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A POLICROMIA DA CHUVA

ARARAS.

Não caberia, àquele lugar outro nome, considerando-se que é berço do mais deslumbrante e colorido desse espécime. Sendo um desses lugares chamados de paradisíaco é recheada de belezas que encantam os olhos e faz com que a alma se sinta privilegiada pela a oportunidade de contemplar tais maravilhas. O mar, àquele, seria igual a tantos outros não fosse por particularidades que o faz tão distinto, suas águas de um azul cristalino causam verdadeiro encantamento, tornando visível à diversidade de vidas ali existe, além disso, é todo adornado por uma praia de uma alvura incandescente sem nenhuma poluição ambiental que a faça desmerecer o título de lindíssima.  À margem, completando-lhe o ornamento, há ainda uma flora primitiva e exuberante onde a fauna, expressivamente, se faz muito presente. Deixar-se ao deleite da apreciação do horizonte naquele paraíso, é sabido que facilmente às recordações desse momento se fixarão, para sempre, na memória do expectador, pois é inenarrável o prazer experimentado; não importando a hora escolhida. Definitivamente tudo é inebriante. Tais prazeres quase celestiais são complementados por sua gente hospitaleira e gentil – muitos são filhos da própria terra, outros ali ficaram pelo o maravilhoso prazer de sentir-se parte e alguns só de passagem estão, em razão de terem se enamorado e por não saberem quando dali partir.

É pequenina a Araras que abriga seres, que não carecem de portas e janelas fechar – uma prática ainda não assimilada pelos seus habitantes.
Possuidora de um casario antigo onde há uma mistura de estilos não permitindo a olhos leigos definir-lhe a que culturas pertencem. Destacando-se no complexo arquitetônico a igreja Matriz e seu largo, que ainda possui um belo e conservado coreto, onde as crianças e os mais vividos em conjunto com bichos e aves dividem àquele espaço aprazível em grande harmonia e em dias de festa cedem lugar à banda do colégio. Não há hospitais ou farmácias. Prevalecendo a sabedoria dos mais velhos – a maioria da população faz uso de uma sana alimentação a base de pescados, dos cereais e leguminosos cultivados nos arredores do povoado e em fundos de quintais; à moda antiga, quase rudimentar, e sem uso de produtos agrotóxicos. Esse determinante deixa suas marcar na saúde de todos garantindo aos ararenses uma longevidade, uma das características daquele povo.

OS CÉLEBRES ARARENSES.

