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DOS CONTOS DO VILAREJO- "Sebastião"

Nos meios políticos, silêncio total, ninguém queria se pronunciar a res- peito da prisão de “Domingos”.  qualquer um dos seus amigos, ao ser perguntado, vagueava em literatura floreada, temeroso da mão pesada do povo de Vilarejo convicto da absoluta certeza que tinha de ir fundo neste assunto,   de “raspar os cascões até descobrir o fundo do tacho.” Seus parceiros desapareceram no meio da complicada ação de despejo imposta com a  acareação dos seus alferes.  A corrupção-  zona franca dos exploradores do erário público;a Câmara mancomunada com os crimes em prática, tal era a concupiscência dos representantes da Justiça e da Lei.  Deu-se uma fuga em massa.  O lugar mais seguro para esses crápulas, por incrível que pareça, era o cárcere, porque fora dele estariam sujeitos ao extermínio pelos meios que eles próprios usavam. O crime exercia total domínio, tal era o emaranhado tecido em todos esses anos de desgoverno e de interesses estritamente particulares. A predatória destruição das regras constituídas, da célula social trabalhada durante  séculos, pela sociedade, firmadas em experiências comprovadamente válidas,desabaram em poucos anos, levando em eito toda organização social e modelo de luta.
          A vitória tardou mas não falhou!  Neste pedaço de tempo, gerações sofreram: desafeto, morte, confinamento, tortura e outros atos constrangedores; entre os que sofreram estas humilhações está Osmar.  nascido em Vilarejo, militante atuante ,vorazmente procurado como elemento indesejável; líder de uma oposição que durou enquanto pôde, driblando a esperteza dos salafrários de “Domingos”- o tirano.
         Osmar era na época muito jovem; hoje mais sofrido e experiente, volta a assumir o seu lugar, unindo forças progressistas que queiram atuar na composição de uma chapa capaz de trazer de volta a organização política e social, que outrora torceu pelo seu sucesso e neste momento quer confiar-lhe poder de governo tão logo se expresse nas urnas sua vontade demonstrada aqui no gesto de cada pessoa.  É também um sinal
de gratidão por ter vivido e suportado a incompreensão daquele dado histórico, como ele próprio nos contará. - Com vocês Osmar!
          -“ Povo querido: Se a dez anos atrás tivéssemos  terminado com essa prosopopéia é certo que agora usufruiríamos dos seus louros e uma brisa mais leve refrescaria os nossos pomares.  O passado não significa malogro da maneira pela qual justifico, mas, sinto-me tão forte quanto antes, não obstante, com uma dose de calor muito mais fortificado.
Mais esperado foi este encontro nesta praça cheia de gente desejosa da atenção de quem aceite dirigir os seus destinos políticos, com confiança necessária e apoio contundente para realizar objetivos que levem ao bem comum e ao interesse primordial da existência e do desenvolvimento social sem causar decepção. Não devemos perder a impetuosidade. Sacrifícios nos esperam e exigem de nós magnanimidade para recuperar o que perdemos de positivo.  O montante de atividades que nos esperam só faz aumentar a vaidade de poder erguer com altivez o que restou – a esperança inebriante que invade a nossa crença e desarma os temores; fortifica o espírito e abraça a Luta com vivacidade e amor perseverante. Nesta oportunidade a mim oferecida, espero estar prestes a mudar a face desta cidade num próspero e afagado campo florido, e que a fé no pulso do homem novamente se incorpore. Os dias de amanhã estarão ligados e completamente dedicados aos vossos interesses, para os quais me entrego de corpo inteiro, se assim vocês determinarem.  Saberemos quais são as nossas obrigacões, nossos deveres e nossos direitos, cada um deles constituindo o que se chama
“DEMOCRACIA”, dentro dos conceitos reais, parte integrante do respeito às normas que propõe o povo no seu consenso estabelecido, com ética social. Dentro deste conceito o que é bom para mim, poderá não ser para vocês; mas o que ficar decidido nas vossas reuniões será referendado por mim.”
          Em que pese a interferência, justificou Sebastião: “ Os tempos da sua dura luta por aqui no passado, têm um grau muito forte de semelhança com o meu estado de desagrado.  A morte do meu irmão levou-me a assumir esta bandeira, batendo de frente com todas as formas de ameaças.  Fui acuado diversas vezes, felizmente, pude sair ilesos, o que não aconteceu com  Paulinho, talvez por seu caráter introvertido, despreocupado, sem maldade – o que levou-lhe ao sacrifício da vida.  Gostaria que você  falasse um pouco sobre este tema, que terminou por retirar-lhe da convivência do seio de sua família.
