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OBSESSÃO: a verdade sobre meu pai - cap. VIII

Revelação

Deitada na cama, Fernanda sentia-se segura em seu antigo quarto. Vários e diferentes momentos de sua vida atormentavam suas lembranças. Emocionada, analisava tudo o que viveu levada pela amargura. Invadida pela tristeza, cismava sobre o rumo que seu casamento tomava. Toda a confiança que depositara no marido foi perdida, sofria amargamente por um ciúme doentio. Estava enlouquecendo rapidamente. Temia a solidão muito mais do que ser enganada, por isso receava o abandono. Sofria em silêncio, engolindo as próprias lágrimas, não agüentando mais a incômoda situação em que se via presa.

Logo que chegou à casa dos sogros, Jean apressou-se em voltar a sua. Tinha que providenciar a limpeza e guardar as cartas de seu pai o quanto antes melhor, por isso não podia esperar muito tempo. Pedro tentou repreendê-lo, mas foi em vão. Estava obcecado. A descoberta das cartas deu-lhe esperanças de desmascarar o passado escondido. Encontrara o caminho certo do labirinto, mas sentia que deveria tomar cuidado, ao menor erro, tudo estaria perdido, poderia encontrar o Minotauro e perder a vida. Não deu ouvidos ao sogro, não se importou com o ar reprovativo de Rita. Partiu tão rápido como chegou.
 
Já estava em casa, mergulhado em pensamentos contraditórios acerca do pai, esperava Jurema chegar para ajudá-lo na limpeza da sala. Quando ouviu soar a campainha, Teve certeza de que era ela. Esperava descobrir mais elementos para sua investigação, afinal a velha empregada trabalhava com sua família desde que seus pais se casaram. Certamente ela sabe de alguma coisa, pensava, enquanto caminhava até o portão de entrada.

