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DOS CONTOS DO VILAREJO-"Nívea e Rosilda no rio sec

NÍVEA E ROSILDA NO RIO SECO
          Descendo o desfiladeiro que desemboca no Rio Seco pelo lado leste do Vilarejo, um vulto de gente  desbrava a areia branca e quente ao escaldante sol do meio-dia .
        -Quem será esse matulão, viajando por caminhos há muito desprezado pelos nossos? – comentou Rosilda desfazendo a trouxa de roupa na pedra de lavar.- Só pode ser um estranho!
-Sei lá mulher... é melhor prestar atenção ao serviço pra gente ir embora logo; não vamos fuxicar a vida dos outros não – respondeu Nívea batendo o sabão na bacia.
      - Eu que diga... já estou cansada de fuxicos e comentários maldosos.  As pessoas aqui só sabem falar mal da vida dos outros. não são só as mulheres não: os homens não se preocupam com mais nada... ontem  o Marcelino me disse que toda vez que se juntam na praça é para falar e analisar as mulheres casadas, os cornos e catalogar as "raparigas" (prostitutas).  Disse que contaram mais de trezentas “raparigas”, assim se expressou ele. Com certeza a mãe e as irmãs dele estão incluídas nesse meio – concluiu Nívea.
            - Vivo escaldada com tanta baixaria e com tantas mortes – dialogou Rosilda: a gente vai pra escola para aprender a ler, se forma, e pra que? O que se pode ensinar aqui? É só cadáver por todo canto...não há uma noite que não se mate nesta terra! Já vivo de orelha em pé, quando vejo alguém entrando  no Vilarejo pelo desfiladeiro – caminho muito incomum para se chegar aqui.
      - Qual é a diferença de entrar pelo desfiladeiro ou  outro lugar?
      - Santa ignorância... tu bem sabes que o desfiladeiro é o lugar preferido pelos ciganos: por onde passam roubam tudo... não te lembras mais o que aconteceu com a filha do Cesário? Vais me dizer que já caiu no esquecimento!  Não faz muito tempo ela foi raptada por uns ciganos e nunca mais se soube do seu paradeiro.
      - tu achas mesmo que Dodora foi raptada – na minha opinião só se foi pra casar na delegacia... ela não podia ver um cigano... era só eles acamparem no JaqueiraL, quem primeiro chegava era ela. Eu não creio nesta conversa, até que tem uns ciganos bonitinhos que não são de se jogar fora, você não acha?
      - Com a falta de homem que anda por aqui!...
também os homens daqui, só ficam os que não prestam ou os que são comprometidos; o resto só cheira a fogo e faca, não sabem para que vivem.  Já acordam com o copo na mão ,aí é o dia todo bêbado!   Cambada de imprestáveis!
               -Pois é nequinha; onde fomos nós nascer e se criar... quem sabe a gente podia fazer bonito noutro lugar, afinal não somos tão feias assim... é ou não é?
                -Uma vez ganhei um vestido lindo de uma mulher em Cipoal, não botei porque achei um exagero mas, bem que fiquei com vontade ... acho que ia ficar muito bem em mim, mas pensei: para que botar vestido novo e bonito? para quem? Só para agradar aos olhos dos homens casados ou para inchar a cabeça das mulheres ciumentas? A gente não fazendo já pensam, imagine fazendo!  Outro dia só porque botei um vestido com um pequeno decote em cima dos peitos, as mulheres que passavam por mim torciam os beiços...só podia ser desfeita ou medo de perder os maridos; homem algum reclamou ; só mulheres.
-Elas não sabem de nada- falou Nívea: Se elas olhassem as revistas que o Laurindo traz de Cipoal... ele me mostra todinhas.  Eu pra ler tenho que me embrenhar no matagal. Sei que se a mãe um dia pegar essas revistas vai ficar fula da vida ou morrer do coração.
      - E tu sabes ler, Nívea?
      - Não é preciso; é retrato, não tem nada escrito
      - E que revistas são estas, bicha doida! O que é que elas têm de tão especial que ninguém pode ver?
          - Homem e mulher pelada de todo jeito, fazendo mil imoralidades... e a gente vê cada coisa!!!...
      - Meu Deus! cruz credo... e tu andas vendo essas coisas?
      -Que coisas, mulher!
      - Estas que tu falaste agorinha mesmo!
      - Ai!... Eu falei?
      - Maldição do demônio... tu não falaste da tal revista de homem e mulher pelada, maluca! eu também já ouvi falar, só que não acreditava que fosse verdade e muito menos que  o Laurindo tivesse coragem de trazer uma coisa dessas pra ti!
      - Eu e Laurindo compreendemos um ao outro; somos como dois irmãos.  É! Eu não sei porque te contei isto!  Isto é segredo, espero nunca saia da tua boca...  Ninguém mais neste mundo sabe desta conversa.  Eu e Laurindo temos planos de morar juntos em Cipoal, é só esperar que ele melhore no trabalho; ele é  um pão!