 Bem, continuou Osmar:” Naquele tempo, a maneira como de desenvolviam as coisas era outra.  sem dúvida. O Vilarejo principiava o seu desmoronamento moral Os “Domingos” tinham total força e apoio da sociedade.  Já se esquematizava uma forma para eliminar o adversário.  O dom da morte estava saltitante nos olhos deles; muitos capangas foram contratados para protege-los, tal era o medo da reação dos seus gestos administrativos. Não havia por que ter medo, aqui não existiam pistoleiros ou outro tipo de bandidagem. Tudo começou com a corrupção dos vereadores: Ofertas fantasiosas! Como a maioria deles era gente de pouco recurso, em pouco tempo começaram a aparecer os resultados:as verbas não atingiam o seu objetivo que eram sanar problemas da Prefeitura, logo em seguida começaram a desvia-las para seus negócios e por fim, não pagavam mais aos vereadores e quanto aos funcionários, não havia mais quadro fixo; todos eram biscateiros.  Entre todos,  fui o único a me opor a estas regras, aos poucos isolado, falando sozinho, delatando em praça pública, através dos jornais ou qualquer outra forma de comu-
nicação que não tivesse aderido ao suborno.  Mantive   virgem todas as minhas idéias consideradas fascinantes para uns e incômodas para outros tantos, que me encostaram na parede, exigindo meu recuo.  Muitos estão mortos. O “Domingos” livrou-se deles como quem se livra de uma calça velha rasgada; outros não aceitando tais manobras, foram desistindo da política, entregando os pontos; - o dinheiro falou mais alto.  Muitas balas zuniram nos meus ouvidos, fui espancado e quase morto retirado do rio seco.  Ao recobrar os sentidos, tive o desprazer de tomar conhecimento do assassinato do meu irmão mais  novo e da minha namorada.  Estávamos pescando a um quilômetro daqui, no baixo do rio quando se aproximaram quatro capangas encapuzados, saltando sobre nós. Lutei, ao mesmo tempo em que dirigia o barco rumo à correnteza.  Esbofeteavam minha noiva e
golpeavam meu irmão, em dado momento, o barco virou; levei uma paulada e desmaiei descendo pela correnteza, fui recolhido por seu Francisco dos anjos- o coveiro, quando esbarrei na cerca do seu quintal.  Minha noiva e meu irmão só foram encontrados três dias após- no Pontal.  Depois desta tentativa malograda, não me restou outra alternativa senão, sair daqui, pelo menos, enquanto durasse este estado de coisas.
          Constituí advogado, procurei os políticos, entretanto, não encontrei eco. Dos Tribunais nada se podia esperar porque tudo caía nas mãos do juiz de Cipoal, que era da família “Domingos”, que assistia também aqui...  Na minha ausência a minha família carregou as conseqüências do meu infortúnio.  Meu pai faleceu por um colapso, na noite em que sua casa foi arrombada, ansiosos por um documento que comprometia o prefeito: O documento referia-se a obras contratadas com dinheiro da Câmara, sem consentimento dos vereadores, pois a Prefeitura possuía verbas destinadas exclusivamente a estas obras: era a reforma da praça, cujos gastos, somavam três vezes o valor apresentado em pesquisas. Realmente este documentos estava lá e foi levado por eles. Como última cartada, minha irmã foi seqüestrada e estuprada pelos capangas do “Domingos” – graças a Deus, mortos em uma emboscada por amigos meus.
          Minha vida, daí por diante, ficou condicionada  a um encontro com qualquer um deles para um confronto de vida ou morte.  Todos os meus dias foram dias de pavor...mesmo coberto de apoio e proteção, nunca me senti feliz ou seguro.”
          No final desse depoimento, Osmar foi ovacionado e cumprimentado; entre os poucos que sobraram de sua família estavam duas das suas irmãs que subexistiram às torturas.
          - Eis aí meus amigos, recomeçou Sebastião: O fascínio desses loucos acabou com nossa cidade. Trancou as mentes e matou várias gerações.  Enfeou-lhe a imagem, desbotou-lhe as cores. Impôs-lhe o império da ignorância, agora sepultado para sempre. Daqui
por diante exterminaremos qualquer lembrança deste infindável temporal e implantaremos um novo sentido nas nossas diretrizes de vida, dentro da nova mentalidade, baseada no sentimento humano a que têm direito os seres racionais. Não seremos salvadores, entretanto, ainda chegamos em tempo de segurar as últimas levas dos bens agonizantes e os poucos que restaram dos nossos amigos abatidos na inconstância dos momentos difíceis, procurados como malfeitores pela tirania implantada -  assim terminou Sebastião.
Zecar
Enviado por Zecar em 22/05/2005
Reeditado em 05/08/2007
Código do texto: T18909
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Sobre o autor
Zecar
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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