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Mansa existência

Era uma tarde de verão, e lá estava ela: sentada sob o amontoado de areia úmido de chuva. Ela gostava de sentir o molhado da superfície debaixo dela. Parecia que algo que vinha de fora a fazia se sentir viva. Como admirava o horizonte, e nele convergiam todas as imagens e belas paisagens que havia por ali.
Ela respirava brisa, comia vento. Não chegava a ponto catastrófico de engoli-lo, pois engolir o vento assim, sem mais nem menos, era perigoso; colocava em risco expor todos os seus medos, toda sua vida. E isso, já era algo constrangedor demais pra alguém da sua idade. Ela só queria repousar seu espírito, nada mais. No entanto, isso- instante revelador ou complicador? dava a ela a oportunidade de se devorar.
Ela se levanta, tentativa inútil de sair; ela toca sua pele com uma ternura esquecida pela vida árdua do trabalho e da imediatez. Como ela se arrepende de não ter podido saber da tenra existência de seu corpo antes!
Porém se levanta: suas pernas tremem. Fica de pé. Estaria agora com vitalidade de quem sabe que vive pra seguir em frente? O sol, no entanto, não se importava- continuava a crestá-la. Sua pele descascada era a evidência gritante que ela sofria de metamorfose.
Caminha em direção ao nada. Sem propósito algum sabe que deve se desviar do caminho. Passo por passo.Vida por vida. Ela se torna memorável pra si mesma. Seus pés trôpegos já não suportam tanto peso. Por um instante- pensa em desistir.
Levanta-se. Soluça de fracassos. Vê um poste parado. Seu olhar perpassa obliquamente sua sombra. Ela se enxerga no poste: ali, parado, inerte: sem expressão, sem forma. Ela poderia desafiar a grandeza do poste? Poderia senti-lo ao menos uma vez? Estaria assim livre do fardo que carrega por toda a vida? Tinha medo. A idade já não lhe permitia peripécias como aquelas.
O pior ainda não tinha acontecido: ela tinha um segredo que não se tornara independente dela. Ela precisava jogar na água e , assim, as águas do mar levariam seu mais íntimo segredo. Aquilo a angustiava, deixava-a entalada no estômago ( ela não conseguia digerir aquilo). De repente, ela sentiu vontade de cantar:
- eu sou um alguém, um alguém... me puxa pela mão meu amor e me afoga com toda a sua candura de anjo.
Ela inventou as notas cambaleantes e sopradas das lágrimas que não estavam molhadas o suficiente pra sair dela. Ela precisaria cantar mais? Conseguiria assim entrar em harmonia com o mundo? O ato de murmurar pra si mesma sons sem significado ( tinha significado pra ela mesma?) a fazia cabê-la em si mesma? Isso traria à tona sua vida mal-digerida durante todos esses anos?
Eu: “ forjo profundidade no mundo, na paisagem que se encontra à minha frente pra eu mesma ter profundidade, transformo a materialidade do ser em algo menos espiritual ao conceber essa idéia?- falou pra si.
Chegava ao ponto de crer que estava velha demais pra ter esses devaneios, tinha dezenove. Mas pensando melhor um pouco... ela descobria que não sabia por que continuar pensando. Já tinha ido ali, estava ali. Por isso, decidiu fazer uma coisa de criança: rolava no chão dando giros- como ela mesma gostava de denominá-los, abismais.
Pra não contrariar essa força pungente que a consumia, que consumia sua vida mal-degustada. Ela. Ela? Quem?
Encontra uma pedra no meio do caminho. Pega-a. é tão sólida, firme. Esfrega a mão calejada na aspereza da pedra: sua mão fica toda ralada como criança que caiu de bicicleta e fica com o joelho machucado. Tinha pavor desde pequena que saíssem faíscas flamejantes desses seus machucados engendrados por seus ímpetos infantis. No entanto, ela estava ali. Perto do mar. Poderia  abraçá-lo quando desse na telha.
“ Run, baby, run.”
Mas pra onde? Já que é assim; ela corre. Deixa a pedra cair no chão. Não tropeça dessa vez que nem acontecia aos seus anos de moça inocente. Está tão feliz. Seus cabelos esvoaçantes têm uma magia pura. Pára! Estática. Corpo rijo e preso a terra. Fica tonta com tanto ar etéreo que passa furtivamente por entre suas narinas. Pensava: as narinas mais belas que eu tenho. Por devo ficar aqui atada a terra? O vento foge de mim distraidamente? Ele também quer chegar a lugar nenhum?
A indecisão é tamanha.Começa a escurecer. A dúvida também é escurecida? Ou apenas escurece assim como as águas de qualquer rio corre em direção...?
Decide sair da terra fofa e sedutora: areia. Pisa na calçada. Agora gira descontroladamente pelo controle vivo que está perdido em seu lugar no mundo. Ele poderia estar em outro lugar? Bum! Ela é atropelada. Sai de um orifício pequeno sangue-qualquer de sua cabeça. Admirada por tanta emoção. Morre feliz por ter um dia experimentado viver.

existencialista
Enviado por existencialista em 10/07/2006
Reeditado em 20/02/2015
Código do texto: T191303
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
existencialista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 29 anos
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