       -Certamente ele é como um dos homens dessa revista, não é?
      - Tu já estás querendo que eu me abra de mais.  daqui a pouco tu queres saber se eu ando por debaixo das moitas com ele...
      - tu andas, eu não duvido nada! Depois desta estória...
      - Cala a boca, com esta tal de moralização  que andam falando no Vilarejo, se alguém sabe das minhas façanhas, são capazes de me apedrejarem na rua.  Estas mulheres cheias de vergonha, todas deram para os “Domingos” e devem estar com saudade deles; dizem que foram forçadas, mas eu não acredito; como eu nunca dei?
      - Nem eu!
      - Então viva nos faladas!
           Até hoje nenhum homem nunca se fez de besta para o meu lado.  É verdade que eles tentaram mas nunca conseguiram; a  gente não faz o que não quer.  Para que se quer dente e unha? Para me tomarem à força  só se me rasgarem as pernas.
      - É mesmo mulher; eu mesmo sei de muitas  que viviam brigando por Bernardo, filho do Domingos. antes de morrer deixou mais de dez filhos só aqui dentro de Vilarejo.
      - Agora quem vai criar? Homem assim não quer nada com compromisso!
      - É... mais o caso é que ele estava extrapolando: fez mal à filha de Fagundes que tinha apenas onze anos.
      - Aquilo era um monstro perverso: uma vez me esperou na rua do Cabo, mas eu nunca apareci; mesmo... comigo ele sabia tratar senão eu botava os podres dele na rua.  Eu sei de muitas coisas horríveis da vida dele; ele tinha medo que eu abrisse o bico.: Uma vez ele estava ameaçado de morte pelo velho Domingos pai dele e veio se esconder  lá em casa.  Passou três dias escondido na tapera do milharal. Lá ele fez mal até as cabras e as jumentas. (O pai pegou ele enrabando uma jumenta). Mais ignorante do que aquilo eu estou por ver; esteve escondido porque o "veio" pegou ele  seduzindo a Zilca, filha e “rapariga” de Raimundo, tio dele. Era um tarado, que Deus me perdoe, mas era o que diziam dele.
      - Então Nívea. Muita gente diz que esta tal de Zilca andava de mão em mão igual a brincadeira de anel!
      - Pois é Rosilda. Ela e a mãe tiveram uma morte horrível.  Foram quebradas no meio e amarrada a cabeça nos pés, enterradas num tambor de óleo, jogadas do alto do desfiladeiro dentro de um buraco quase descoberto.  Os urubus que descobriram os corpos.
      - Ave Maria! Que crime mais monstruoso!
      - Tu te lembras da avó dele, a mãe do Domingos? Dizem que foi enterrada viva. Vivia doente quase à beira da morte, mas não morria.  Um dia a velha teve um desmaio eles a colocaram numa rede amarrada com uma corda e levaram  para o cemitério da Fazenda do Domingos para ninguém ver e fizeram o sepultamento.  Logo em seguida o Domingos se apossou da herança que pertencia também aos outros irmãos.  Quando a velha estava viva era tratada de: rabugenta, caco velho, imunda e outros predicados maldosos; aproveitaram o desmaio e a enterraram.
      - Ave Maria! Sebastião é mesmo um santo, só ter acabado com essa raça... essa carnificina... agora tudo melhorou por aqui em vista do que era antes.  Tudo tem um fim e o fim deles foi assim: O velho Raimundo morreu capado, retalhado e depois queimado;  Bernardo e “sem dedo”, envenenado e queimado.  Os que fugiram, nunca mais botarão os pés aqui se não quiserem ser também queimados vivos; por toda parte se ouve falar isto.  Tomaram todas as fazendas e sítios deles, porque tudo era roubado.  O dinheiro da Prefeitura era usado em orgia e conforto.  Todo mundo lá tinha do bom e do melhor às custas do nosso suor. Você sabe que minha irmã Maria morreu de parto porque ele não emprestou o carro para leva-la para Cipoal... no Vilarejo nem doutor tem.
      - Sim, Nívea mas eles tinham muita coisa fora daqui.  em  Cipoal tinham fábrica,posto de gasolina, hotel e muito dinheiro no Banco.
      - É, todo mundo fala nisso, mas o doutor Administrador já falou pelo rádio que vai ser tudo tomado de volta.
      - E os que estão em nome de outras pessoas?  Estes bens fica muito difícil localizar... dizem até que o Domingos tinha vários nomes.  Fora do Vilarejo não era conhecido por esse nome.  Você se lembra? Há algum tempo apareceu em Vilarejo um senhor procurando o Paranhos e ninguém sabia quem era essa pessoa, pois era ele.. a explicação que deu foi que se chamava Paranhos Domingos, apenas não usava este nome porque todos o conheciam como Domingos. Finalmente, eram todos enrolados. A família toda morta, por causa dele de olho na herança.
