundamente seus corações.
Como interpretar esse fato através da admiração? Incoerente parece ser a atitude de nossa heroína. Porém, se analisarmos o comportamento humano, perceberemos que não é tão incoerente assim esta reação perante o ser amado e desejado.
Afinal, este fato é real, não é algo inventado. Laura, sem ninguém com quem mostrar suas emoções, a não ser seu namorado, sozinha no mundo, os familiares distantes, as amigas ocupadas. Tinha apenas a si mesma com quem conversar quando não estava conversando com Artur. A solidão trás pensamentos negros à mente das pessoas, e Laura não estava a par disso.
Sofria e não tinha a quem recorrer para ser consolada. Precisava exprimir sua raiva. E o primeiro coitado a se propor a tal fora Artur. Apesar de amá-lo como nunca amara a outro ser, utilizava dele como lixeiro de seus pensamentos, e isso ele fazia com ela também.
Ele, que a amava tanto, que tudo fizera e fazia por ela, não entendia a falta de compaixão da sua amada, a falta de amor que ela demonstrava. E isso o fazia sofrer demasiadamente demais.
Percebe-se, sem muito raciocínio lógico, já que qualquer ser chegaria a está conclusão, que o namoro entre os dois pombos não duraria muito mais.
Porque, como o sol numa manhã radiante e iluminada, o amor entre eles nasceu puro e belo. Atingiu profundamente o coração de ambos. Mas, como o sol se põe num espetáculo de cores e de grade beleza, o fim do namoro foi um espetáculo do sofrimento e da dor humana. Um espetáculo da irracionalidade dos homens e da falta de inteligência dessa espécie.
Nada mais os seguraria juntos. A sina estava traçada, era apenas questão de tempo.


II) Solidão

Acordou Artur numa manhã de junho ensolarada. Eram nove horas da manhã e estava morrendo de sono. Tinha que estudar para a prova do dia seguinte.
Deitou-se naquela noite às três horas da manhã. Em sua mente apenas resquícios daquele amor juvenil ainda eram constantemente lembrados.
Apenas três meses após o término do namoro com Laura, já se sentia restituído e de bom humor. Sabia, no entanto, que não era bem assim. Mas deixava esse sentimento de lado, deixando para sofrer depois. Um grande folgado.
Nesses meses que passou sem ela, foi levando sua vida com a barriga, tentando sempre achar coisas para fazer e deixar de pensar na vida e no seu sofrimento. Não agüentava mais sofrer e queria tentar viver uma vida normal. Porém, quanto mais nadava sentido à praia, mais a correnteza o levava em direção às pedras. E Artur não tinha forças para nadar contra a corrente. Toda sua vida, apesar de curta, sofrera e agora se sentia fraco e inútil.
Agarrava-se às aulas da faculdade durante o dia, à noite ao computador, onde jogava ou falava virtualmente com os amigos. Sentia-se sozinho, como realmente estava. Não tinha nenhuma vontade de fazer nada, mas fingia ter para fingir-se normal.
Logo alcançaria as pedras, e sua vida se esfacelaria. Mas nada sabia disso, e sua vida ia aos poucos caindo, já que se agarrava a momentos para continuar vivendo normalmente e não ter que se esforçar para nadar contra a correnteza.
Artur se levantou e foi tomar banho. Como aconteceu a Laura, este também esteve a pensar no banho. Deve haver algum instinto humano que nos faz pensar na vida quando tiramos as impurezas de nosso corpo. Lembrou da noite anterior, em que ficou no computador a digitar com uma colega nova, e ficou a imaginar a que isso levaria. Apenas amizade? Será que um dia amaria essa mulher? Não sabia dizer. Guardou essas perguntas para mais tarde.
Sua memória, de repente, voltou para o dia anterior – aquela garota que dançava sedutoramente enfeitiçou sua mente. Imaginou-se agarrando-a e levando para um lugar vazio. Então, em sua mente, beijavam-se e, após um pequeno período, faziam amor loucamente; cegos de desejo e de paixão. Excitado, masturbou-se sentindo a água quente caindo em seu corpo vil. . Dali a dois, três dias, nada mais se lembraria da garota.
Lembrou-se, após esse período, da visita à casa de sua amiga, onde se sentira extremamente mal vendo a mulher que acreditava, então, amar sendo seduzida pelo melhor amigo.
Eram esses e outros pensamentos que passavam pela mente desse homem. Muito ele pensava, muitos pensamentos o afloravam, mas a maioria logo era descartada para dar lugar a novos.
Artur não é o que podemos chamar de príncipe encantado; não treinava mais e seus músculos transformaram-se em gordura – não muito, é verdade, mas não tinha mais aquele corpo vil de outrora. Seu rosto não era feio nem bonito - um grande nariz estilo italiano com um lábio grosso e sedutor adornava seu rosto. A barba era feita todos os dias e seu cabelo era negro, semi-encaracolado, grande, mas não grande demais.
Não eram todas as mulheres que se interessavam por ele, muito pelo contrário, poucas, mas que ele sabia se aproveitar. Não eram também das mais belas, mas ele não se importava. Só não gostava das balofas. Essas, por mais que tentasse, não conseguia sentir-se atraído. Elas, aliás, eram as que mais o amavam loucamente.
Sabia que precisava de fôlego para lutar contra a maré violenta e dolorosa que sua real vida lhe mostrava, e era nesses dias que tentava dar um rumo em seus movimentos.
Após o banho, sentou-se em frente ao computador e pôs-se a escrever para “desabafar”, como gostava de dizer. Sentia-se sem identidade, não se sentia ele mesmo. Sentia como se o mundo o fizesse ser assim, e, assim, ser diferente, mas ser igual a todos ao mesmo tempo, já que era o mundo, a sociedade, que condicionavam todos a se sentirem assim. Sabia que esses pensamentos também não eram dele e, então, não sabia o que fazer.
Não tinha pensamentos próprios, eram todos derivados de algo. Isso é ruim? Não sabia.
Não sabia o que o atormentava, não sabia por que pensava que algo o atormentava, não sabia nada, apenas que nada sabia (mas não acreditava nisso). Estava confuso, e conseguiu também te deixar confuso.
É possível o fogo surgir das cinzas? É possível mudar a história? É possível se libertar do desenvolver dos fatos?
Pensando nisso tudo, Artur fez esse poema, que mais tarde chamou de “Qual é a dessa vida?”:

Perdido em nefastos pensamentos
Encontro-me, sem saber no que penso,
Penso; mas sobre o que?
Penso; aonde tudo isso vai me levar?
Penso; onde vou parar?
Quero viver, quero morrer, mas não quero me perder!
Onde está minha força?
Onde está minha garra?
Deixe, deixe...
Amanhã tudo começa de novo!
Está chovendo mais uma vez!
Cai chuva, cai...
Cai...
E, quando não há mais esperanças...
Quando tudo está molhado;
Quando campos estão arrasados;
Quando cidades estão alagadas;
Quando mortes estão consumadas;
Quando lágrimas molham no molhado;
Quando não há mais esperança;
Surge o Sol, à noite – apresentação de gala.
Surge o Astro Rei, zombando de nós,
Sofredores,
Perdidos,
Sós...
Como pôde ele fazer tal maldade?
Matar a vida?
Beber sangue de inocentes?
Como pôde ele não lutar contra a chuva?
Por que tinha que ser assim?
Qual é a desse Rei?

Porque tudo que é, é.
Tudo que foi, foi.
Tudo que será, será.
Tudo que penso se esvai.
Tudo que se esvai, penso.
O Sol volta a reinar após o pesadelo.
Tudo sempre volta. A história continua.
Meus pensamentos voltam após um dia.
Os dias passam, as idéias vão. As idéias voltam.
A chuva volta. A noite chega. A casa destruída.
Mas o Sol volta.
Uma nova casa, mais bela, construída.
Perco-me nesse vai e vem. Nessa reviravolta.
E tudo que não queria aconteceu.
Tudo que não aconteceu foi esquecido.
E outras coisas que aconteceram também.
Esqueci, me perdi, morri.

Passado, presente, futuro.
Perdido no espaço dos meus pensamentos.
Na galáxia inexistente de meus problemas.
Louco, sem saber que sei. Sabendo que não sei.
Qual é a dessa vida?