— Como ela está — perguntou Jurema, antes mesmo de cumprimentá-lo.
— Melhor, está na casa dos pais, não quero que ela fique nervosa, vendo o que aconteceu aqui — justificou-se.
— É — disse ela num tom reprovativo —, mas seria bom se ela visse o que fez aqui. Duvido que não iria pensar duas vezes antes de beber de novo — esbravejou. —  Desse jeito não vai adiantar nada.
— Foi um acidente, Jurema. Fernanda não é de embriagar-se dessa maneira, você sabe disso. Tenho certeza de que ela aprendeu a lição e nunca mais fará isso.
— Não sei, não. Acho que se vocês não ralharem com ela, o que aconteceu ontem, vai acontecer de novo. Não fica bem mulher beber, ainda mais desse jeito. Homem, eu até entendo, mas mulher fica ruim. Não queria falar isso para você, mas é verdade, ainda mais que ouvi os vizinhos falando que viram você carregar a Fernanda desmaiada para o carro. Imagina o que mais eles estão dizendo por aí. Coisa boa não é!
— Não quero nem pensar nisso — disse ele, preocupado, ao confirmar suas suspeitas: Vera viu o que aconteceu entre ele e a esposa. Não queria pensar no que a velha estaria espalhando para a vizinhança.
— Pois é, pode se preparar para os comentários, rapaz — sentenciou. — Agora vamos ao trabalho, porque eu não quero sair daqui tarde.
— Como está minha mãe? — perguntou, mudando o assunto.
— Do mesmo jeito, sentindo muita dor de cabeça e deitada o dia inteiro. Já cansei de falar para ela procurar um médico. Uma vez ou outra, tudo bem, mas dor que nunca passa não é normal. Você deveria conversar com ela, porque eu já cansei de falar com as paredes.
— Vou convencê-la a procurar um tratamento.
— Acho difícil — lamentou-se, franzindo a testa e olhando de lado.
— Vou dar um jeito — disse convicto.
Entrou em seu escritório, deixando-a na sala.
Jean andava de um lado para o outro, buscando coragem para abordá-la e exigir a verdade. Estava nervoso, temia a reação de Jurema ao ser encurralada. Fumava excessivamente um cigarro atrás do outro. O cheiro forte da nicotina o enjoava, mas não conseguia parar. Tirou do armário uma garrafa de uísque e encheu um copo. Levando-o à boca, lembrou-se de Fernanda e desistiu de beber. Tentou em vão retomar o trabalho, mas não conseguia se concentrar em nada. Voltou à sala.
— Jurema, quem é Paula? — perguntou receoso.
A mulher arregalou os olhos, não acreditando no que acabara de ouvir.
— Quem é Paula? — repetiu seriamente.
 As palavras fugiram e ela ficou muda. Não sabia o que fazer ali parada, segurando a vassoura e tentando entender como ele descobrira aquele nome.
Jean notou o seu assombro e teve a comprovação de que ela sabia do caso de Charles.
— Quem é ela, Jurema? Não adianta mais esconder, eu já sei de tudo. — falou rispidamente.
— Se você sabe de tudo, então não preciso dizer nada. Eu não sei quem é essa mulher — tentou esquivar-se da pergunta.
— Ora, vamos, não se faça de desentendida. Eu entrei naquele maldito escritório e vi o quadro.
— Você não deveria ter feito isso — falou asperamente. — Eu sabia que deveria ter mandado você sair de lá, assim que eu descobri o mexendo onde não deve. Esse assunto não diz respeito a mais ninguém — disse duramente, temendo ser forçada a falar sobre o que sabia.
— Eu tenho o direito de saber — irritou-se, elevando o tom de voz. — Não é justo que me negue isso. Durante toda a minha vida vi meu pai como um exemplo a seguir e, agora, descubro que ele não era nem sombra de quem eu admirava. Minha vida está se destruindo aos poucos e não posso fazer nada, enquanto não entender por que todos desconfiam da minha integridade. É injusto, Jurema, negar que eu conheça a verdade sobre meu pai quando várias pessoas sabem mais dele do que eu — desabafou, deixando as palavras libertarem-se.
— Essa história é muito delicada — lastimou-se resignada. — É melhor que você a esqueça, porque não vale a pena esmiuçar o que já foi enterrado. Pense em sua mãe, por favor! Ela não merece sofrer tudo de novo.
— Eu não contarei nada a ela, prometo a você — suplicou, puxando-a para se sentar com ele no sofá.
— Mas ela vai saber, porque eu vou ser obrigada a contar — falou tristemente.
— Por quê? — perguntou impaciente.
— Esqueça isso, rapaz, sua vida é muito boa, você tem uma ótima esposa, uma mãe dedicada, bom emprego... — parou por um instante, pousando a mão em sua testa — por que você quer mexer com o que não importa para você?
— É um direito meu saber o que meu pai fez.
— Ele nunca quis que você soubesse das coisas que diziam respeito somente a ale.
— Mas você sabe! Ele contou para você ou descobriu tudo por acaso?
— Não posso! Meu erro foi grande no passado e não quero aumentá-lo agora.
— Por favor, Jurema, não faça isso comigo. Não me negue o que sabe — implorou, irrompendo em lágrimas angustiosas a fim de convencê-la.
Jean, soluçando e tremendo, afundou a cabeça em suas mãos. Nesse instante, percebeu a mudança que tivera sua vida em pouco espaço de tempo. Deixara de acreditar nos sonhos e no casamento e principalmente no amor, pois as desconfianças de Fernanda faziam sua paixão diluir-se cada vez mais rápido. Seu choro aumentava e Jurema não encontrou outra solução para acalmá-lo a não ser o que fizera com Elizabete anos passados: contar-lhe o que sabia.
— Certo, Jean, vou quebrar a promessa que eu fiz para sua mãe. Escute com atenção, porque não vou repetir
Jean ergueu a cabeça e a fitou nos olhos com uma expressão piedosa e desamparada.
— Se você contar para alguém que fui eu que contei para você, vou negar tudo, ouviu — disse ela, demonstrando descontentamento.
