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ATRÁS DE UM OLHAR...

Hoje, olhei sob outra ótica o rosto das mulheres que estavam em torno de mim enquanto esperava minha vez no Posto de Saúde. Rostos distintos mas vestidos dos mesmos personagens que partilham a mesma opacidade na comédia que representam. Pareciam não existir naquele pequeno espaço onde se aglomeravam à espera de desvendar os mistérios que lhes alquebram os corpos. Caladas, enxergando umas nas outras as testemunhas silenciosas do próprio silêncio que lhes incriminam o desígnio de mulher. Percebi que havia em seus olhares uma certa tristeza estampada e um sorriso murcho que se desenhava para encobrir as sombras de suas mágoas e renúncias. Dissimulação talvez...

Dizem que as mulheres são dissimuladas. E o são na verdade. Um mal necessário para mostrar que são fatais e têm punhos de aço, quando no íntimo morre na solidão de seus próprios pensamentos. Negam a si mesmo a alegria em um olhar triste que se esconde detrás das retinas cansadas; ou sorri despojada para esconder a mesma tristeza que se esconde detrás de suas retinas.

Era manhã e a espera infinita como são todas as esperas nestes locais de serviço público. O silêncio era quase constrangedor. Mas por todos os cantos ouvia-se o eco de gritos surdos e lamentos que se transmitiam em telepatia umas às outras. No olhar um certo prazer de se verem na mesma condição ou compreensão pelo simples fato de serem mulheres; inimigas e amigas de infortúnios que a vida lhes propõe. Meu olhar se perde nelas traduzindo no silêncio os lamentos que pareço ouvir. E os ouço porque sou como elas e desenho nos seus traços minhas próprias sombras.

O relógio que olham automaticamente a todo instante, marca os minutos que lhe são preciosos e são perdidos nesta inesgotável tarefa de esperar. Há muita impaciência escondida numa inquietante calma. Eu posso perceber porque a sinto enquanto as horas se escorrem. São tantas as esperas além dessas necessárias ao corpo. A alma espera ainda mais. Ou já não espera porque as desilusões e as renúncias enchem as suas agendas imaginárias.

Do relógio, símbolo do tempo, o olhar de levanta para a porta do consultório na esperança que ele se abra para entrar a próxima vítima. Certamente lá dentro o silêncio da espera se transformará em fontes de desabafos que encherão os prontuários. O médico é quase um confessor dos males do corpo e escreve a penitência numa receita que elas dobram com cuidado como se ali estivesse a cura de suas vidas. Como se o mal da vida estivesse no corpo... Certamente o espírito é o que lhes alquebra, mas o médico não tem o poder de curá-lo.

Saem com o sorriso ainda mais murcho e o olhar baixo para não encarar o olhar de interrogação das companheiras de sala. Olhares que querem adivinhar o mal que lhes corrói a carne, quando a alma é que se despedaça. Nas mãos trêmulas, seguram a possível cura de seus males na forma de letras rabiscadas. Segura-o como se segurasse a certeza de sua salvação. E se vão para preparar ainda o almoço, pois suas vidas não param pelo simples fato de visitarem um médico.

Insisto meu olhar em uma senhora idosa. Seus olhos cansados foram os que primeiro entraram na moldura dos meus. Olhar murcho de quem já viveu muito e ainda procura viver através da medicina o que resta de seu corpo em decadência. Vejo-lhe as mãos magras que mostram nos sulcos impressos uma vida de lutas. Largam-se sobre o colo numa inércia que condiz com a espera. O tempo parece que lhe foge através dos anos que lhe são trazidos. Ao seu lado uma jovem senhora que segura o filho pequeno tenta conter-lhe a inquietação própria dessa idade. A calma de mãe tenta acalmá-lo, enquanto seu próprio olhar inquieto se perde pelas portas que se abrem e fecham e nunca lhe chega a vez. Reprime-se. Porque não é correto que saia das estribeiras.

A enfermeira vestida de branco e a moça que marca as consultas olham com ar de desdém as mulheres que lhe interrogam o olhar. A subjugação prende-as nos bancos de espera e baixam o olhar ante o olhar que lhes repreendera por estarem ali a precisar daqueles serviços. Não lhes compreende a necessidade e tortura-as com uma demora que machuca tanto quanto a humilhação de se exporem.

A primeira lamúria vem de mim. Reclamo da demora no atendimento. Não tenho muita paciência ainda que às vezes ela me surpreenda. Ao meu lado a senhora idosa me olha e sorri. Ela me olha como se me compreendesse e nos seus olhos de mulher, apenas uma resignação muda que as tuas mãos consegue trair. Levanta-se e disfarça sua própria impaciência no caminhar que a leva e trás fora da sala várias vezes. Mas não lamenta. Então descobri sabedoria escondida em todo o seu ser. Atrás do olhar que entrara no meu quando a olhei, querendo enxergar seus pensamentos, descobri essa sabedoria de mulher. A mulher que vive e se cala porque o falar muitas vezes irrita. A admirei. O silêncio a fez altiva.

Eu a admirei e estendi a minha admiração àquelas que estavam a meu lado. Mulheres com os mesmos prantos e promessas numa sufocante súplica que a era atual não lhes abrandou. São as ruas de sua vida que se esvaziam e janelas que lhes fecham num sufocante rumor de que seus direitos mudaram. A artilharia que lhes aponta a vida, traz-lhes ao semblante o olhar triste e o sorriso murcho numa guerra que não tem razão.

Perdi então meu olhar dentro de mim, para não pensar na espera irritante e não descobrir as histórias que envolviam o silêncio da sala. Na esperança do tempo que não voa quando estamos a esperar, tentei sorrir a alegria da cura para as mulheres que faziam sala comigo e gastei o meu tempo no silêncio, quebrado apenas pelos lamentos telepáticos que se cruzavam atrás de um olhar.


Conto publicado na Antologia de Contos de Autores contemporãneos-13º volume- Câmara Brasileira de Jovens Escritores- Rio de Janeiro
                     







Sonia de Fátima Machado Silva
Enviado por Sonia de Fátima Machado Silva em 14/07/2006
Reeditado em 14/07/2006
Código do texto: T194002
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
Sonia de Fátima Machado Silva
Coromandel - Minas Gerais - Brasil, 53 anos
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Sonia de Fátima Machado Silva