Notório é que desde dos tempos mais remotos às pessoas buscam o convívio em sociedade e ao se ajuntarem, os integrantes do grupamento, vão se destacando ou são destacados por seus feitos ou por suas particularidades. Distingue-se dos vulgos em Araras:
O Vigário que aparte de suas obrigações com a santa madre igreja atua tanto na defesa como na acusação, embora seja a ordem Pública um fator preponderante. Contudo é respeitadíssimo o Sr. Vigário devido a sua conduta e moral até então ilibadas.
Dona Mariá é uma das pessoas mais antiga de todos os ararenses – 108 anos tem D. Mariá. Com os sentidos da visão e da fala, quase perfeitos, e é dona de inacreditável lucidez. Foi por suas mãos que quase ou se não todos em Araras vieram ao mundo – o ofício de parteira aprendeu com a mãe, que aprendeu com a avó, que aprendeu...E desde seus quinze anos ajuda às mulheres daquele lugar a porem seus muitos filhos para fora dos seus ventres. Foi-lhe concedido essa missão, assim ela considera sua atividade, com exatos quinze anos, visto que desde os treze já era mãe, o que também lhe habilitava ao cargo - até aqueles dias, ainda, era D. Mariá muito solicitada pelas mulheres ararenses, quando lhes chegava à hora de darem à luz, dada a confiança em suas habilidades como parteira ou pelo simples prazer de sua presença nos aposentos reservados a asse fim.
Mestre Pedro é um ser notável tão vivido quanto a famosa parteira, versado nos saberes do mar – Ninguém se lança ao mar em dias de céu escuro se Mestre Pedro diz: “Hoje não. Amanhã se nosso Pai do Céu ajudar quem sabe... Mas hoje não. Tá muito truvo o tempo meu fio”.
Mestre Pedro, também, conhece muito de muitas coisas. Reza em mordedura de cobras em homens e bichos, benze crianças com barriga fofa – como dizem eles. Tem uma reza especial para mulheres com o mal de sete dias; doença das mais temidas e da qual muitas morrem. Reza para tudo quanto se considere perdido até marido, mulher, namorado... Grandes são os poderes de Mestre Pedro.
Outra celebridade é o Joaquim da estalagem, e a venda do Joaquim, assim como a Matriz, é também a venda um referencial por ali. Na intimidade é chamado por todos de Seu Segundo, em razão de ter herdado o mesmo nome do pai. É uma pessoa rara, filho de portugueses nascido, criado e envelhecendo sob o céu e nas areias daquele éden. Sem jamais ter dali arredado os pés. É impressionante é o sotaque carregado do Português de Araras, talvez porque assim o aprendera com os pais ou em face de isso lhe diferenciar dos demais e lhe tornar ilustre também. É bastante observador, o típico comerciante, possui rasgos na personalidade para comunicações – Nada, absolutamente nada, passa fora ou dentro de seu estabelecimento que ele não dê notícia. Narrador de primeira requinta as histórias e incrementa seus personagens.
A venda do Segundo, não é a única, entretanto, é onde os visitantes se reúnem. E um estabelecimento simples e acolhedor com bebidas do alambique do Zé e comida preparada pelas mãos de Joventiana – Dona Jô mulher de Segundo; com grande tino comercial Segundo, aproveitou-se da localização de sua casa, que fica no portal da Ilha, transformando-a em estalagem.

OS FORASTEIROS ELIS E BENTO.

É lá naquele ambiente familiar e acolhedor; sem requinte, mas com tudo limpinho e bem disposto que uma pessoa muito distinta está a viver já a bom tempo. Ficou sabendo da Ilha por meio de amigos e resolveu conferir o espetáculo. Entre ela e todos da casa reina grande amizade e confiança, por isso lhe é afetuosamente conferido por D. Jô, autoridade máxima daquele ambiente, o título de pessoa da família.
Elis é oceanógrafa de profissão, turista por convicção e apaixonada pela natureza; pessoa bem instruída, simpática e com atributos femininos louváveis. Recém chegada de um passeio que durou quase um mês a outro paraíso nas cercanias, Elis jogando seus pertences ao chão corre com alegria ao encontro de Joventiana. Com a mesma euforia dirige-se à venda para cumprimentar Segundo, que se apressa ao vê-la, sem dar espaço lhe faz saber, sobre os últimos acontecimentos. Já mais moderados, escolhem uma mesa, bem localizada, acomodam-se e estabelecem uma conversa amistosa.
- Elis, minha filha, me diga o passeio gostaste?
- Sim, que maravilha àquele lugar, repito é maravilhoso! Além de belos momentos pude coletar material para meus estudos, tudo muito proveitoso. Uma coisa eu lhe digo Seu Segundo, fica difícil compreender a existência de Deus quando falta ao homem, referenciais, como: Araras, Colinas e tantos outros que não me vêm à memória os seus nomes. E por aqui...? Detalhes por favor.
- Ora, pois, além do que já ouviste... Muito bem lembrei de algo... Elis tu já viste aquele forasteiro, que está em nossa casa?

Elis rir-se gostosamente.

- Todos que estão na estalagem, digo não sendo um ararense é um forasteiro Seu Segundo. O senhor está esquecendo que também eu não sou daqui?
- Pois sim, sabes que não a considero hospede e tampouco como forasteira é um prazer tê-la em minha casa. Compreendes?
- Sim, obrigada. Ainda não vi o tal forasteiro. Quem é ele, está acaso aqui agora? Seu Segundo, estou quase rachando de curiosidade. Que tem o forasteiro?
- Calma criatura!