Sentiu-se satisfeito com o resultado. Seu coração estava menos pesado. Batia levemente em seu peito.
Não encontrara as respostas. Não encontrara as perguntas. Mas sentia-se melhor. Mera ironia humana. Já se sentia bem para estudar, para trabalhar. Ficara animado. Perdeu-se em seus estudos. Mais tarde voltaria a seus problemas.


III) Reconciliação

Como em todas as histórias, reais ou não, sempre há o momento da virada de mesa e essa história não será diferente das outras.
Uma semana ou duas após a manhã de sábado em que Artur acordara, sua faculdade tinha organizado uma festa junina bem conhecida, da qual pessoas de todos os lados da cidade saíam aos tapas atrás de um ingresso.
Artur, obviamente foi nessa festa, assim como muito de seus colegas e amigos. Divertiu-se da mesma maneira que sempre se divertia, a mesma monótona e repetente maneira de se divertir. Fingia para si mesmo achar graça nisso, e, assim, acabava achando.
Passou a tarde na faculdade comendo, conversando e rindo com os amigos. Mais tarde foi para um show. Como na festa, divertiu-se como todos esperam que ele tenha se divertido. Fez o que todos faziam para se divertir, e achou legal nisso. Chegou em casa suado, cansado, com frio, à noite, mas relativamente feliz e sem pensar no que pensava anteriormente.
O domingo, o dia seguinte, passou-se normalmente, mas a segunda trouxe novos ventos. Ventos que ele não sabia dizer para onde o levariam, se mais forte em direção às pedras ou se o ajudariam a ganhar fôlego e lutar contra a forte correnteza da sua vida.
Laura, que muito tempo passara sofrendo em sua casa, também decidira se divertir, deixar de pensar no namorado, esquecê-lo e ser feliz. Para uma linda jovem como ela era bem mais fácil conseguir novos parceiros. Seus cabelos ruivos, amarelados, encaracolados, contrastavam de seu rosto incrivelmente belo e branco como o pôr-do-sol nas montanhas geladas e brancas do Peru. A sua visão era mais linda que o nascer do sol, mais linda que as azuis águas do Mediterrâneo, mais linda que qualquer coisa criada ou não por deuses inventados ou não. Era a perfeição em pessoa, era mais linda que a última flor do Lazio. Laura era, então, sinônimo de beleza, de pureza, de mulher.
Desta maneira, Laura não se sentia tão sozinha, apesar de se sentir sozinha. Porque uma vez que amamos uma pessoa de verdade, esta nunca mais sairá da nossa mente, a não ser em casos especiais. E essa jovem amava Artur, mas deixava esse sentimento de lado, tentando fugir aos fatos, dizendo-se amando a outro, André. E assim seguia o caminho pré-traçado da sua vida, sem consciência de para onde seguia, deixando o vento a levar para qualquer lugar. E, no entanto, às vezes, o vento nos trás de volta a casa.
Assim, voltando da faculdade, como era de costume, Artur ficou no computador, no programa de mensagens instantâneas, conversando com amigos. Qual não foi sua surpresa quando Laura, com quem não falava há muito tempo, vem falar-lhe.
Apesar das lembranças que começaram a atingi-lo, apesar do sofrimento que começaram a abordá-lo a partir de seu coração, ele não a repeliu. Conversaram, aos poucos, sobre assuntos de menor importância, sobre nada especificadamente.
- Oiiiie! Td bom?  – Diz ela.
- Td bem e vc?
- Td bom...
- E ai... Quais são as novas? – Escreve ele, ainda perplexo.
- Puuutz... Nenhuma eu acho... huauha ... Minha vida é um tédio... Vc percebeu né? E vc? Q q c tem d bom pra mi conta?
- Hmm..sei lá..se a sua vida é um tédio, acho q a minha deve ser um tédio³. Mas sei lá... Tem algumas coisas... Peguei a sua mania de ir mal em história... Sábado teve festa junina, depois fui ao show do Xaman e sexta fui à casa da Aline...
- Sua vida n deve tá tão tediosa assim... c deve t ficado pensando em outras coisas... Normal... hahaha... Q horas c foi embora da festa junina?
- Nem lembro, acho que umas 6h, pq?
- Vc foi cedo... Sei lá... Umas 7h i pouco teve showzinho do Loko’s lá ... mtoooooo bom!
