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Coisa de homem

    Na roça, quando criança, meu pai dizia sempre ao se dirigir a mim a palavra macho veio(algo como homem bravo), outra expressão também muito utilizada por ele, era Cabra macho, de igual sentido.
    Eu confesso que ficava envaidecido, me achando o tal,
o maioral, orgulhoso de mim mesmo, o que fazia com que eu, com apenas sete anos, me sentisse capaz de realizar grandes coisas e enfrentar qualquer perigo, no fundo me fazia sentir um pouco mais homem, mais adulto e menos criança. Fazia-me bravo, corajoso, um guerreiro destemido e valente.
    Era, em minha infância, algo comum e de certo modo importante, meu pai pedir que fizessemos alguma coisa, uma espécie de prova, na qual meus irmãos e eu provaríamos o nosso valor. Dentre todas as "provas" pelas as quais eu passei lembro-me de uma em especial:
    Certa noite, umas dessa noites bem escuras, sem lua, meu pai pediu-me que fosse buscar o seu chapéu e sua camisa que esquecera no curral, pois o tinha deixado no mourão. Eram já 8:00 da noite, horário já muito tarde para uma criança da roça.
    O curral ficava a uns quinhentos metros de nossa casa, além disso, eu teria que andar por um corredor feito por mancambiras, que iam até o curral. E já viu, na noite  ouve-se mais claramente o barulho das varedas, das aves no umbuzeiro, um uivo mais além, e a imaginação completa o resto e nos lembra de cobras, lagartos e lobsomem, pois era época de quaresma.
    Ao entrar no curral encontroei rapidamente a camisa, era branca, de malha e estava exatamente pendurada no mourão, quanto ao chapéu levei um tempo maior pra encontrar, pois o mesmo era da cor preta, e que por ser noite, encontra-lo ficava mais dificil.
    Quando retornei para casa, coisa que eu mais queria desde o início dessa empreitada. Estavam todos lá, em pé em frente a casa: meu pai, minha mãe e os meus irmãos.
    Ao vê-los sentir-me como que um cavaleiro do rei Arthur que retornava triunfante com o Santo Gral, como um herói, um vencedor.
    Não preciso nem dizer como que foi o resto da noite, nem o outro dia e nem a semana inteira, só se falava do meu grande ato.Isso é coisa de macho, coisa de homem meu filho, diziam todos.
    Esta e muitas outras lembranças e causos ainda estão na minha memória, tranzendo o gosto e o cherio das minhas aventuras e de minha querida infância na roça.
    Entre as poucas lembranças que tenho de meu pai, guardo uma em especial; a lição de que o caráter de um homem deve ser moldado pela coragem e vontade, das quais devemos nos utilizar para enfrentar as aventuras e perigos da vida, seja dia ou mesmo uma noite escura.
   
Rivelino Matos
Enviado por Rivelino Matos em 15/07/2006
Reeditado em 18/05/2011
Código do texto: T194346

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Sobre o autor
Rivelino Matos
Euclides da Cunha - Bahia - Brasil
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Rivelino Matos