Elis é uma pessoa impetuosa, comunicativa, sempre alegre e se rir de tudo. Dona Jô aproxima-se de Elis e toma parte na conversa chamando o assunto para si começa a dar detalhes sobre a pessoa, da qual Seu Segundo falava. Com ares de cupido Joventiana capricha nos detalhes.

- Filha essa homem é criatura como posso dizer... Tem agradável aparência, porém sem se mostrar muito; uma conversa boa de ouvir, mas, usa poucas palavras ao falar. Bom, digo a você que ele é bem diferente... Há dias está hospedado aqui, senta-se sempre à mesma mesa, toma e come o que pediu desde a primeira vez. Demora-se pouco aqui na venda.Firma assento sempre ali, a olhar a todos nós, com um olhar interrogativo, porém nada nos pergunta. Sai a caminhar todos os dias desde que chegou, e por longo tempo se ausenta; quando retorna isola-se em seu quarto.

- É pelo que estão me dizendo deve ser ele um sujeito muito estranho. Seu Segundo pode o senhor indicá-lo a mim hoje?

- Claro, mas diga criatura para quê?
- Sei lá, mas estou tão curiosa para ver a possa da qual estamos falando que não conseguirei dormir sem saber de quem realmente se trata.

Eles selaram o amistoso trato com um aperto de mãos.

A rotina de Araras, assim como a da estalagem eram bastante diferentes do dia-a-dia de outras localidades. Às pessoas ali eram bem peculiares. E os visitantes adotavam ou optavam por uma postura bastante diferenciada daquela mantida em suas origens; desprendiam-se de alguns conceitos e ou preconceitos interagindo com mais facilidade com o meio. Elis convivia totalmente integrada à ilha e a família de Segundo.
- Elis! Chamou D. Jô, venha cá filha...
- Veja é ele, o forasteiro, que está acabando de entrar.

Segundo falou baixinho indicando, com um gesto labial, a pessoa a qual referiam-se a algum tempo a trás.

- Seu Segundo hoje serei sua auxiliar aqui na venda, e serei eu a servir o forasteiro.
- Tenho que pagar?

Trocaram festivamente boa gargalhada. Enchendo assim o recinto com agradável som, atraindo a atenção de todos para eles, ainda rindo-se pediram desculpas pela quebra do silêncio e para que não pensassem que se riam daqueles que ali estavam, usaram com desculpas uma pequena história -dessas que se inventa na hora só para se sair de situações desagradáveis.

- Bom, hoje os meus serviços serão apenas uma demonstração. Mas prepare os bolsos Sr. português!

Riram-se.

OS DIÁLOGOS.

Dirigindo-se até à mesa do visitante que até àquele momento não sabia o nome. Elis aborda, de maneira simpática e cortês, o desconhecido.

- Boa noite! Sr...

O interpelado respondeu ao cumprimento muito formalmente.

- Posso lhe servir Senhor?

Este se fez presente respondendo apenas com um leve balançar de cabeça, dando a entender que sim.
- Qual a preferência?
Como se a variedade fosse o carro chefe da casa.
Sem muita alteração na conduta respondeu em voz pausada e com uma menção de riso, um tanto quanto irônico.

- Quero aquela especialidade.

Aponta para uma tabuleta onde se vê escrito – Prato do dia, embora já fosse noite: PF com arroz, feijão, peixe tomates e... Só.
Elis leva até ao balcão o pedido do forasteiro e troca algumas palavras com Segundo.

- D. Jô tem razão, que homem mais estranho. Deu preferência a especialidade da casa. Riram-se novamente, Elis de forma jovial e descontraída.

Não levou muito tempo e o forasteiro fora servido por Elis. Que no dia seguinte desempenhou o mesmo papel. Repetindo esse ritual durante várias vezes sem ela conseguir êxito naquilo que objetivava. Já quase desistindo decidiu agir como era de seu caráter, dado que não era daquele lugar.
Dona de uma personalidade forte, de comportamento destemido, moderna e audaz; forçou um pouco a situação tomando a dianteira e...