      - É o diabo minha filha! Ô gente azarenta, urucubaquenta... o que estarão aprontando lá por cima!. Só sabiam fazer filho; deixaram filho pra todo lado e nada de sustento para as mulheres.  Pensando bem, tiveram o que mereciam; devem estar fervendo no caldeirão do inferno e não deve haver caldeirão para todos; o diabo vai cortar voltas com eles.
                  - Quem sabe quanto trabalho estão dando a satanás, não é Nívea.? Olha está vindo aquele vulto do desfiladeiro, é um homem.
      - É um negro...
      - Você é racista, Nívea?
      - Não gosto de negros; são muito pedantes.
      - Ah!... Nívea! Coitado do homem! O que foi que os negros te fizeram?
      - Estive empregada na casa de um negro que me pisava, me maltratava, me mandava fazer as coisas com muita arrogância; nunca mais trabalho na casa de negro; eles só queriam ser...
      - Psiu... psiu...moça – diz o estranho: Bom-dia...
      - Bom-dia, respondeu Rosilda!
      - O caso é o seguinte minha filha: Eu estou vindo aqui à procura de Josias – o sacristão da Matriz.  Vou-lhe explicar do que se trata: Sou mandado por Zelma – a companheira do Pe. João – ele morreu à três dias!
      - Pobre Pe. João... de que foi que ele morreu, senhor... como é mesmo seu nome?
      - Vando,... meu nome é Vando.
      - Senhor Vando... Deus que o tenha em paz no outro mundo – disse Nívea... mais um...
      - O que a senhora disse? Perguntou Vando.
      - Nada... estou falando com meus botões....
      - Sim, mas o médico, segundo o que falou, morreu de meningite.
      - Que doença é esta? Inquiriu Nívea
      - É uma doença em que as pessoas morrem abiloladas.  Ele chegou em Serra Alta com esse mal e foi piorando... piorando... tinha dia que não deixava ninguém dormir.  Estava também com mania de perseguição; amedrontado, sentia-se perturbado por elementos que o queriam matar... isto tudo na cabeça dele... imagens; havia momentos que três homens  não conseguiam segura-lo, tal era a força que tinha.  certa hora, essa senhora que estava na companhia dele, deu-lhe um chá para acalmar os nervos e ele não acordou mais.  É esta a versão que corre entre o povo de Serra Alta.
      - Que Deus tenha pena da alma dele, interrompeu Rosilda. afinal de contas viveu muitos anos em Vilarejo; era ruim, mas não dos piores!
      - Se vocês me fizerem este favor- disse o estranho- de avisar na Igreja, eu voltarei daqui mesmo. Soube que ele é parente da família Domingos e que o prestígio deles está completamente apagado por aqui... eu não sou nada dele...apenas fui pago para avisar, mas vim prevenido quanto a reação do povo.
      - Está bem. Pode deixar que nós avisamos; o senhor, pode ir.
      - Então meus agradecimentos e até outra vista!
      - Se Deus quiser!
E partiu Vando.
      - E agora Nívea, como vamos fazer?  Corre um boato em vilarejo que todo “Domingos” que morrer, será trazido para cá  e tocado fogo sem dó!  será que vão fazer  isso com  o Pe. João?
      - Isto são as pessoas insatisfeitas que falam assim- afirmou Nívea. Isto é coisa do seu Francisco cantor- o coveiro.  Eu já sei o que vou fazer; eu vou comunicar ao Sebastião, ele saberá contornar o problema com sua astúcia e diplomacia.
      - Cá pra nós: O Pe. João também não era flor que se cheirasse; ele em vez de ajudar aos pobres, fazia era tirar deles.  Quando saía para pedir era num caminhão do “Domingos”, ia pegando o que encontrava pelo caminho: Era cabrito, galinha, pato ou até bezerro.  Os pobres chegavam a ter medo dele.
             Certa vez uma mulher que sofria de elefantíase, (aquela doença que as pernas da pessoa ficam iguais às pernas de um elefante), aproximou-se dele, pediu-lhe uma esmola e sabe o que ele respondeu?
      - Não.
      - Sai pra lá monstra!
      - É pra você ver como é a vida: Rico, cheio de terras pras bandas onde morreu...mulher, um filho doente mental e também morreu doido e envenenado pela bruxa da Zelma.
      - Hummmm! E nem o bispo sabia do paradeiro dele.  É melhor a gente ir!...
        Para tranqüilidade do povo de Vilarejo, morreu o último do reduto dos “Domingos.”
Zecar
Enviado por Zecar em 27/05/2005
Reeditado em 24/06/2016
Código do texto: T19992
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