Imagine a surpresa de Artur ao saber que sua ex-namorada esteve no mesmo lugar em que ele esteve e ele não a viu. Ela que ele “tanto” se esforçara para esquecer e que, no entanto, nenhum passo nessa direção tinha dado.
Perplexo, ainda não acreditando nos fatos, Artur deixou-se levar por algum sentimento que mais tarde não soube explicar. Não era amor, não era ódio. Não era compaixão, não era amizade, mas se aproximava desse último. Era alguma coisa de dentro dele que ele não conhecia, que era novo para ele. E é um sentimento que ele nunca tinha ouvido o nome. Ninguém nunca ouviu o nome. Exatamente porque não tem nome, pois ainda não foi nomeado. Porém é um sentimento real e existe.
Quantos sentimentos, pergunto-te, existem ainda sem nomeações? É muita pretensão do ser humano nomear uma meia dúzia de sensações e aceitá-las como únicas, como causa de todos nossos atos. Em minha opinião, existem mais de mil espécies de amor, todas elas diferentes entre si, porém iguais no que se refere à raiz do sentimento.
Mas não está enganado aquele que diz: “O que eu sinto é amor, o que você sente não é amor”. Cada um tem o seu amor, cada um tem o seu jeito de sentir o mundo. Se algum ser quiser denominar o seu estilo de amar com algum outro nome que não amar, não estará errado. Assim é, por exemplo, a paixão.
Qual a diferença entre paixão e amor? Paixão é intenso – amor também. Amor é algo contínuo – paixão também pode ser. Paixão é coisa de momento – e amor não? Paixão é cega – quantas vezes o amor também o é! Se digo que alguém está apaixonado é o mesmo que dizer que está amando. No entanto, se eu digo paixão e amor na mesma frase sente-se, mesmo sem saber o porquê, alguma diferença, mesmo sem saber dizer qual. Paixão e amor não são sinônimos, mas também não são antônimos. São paixão e amor, simplesmente. Por que complicar, não é mesmo?
E, sem saber exatamente o porquê disso, Artur ficou conversando com sua, agora, amiga, Laura. Conversaram e conversaram, falaram do céu e da terra, do ar e da água, da morte e da vida, de Deus e do Diabo. Mas pasmem: não falaram sobre si mesmos.
Discutiram assuntos tão pertinentes quanto para um ovo é interessante saber se o céu é azul ou que os peixes nadam. Nada interessa ao ovo mais do que se está calor ou não perto dele. Assim, se compará-los a um ovo, percebemos que tudo que lhes interessava era conversar sobre si mesmos, no entanto, havia alguma barreira – moral eu diria – que não os permitiram tocar nesse assunto. Deste modo, ficaram discutindo coisas supérfluas diante de tal importância que destinará se o ovo está sendo chocado da maneira correta ou não, ou seja, que destinará o futuro da vida desses indivíduos.
E, assim, foram-se uma, duas, três horas de conversa fiada. Que a nada levava e que aos dois desagradava. Engraçada, mais uma vez, é a atitude humana. Quando dois seres que, um dia no passado, foram um apenas, mas que no presente encontram se distantes e, mais tarde, acabam se reencontrando, estes, ao invés de discutirem porque se separaram, começam tudo do começo. Discutem sobre coisas simples para chegar às mais complexas. Por que disto? Talvez o fato de sentirem vergonha de terem se afastado de alguém tão querido e, por isso, não tenham coragem de falar sobre isso.
Muitas outras respostas poderiam ser produzidas, muito poderia ser discutido. Mas não se chegaria a nada porque, na realidade, cada qual tem seu motivo para este fato. Cada pessoa tem um motivo diferente e não cabe a mim colocá-los na superfície da realidade.
O Sol há muito já havia desaparecido da face do planeta quando deixaram de se falar para descansarem, menos que o normal, em suas camas até o amanhecer do dia seguinte, quando a rotina recomeçaria.
A verdade é que nenhum dos dois, por mais cansados que estivessem, por mais sono que tivessem, conseguiram dormir rapidamente. Perderam-se em pensamentos sobre o passado e em desejos sobre o futuro. Aquele futuro incerto e traiçoeiro.