- O senhor gosta de comer sozinho ou posso lhe fazer companhia?

O forasteiro era uma pessoa incomum, no entanto demonstrou ser um cavalheiro bem educado.

- Por favor, sente-se.
- Vejo que o senhor não pertence a essas bandas.
- Estás correta, venho de outras paragens.
- Pretende ficar aqui ou logo...?
- É muito cedo ainda...
- Desculpe-me!
- Sem preocupação.
- Também tenho observado a, Senhora ou Senhorita?
- Você, por favor.
- Obrigado, melhor que também me chame de você.
- Como ia dizendo você... Também não pertence a este lugar.
- Posso saber o seu nome e sua origem?
- Sim, me chamo Elis. E creia-me, não importa a que lugar se pertence...
- E o que é importa?
- De verdade! Importante é o lugar onde uma pessoa se sente parte e gosta de estar; onde limites sejam estabelecidos e respeitados a partir dos valores cultivados mutuamente e com reciprocidade de sentimentos entre os conviventes. E posso garantir que aqui é um desses recantos singulares, que faz sentir-se bem qualquer um e sem nenhuma pressa ter para ir embora – Não parece a seu ver um lugar fantástico e imaginário?
- Concordo, é uma grande verdade o que você disse e surpreendeu-me sua discrição conceitual.
- Quê?

Rindo-se e um pouco avermelhada continua.

- Por favor, é apenas uma exaltação a este paradise.

Entreolham-se, de maneira sutil.

Benedito seguia comendo. E mais uma colherada foi levada à boca sem nenhum constrangimento com a presença da moça que se acomodara a observá-lo, visto que igualmente o forasteiro lhe examinava, com um olhar minucioso. Enquanto comia, com um mastigar demorado; ele em momento algum dava mostra de alteração no seu comportamento habitual. Seus olhos moviam-se cautelosamente e demonstravam mais apetite que o próprio órgão destinado a sentir essa sensação. A fome real quase já se encontrava saciada pelas colheradas levadas à boca, generosamente cheias – Tudo o que ali se comia era preparado pelas mãos de D. Jô, dona de mãos fabulosas para o bom tempero, tudo muito simples sem variedade, mas que agradava paladares requintados e ávidos para provar não somente ambientes e modos de viver, como também, a gastronomia de outras culturas.
Por uma expressão interrogativa que mantinha no olhar buscando detalhes no ambiente e nas pessoas que ali se encontravam percebia-se que a apetência daqueles olhos não havia encontrado ainda iguarias para sacia-los. Elis que resolvera ariscar-se para obter os seus propósitos, mesmo com a mudez, do seu interpelado dá prosseguimento à palestra, retomando o diálogo, interrompido pela prazenteira degustação a que Benedito submetera-se.

Deixando salientar um leve e maroto sorriso pergunta novamente:

- Encontra-se o senhor, há quantos dias nesta metrópole, está procurando por alguém ou por alguma coisa?

A expressão criativa e brincalhona de Elis foi acolhida com bom humor pelo forasteiro que também se riu amistosamente.
- Que espirituosa é você. Por favor, não sou senhor de nada e de ninguém, basta me chamar de Bento.
- Bento? Bom, imagino que seja nome de algum santo o seu.
- Benedito é o seu nome! Estarei equivocada?
- Não, de maneira alguma, este é o meu nome é que eu gosto de abreviá-lo. Mas nada de pensar que sou um santo... Riram-se.
- E mais, garanto que para nada sirvo como exemplo – riram-se desta vez com mais gosto.

Com seu jeito, elisiano, como ela mesma gostava de dizer, Elis quase nunca deixava de expressar seus sentimento desde os mais simples aos mais profundos.
- Bom vê-lo sorrindo Bento, você se descontrai totalmente e se mostra apreciável.
Bento ao contrario dissimulava os sentimentos.
E retomando sua maneira de ser dá seguimento à conversa.

