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O FRIO DA SOLIDÃO

Seguia sem rumo tal qual as folhas desgarradas da árvore que fora vítima de um raio na noite passada e que voavam ao sabor do vento saudosas do ninho.Diante de si a rua de aparência infinita, sem curvas nem esquinas, sem nada e sem ninguém. Naquele mundo deserto e escuro somente a sua pessoa e suas recordações.

Ensimesmado segue de vagar pela rua vazia.

A madrugada está fria e úmida. O ar traz em si o peso das horas ainda envoltas na escuridão. Pensa em voltar para casa, todavia, estava muito distante; mesmo impulsionado pela vontade de voltar segue caminhando, quando um outro pensamento o subtrai - a lembrança de que também a casa estava vazia e fria. Movido agora por esse pesar entrega-se à caminhada, conquanto, seus passos tornam-se tardos; a cabeça oscila à maneira negativa como se algo lhe incomodasse - uma reminiscência talvez.

Pára um pouco, sente mais frio e um pouco de medo. Mete as mãos nos bolsos do casaco e retira de um deles um maço de cigarros, dá uma olhada ao redor, mas está tão escuro. Ascende o isqueiro levando-o em direção a boca onde já se encontra o cigarro, seu fiel companheiro. Ainda com o lume em punho o levanta acima da cabeça como se procurasse alguma coisa, porém a rua segue ainda totalmente vazia, obviamente não encontrando o que não havia perdido. No entanto mesmo com a tênue claridade promovida pelo lume do pequenino aparato consegue divisar as folhas da finada árvore junto aos seus pés, assusta-se, e conversa com seus botões, abrindo um leque de conjeturas, entretanto não compreende o porquê das folhas...
Apenas conclui que elas o acompanharam por todo o caminho.
Desperta-se aturdido levando algum tempo para identificar onde se encontrava, surpreendendo-se com a beleza cálida do sol que adentrava pela janela aberta, e com a luminosidade do dia que expunha os detalhes do ambiente; sendo que os seus pensamentos ainda não estavam bem claros. Faz menção de levantar-se e ao se inclinar vê as folhas de papel com seus escritos - caíram da escrivaninha durante a madrugada e ao bel prazer do vento, quase todas estavam ao pé da cama. Intrigado torna a deitar-se. Tenta refletir, sobre a rua pela qual transitou durante toda à madrugada - o sonho lhe pareia tão real. Não consegue concatenar o pensamento.

Não obstante alegra-se ao identificar a voz da mulher e as gargalhadas dos filhos. Salta da cama sem pisar as folhas, corre até a porta da cozinha, ficando ali parado, contempla à família por algum tempo sem ser percebido e um imenso prazer o invade. Ao vê-lo filhos e a esposa sorriem...
Aproxima-se, aconchegando-os nos braços, apertando fortemente; como a querer que: com aquele gesto afetuoso, eliminar para sempre da memória a lembrança do pesadelo de um mundo escuro, frio e solitário.
Cláudia Célia Lima do Nascimento
Enviado por Cláudia Célia Lima do Nascimento em 05/07/2006
Reeditado em 20/10/2006
Código do texto: T187913

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Sobre a autora
Cláudia Célia Lima do Nascimento
Luziânia - Goiás - Brasil, 51 anos
476 textos (16070 leituras)
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Cláudia Célia Lima do Nascimento