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É NATAL!

Já disse PORRA, NÃO É NATAL – garoto burro! Também tendo àquela coisa como pai...

Ouve-se mais um grito.

Em seguida dois ou três estalar de dedos, supostamente numa bunda ossuda e de pequeno porte, e logo o barulho de passos miúdos amedrontados a correr.

A porta tosca feita de caixas de maçãs é aberta e dali sai um pequeno ser de dedo na boca, calção roto e blusa de malha, a cor já não dava para se definir, sendo de tamanho bem maior que àquele que a vestia; estavam os dois tão sujos e molhados de babá, mas ainda assim era possível ler na camiseta - SOU O FUTURO, ACREDITE! E nos olhos do pequenino - TENHO MEDO e FOME.
Do lado de fora do barraco àquele miúdo ser senta-se na calçada da casa vizinha desolado e sem compreender os gritos de quem deveria acariciá-lo e o por quê do açoite. O dedo está quase em osso puro, mas apreciavelmente maravilhoso àquele paladar. Uma sombra gigante aproxima-se e o encobre. O garoto ouve um sonoro - QUE FOI MOLEQUE? Isso o traz de volta. Entrecortando um soluço dirigi-se ao interlocutor com familiaridade:
- Bina, tu me dá um carrinho?
- Porra! Moleque tu me pegou, nem é natal... E tua mãe...?
- Aqui nego!
- Diz aí mulher que, que tu fez com o moleque dessa vez?
- Nada, ele tá inteiro num tá? Tu sabe... Já disse um monte de vez àquele moleque igual ao pai... Passa o tempo todo aporrinhando.
- Já que é igual ao pai, porque que tu num dá um brinquedim, tipo esse, pra ele conseguir uns carrim por aí?

Esquecem o garoto e riem-se...

- Porra, nego agora não! O moleque me deixou sem água na boca.
- Vem minha lindona, que eu te molho todinha!

O futuro a esperar...

Ao ouvir os sussurros daquele jogo amoroso o pequeno levanta-se e sai para perambular, com o dedo ainda na boca - cada vez mais o ato de sugar o dedo parece cumprir a obrigação de saciar a fome e afugentar o medo. Não muito longe entre outros tão iguais ele participa do nefasto festim e uma alegria insana o toma, fazendo-o sentir-se saciado e em pleno regozijo das quimeras infantis.

O tempo sorrateiramente passa.

E o show na praça movimenta pares e pares de mãos que se erguem na cadência de cada momento. Como outrora, é lançado pelos patrocinadores, astutos como aves de rapina à espreita da presa incauta, à multidão os mimos... Dentre tantas mãos, um dos pares, logra êxito vindo cair-lhe uma camiseta diretamente. O felizardo veste-se de imediato, para que não lhe fosse arrebatada, a tão disputada camiseta que trazia por escrito - EU SOU O SEU PRESENTE.

O espetáculo prossegue...

Rindo-se à toa e trajando a camiseta cobiçada, o ganhador em transe, deixa a praça. A fome ainda o atormenta, porém o medo já não o assusta.
Próximo à praça - Um grito ecoa...
- É NATAL!
- Sai porra! Sai...

Depois de uns seis estampidos, um corpo é jogado no gramado da praça, e o barulho de pneus queimando no asfalto é deixado no ar.

- Que moleque burro! Devia ser igual ao pai àquele filho de uma égua.
- E aí Dedim, moleque doido, até que em fim... Que carrão bonito, véi!
- Hoje é natal num é...?
Cláudia Célia Lima do Nascimento
Enviado por Cláudia Célia Lima do Nascimento em 16/07/2006
Reeditado em 23/10/2006
Código do texto: T195464

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Sobre a autora
Cláudia Célia Lima do Nascimento
Luziânia - Goiás - Brasil, 51 anos
476 textos (16062 leituras)
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Cláudia Célia Lima do Nascimento