- Respondendo a sua pergunta – há muitos dias aqui estou. O azul dessas águas me agrada os olhos, o verde abundante que vejo me sossega a alma e o colorido em tudo a se mostrar é inigualável. Também gostei da gente daqui de suas conversas, de suas histórias e do jeito animado como vivem. De onde venho também muito há – o mar de minha terra nos dias claros quando as nuvens permitem visualizá-lo em sua plenitude, se volve tão brilhante chegando a ofuscar e as aves que sobre ele voam e nesse dias se movem tão somente pelo som das ondas daquelas águas. Vê-se desde da praia as muitas casas cravadas em morros rochosos, assim com as árvores que parecem sair das entranhas das rochas. Diria que de lá tudo conheço seus cantos e recantos, seu povo e de cada um o jeito próprio de ser. Povo cochichador sem a coragem de vir à gente dizer. Lá nada mais me atrai e espero não ter que tão cedo voltar.
- Nostálgica narração a sua Bento, parece também muito lindo esse lugar. Então o que está a buscar?
- Sonhos.
- Sonhos!
- Sim, apenas sonhos. Não, não se preocupe, não sou mago, tampouco de encantos sei e não sou ladrão de almas, isso também não sou. Desculpe se lhe assustei. Procuro os meus sonhos, ainda há muitos: em vários outros lugares de grandes belezas já estive a fim de lhes encontrar. Alguns dos meus sonhos já os realizei, enquanto outros deixe por onde andei. Todavia ainda algo está a me perturbar, e não raro chego me decepcionar. visto que até hoje ainda não encontrei quem poderia me responder que cor tem a chuva.
- A cor da chuva? Confesso nunca parei para pensar! Você não está me tirando, melhor dito, querendo medir a minha capacidade... Está?
- Perdão não foi essa minha intenção.
- Deixe-me pensar, melhor lembrar...

E Assim terminaram a amistosa conversa.
Elis e Bento seguiram mantendo diálogos de forma tão rotineira e prazerosa, em uma intimidade que os fazia descobrir empatias. Falavam de seus mundos, gostos, lugares e sobre muitos outros temas conversavam. Entretanto Bento conservava-se sempre muito sucinto.

A POLICROMIA DA CHUVA.

Desde àquele dia em que Bento lhe expôs a tal pergunta sobre a cor da chuva Elis mantinha-se ensimesmada.

Certa manhã, como quem acorda e traz consigo as lembranças de um sonho e tem medo de perdê-las nas horas do dia, Elis sai apressada da estalagem em busca de Bento, atravessa correndo todo o pátio que separa a hospedaria da venda e lá chegando adentra ofegante em virtude da corrida, sem fôlego e a gaguejar começa a perguntar:
- Se... Seg... Seu Segundo, e o Be... Bent... Bento onde está?