Não entendiam porque estavam tão inquietos, não entendiam porque não conseguiam dormir. Não conseguiam culpar a volta do relacionamento como o propulsor da insônia mal-vinda. Não conseguiam, pois não acreditavam ser um fato importante. Ou não queriam acreditar. Sentiam, ou queriam sentir que era um fato qualquer que não merecia maiores badalações. No entanto, não era isso que o inconsciente sentia e, por isso, por alguma excitação que não conseguiam explicar, não dormiram tão facilmente aquela noite.
Os dias se passaram. Cada vez mais próximos eles ficaram, cada vez mais se falavam, cada vez mais pensavam um no outro. Como numa equação exponencial, aquilo que o outro representava para cada um deles aumentou fundamentalmente, fazendo com que eles não conseguissem mais saber quando não estavam pensando nessa pessoa novamente amada.
Mas o ser humano é o ser humano. Perfeito na sua imperfeição. O passado era belo, cheio de boas recordações. Era como se o sol raiasse novamente no horizonte, trazendo novos raios de felicidade instantânea, fazendo aquele mundo enfadonho e rotineiro algo novo, algo que nunca tivesse existido. Assim, adentravam em suas próprias vidas como nunca adentraram. Eram pessoas novas em velhos corpos – corpos esses que instantaneamente tornaram-se mais belos quase que apenas pelo efeito do sorriso em suas faces. Mas, uma vez plantado em nossa mente, quando menos se espera, a semente finca raiz e cresce violentamente fazendo da alegria tristeza e desespero.
Era como se o sol raiasse novamente no horizonte, trazendo um novo dia, com novos raios de felicidade – porém, desta vez, havia nuvens que ofuscavam a visão dessa felicidade. Nuvens bloqueavam a passagem de luz, fazendo um belo espetáculo. Belo, sim, não podemos negar. Mas era um espetáculo belo e triste. Porque, ao mesmo tempo em que os raios de luz esquentaram a superfície de seus mundos, a água tornou-se vapor; o vapor tornou-se nuvem. Milhares de nuvens juntaram-se e formaram nuvens carregadas – negras espumas de água circundavam o mundo deles.
Não houve tempo para se preparar, não houve tempo de se esconder – não havia nenhum lugar para se proteger. A tempestade caiu forte sobre os dois. Logo a alegria se escondeu, o céu negro assolou-os sem que conseguissem reagir. Eram apenas duas pessoas perdidas num mundo destruído pelos seus próprios sentimentos. Como formigas em meio a uma enorme enchente presas em uma mísera e minúscula ilha do azar.
Não seria dessa vez que o verão retornaria. O outono ia firme e forte e eles não podiam modificar as leis da natureza.
Isso tudo ocorreu em uma semana. Uma mísera e pequena semana. O que é uma semana na vida? O que é um segundo na vida? E, no entanto, esse um segundo pode definir todo o resto da sua e de outras existências.
O que acontecerá com suas vidas a partir de agora? Destruir-se-ão a si mesmos? Queimar-se-ão até sobrarem apenas cinzas de seus corpos? Com essas cinzas formarão uma nova pessoa, capaz de suportar frio e sede, fome e dor – uma pessoa capaz de não mais amar?
Quais caminhos escolherão nossos heróis? Que trilha seguirão? O que será que buscarão? O amor em si mesmo? A salvação desse estranho sentimento? A verdade? O que nossos adoráveis heróis buscarão?
Essas perguntas nos remetem a “o que” os humanos buscam. O que nós - como humanidade, como indivíduo - buscamos? Será que, realmente buscamos alguma coisa ou será que somos tão alienados que, se buscamos algo, não fazemos a mínima idéia do que isso seja?
Humanos. Eu nunca os entenderei. E esses dois sobre os quais vos escrevo; o que farão da vida?
Vinicius Razumikin
Enviado por Vinicius Razumikin em 29/06/2006
Código do texto: T184778

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Sobre o autor
Vinicius Razumikin
São Paulo - São Paulo - Brasil, 27 anos
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Vinicius Razumikin