Dona Jô que no justo momento se encontrava na venda se surpreendeu com o jeito esbaforido de Elis a perguntar por Bento, antecipando-se ao marido, por ele responde.
- Que é isso minha filha! O Bento esteve com Segundo já bem tarde, ontem, depois que todos já haviam se recolhido, inclusive você, que pensei saber... Bom, ele e Segundo conversaram ele fechou a conta e hoje na madrugada tomou a balsa e partiu. Para onde ele foi ou se vai voltar eu não sei. Segundo tu sabes alguma coisa? Depois das palavras ouvidas, sendo que as últimas retiniram fortemente nos seus tímpanos Elis saiu sem esperar a resposta de Segundo indo em direção à praia, muito desalentada. Chegando ali atirou-se na areia, com os pés começou a removê-la estes eram de semelhante brancura, tal qual àquela finíssima areia. Ali ficou muito tempo sem definir precisamente o por quê daquele abatimento. A cada hora que passava ilhava-se em seu mundo interior, enquanto isso foi e relembrando pormenorizadamente o que vinha estruturando como resposta à Bento e com voz tênue, em tom quase inaudível, como se quisesse que a brisa soprada por aquele mar levasse suas palavras aos ouvidos de Bento, independente de onde ele se encontrasse; abstraindo-se totalmente começou a murmurar: que pena Bento! Não teve você a paciência de esperar. Sobre a cor da chuva eu poderia dizer-lhe que:
A chuva tem a cor da alegria estampada no rosto de muitas crianças que com suas roupas rotas, encharcadas e cheias de lama brincam pelas ruas sem qualquer preocupação, com seus rigores ou variações, nos dias em que ela, a chuva, cai torrencial, mas com a tranqüilidade de quem veio para divertir – Também eu já brinquei assim;
Lembro-me ainda de outra coloração que tem a chuva – Tem a cor do contentamento de quem vive no campo, que cedo saiu a semear e muito se pôs a rezar com medo de tudo perder, porque ela, bênção do céu demorava-se a descer - Há chuvas que possuem a cor das caras enfadadas e maltratadas de tantos trabalhadores que talvez, mais cedo que lavradores, saíram pelas ruas das grandes cidades sob as luzes artificiais, reluzentes, a insuflar-lhes a idéia de dia, muito antes do alvorecer. Também, esses com suas roupas rotas, encharcadas e enlameadas sob a chuva a temer ao verem a sua esperança perecer. A chuva muitas e muitas vezes precipita-se em cores diversas como a preocupação de mães, pais e outros afins que pelas frestas, nas madrugas, aflitos põem-se a observar solitários e em silêncio, a queda indócil das pesadas tormentas sem atinarem onde ou como entes queridos possam se encontrar; tem ainda as cores da tristeza e de saudades, dos enfermos, que se encontram jungidos ao leito; dos velhos que estão esquecidos a um canto, em asilos; dos detentos – muitos em cárceres mentais.
Mas, não somente a tristeza, Bento, empresta a sua cor tão escura á chuva. A sua policromia está nas mais diversas combinações, mesclada na alegria e na felicidade de casais enamorados que dançam serenos o balé do amor sob o clássico som das tempestades e ao ritmo dos silvos impetuosos do vento. Sorridentes como infantes, em juras apaixonadas de um amor torrencial, que lhes parece imortal pela magia do instante.

Elis perdeu-se em suas conjeturas, permanecendo na praia mais do que o esperado causando preocupação àqueles corações paternais, que a acolheram como se filha fosse quando, com seu jeito elisiano, ali na ilha chegou. Dona Jô falou ao marido de sua preocupação, saindo em seguida dirigindo-se à praia em busca de Elis que não lhe percebeu a presença, embora aquele espírito bondoso naquele momento de entrega estivesse no todo resplandecente. Sentou-se ao lado de Elis que se encontrava envolta pelo crepúsculo do cair da tarde e ainda em suas considerações - naquele instante fazia do mar seu confidente falava-lhe da admiração que se transformara em um grande carinho por aquele que si quer um a Deus lhe deixou. Joventiana abraçando-lhe a trouxe para junto de si aconchegando-a ao colo, em silencio ouviu e guardou consigo, em segredo, o que de Elis ouviu.

Percebendo cada vez mais o afastamento de Elis, filha do seu coração à realidade carinhosamente toca-lhe o rosto e com brandura lhe fala:
- Filha, querida, assim me deixas preocupada, que aconteceu? Levanta, vamos...!E o que é isso...? Não! Ele não merece você, tampouco, suas lágrimas. Não, não chore...

FIM
Cláudia Célia Lima do Nascimento
Enviado por Cláudia Célia Lima do Nascimento em 30/06/2006
Reeditado em 08/03/2007
Código do texto: T185065

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Sobre a autora
Cláudia Célia Lima do Nascimento
Luziânia - Goiás - Brasil, 51 anos
476 textos (16070 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/16 06:11)
Cláudia Célia Lima do Nascimento