Um profundo silêncio dominou a casa, Jean a olhava sem nada dizer. Examinava os traços do rosto de Jurema, contemplando a voracidade do tempo naquela figura sofrida. Ela, engasgada pela própria saliva, procurava um meio de resumir as coisas que sabia e aliviar o peso da verdade. Permaneceram mudos por vários minutos, se estudando minuciosamente.
O tempo transcorria e os dois continuavam calados. Jean tentava adivinhar o que poderia ser tão difícil de ser dito, mas não se arriscava a perguntar. Formulava os piores pensamentos possíveis e não chegava à conclusão de nenhum deles.
Jurema buscava um meio para iniciar sua confissão. Era difícil pronunciar uma única palavra a respeito da vida de seus patrões. Doía-lhe assumir a cumplicidade no adultério de Charles. Esperava que as imagens passadas se formassem em sua lembrança, mas o véu escuro a impedia de ver com clareza. Sentia-se sufocada por trazer de volta os conflitos de um passado distante; as lembranças eram amargas, por isso arrependera-se de ter permitido essa situação. Estremecia ao ver os olhos ávidos de Jean sobre ela, tamanho era o medo que a assolava. Fixou os olhos no chão ainda sujo para não ter que encará-lo e confessou seus pecados.
— Perdi muitas noites de sono por fazer parte do que você está me obrigando a contar. O que pode parecer normal hoje, naquela época, se tivessem descoberto, teria sido um escândalo a loucura que seu pai fez.
Jean a ouvia com atenção.
— Quando seu pai foi para São Paulo trabalhar, logo no início do casamento, Elizabete não gostou da idéia, porque tinha medo de ficar sozinha aqui. Sua mãe, na época, era uma menina ingênua e apegada ao seu pai. Para ela, ficar longe dele era o mesmo que perder a razão de viver.
— Não sabia que meu pai trabalhou em São Paulo — interrompeu-a.
— Tem muita coisa sobre seu pai que você não sabe — afirmou.
— Estou vendo!
— Como não teve jeito, ele viajou e só iria voltar no fim do ano para buscá-la, mas, sua mãe não quis se mudar. A idéia de morar em um lugar cheio de pessoas de todas as partes do país a assustava. Preferiu a tranqüilidade do interior à selva de São Paulo — parou por um momento, não conseguia organizar o pensamento, era difícil contar a ele a vida de seus pais. Lançou, novamente os olhos para chão e continuou. — Quando retornou, no fim do ano, Elizabete tinha a esperança de ele desistir da mudança e abandonar o emprego, mas depois que foi embora, seu pai não quis mais voltar. Nada o convenceu, porque lá ele ganhava bem mais do que aqui.
Jurema não revelava nada importante sobre o pai. Não queria saber de detalhes desnecessários, ela já falava há horas e não citara o nome de Paula sequer uma vez. Estava se irritando com as voltas que fazia para desorientá-lo.
— E Paula, Jurema? — interrogou-a, percebendo a intenção dela em fugir do verdadeiro assunto daquela conversa.
Os olhos da empregada encheram-se de raiva. Cerrando os lábios, tentou controlar a angústia que lhe preenchia o peito e continuou:
— Poucos anos depois, sua mãe estava feliz, porque seu pai voltou para casa, mas essa maldita mulher acabou com sua alegria e fez um inferno em sua vida — falou irritada. — Certo dia, eles saíram e ficaram a tarde inteira fora de casa, quando voltaram do passeio, eu entreguei uma carta que tinha acabado de chegar para seu pai. Ele a tomou com violência de minha mão e se trancou no escritório pelo resto do dia. Sua mãe e eu ficamos paradas no jardim espantadas com a atitude dele. Quando resolveu sair daquele maldito lugar, estava transtornado e, sem dizer nada, pegou a mala e foi embora.
— O que dizia a carta? — perguntou curioso.
— Não sei — mentiu, novamente ficando em silêncio.
— Continue, por favor — suplicou-lhe.
— Sua mãe ainda tentou contar que estava grávida — pôs as mãos sobre o ombro de Jean, acariciando-o com um carinho maternal —, mas ele não a deixou falar. Estava com muita pressa e transtornado. Toda a alegria dos dias anteriores deu lugar a uma forte tristeza em sua mãe. Uma semana depois, ele voltou diferente, irreconhecível. Muito nervoso, perdia a paciência por qualquer motivo e se trancava no escritório, passando dias inteiros sem falar com ninguém. Ficou assim até o dia em que voltou ao trabalho.
— Vocês souberam por que ele estava assim?
Ela pensou em contar tudo nos mínimos detalhes, mas não poderia revelar o que aconteceu naqueles anos sem sentir-se uma traidora. É melhor não contar todos os problemas daquela época, cismava, ele não precisa saber de tudo.
— Mais ou menos um mês depois, sua mãe recebeu uma carta de seu pai, dizendo que estava voltando para casa. Pediu desculpas pelo estranho comportamento que teve quando recebeu a notícia de que seria pai. Sua mãe se encheu de alegria e esperou ansiosamente até ele chegar. Charles estava muito mais calmo e simpático, diferente da última vez. Mas sempre que Elizabete falava sobre tempo em que ele ficava trancado no escritório, perdia a paciência e ficava violento.
— E o emprego? — perguntou, desconfiado.
— Foi nessa época que seu pai se transferiu para o Rio de Janeiro. Trabalhava de segunda a sexta e nos fins de semana voltava para casa.
— Então ele conheceu essa mulher no Rio — concluiu.
— Na verdade, não — disse Jurema, balançando a cabeça negativamente. — Ele a conheceu ainda em São Paulo.
— Mas como vocês souberam?
— Ele trouxe de lá o quadro que você achou.
— Teve coragem de mostrar a vocês? — perguntou escandalizado.
— Não! Quando o vimos com o quadro embalado embaixo do braço, perguntamos o que era, mas ele foi grosseiro e não respondeu. Guardou-o no escritório e, a partir desse dia, proibiu a entrada em sua sala.
— Agora começo a entender...
— Não demos muita importância, pois ele era todo zelo com sua mãe. Tudo estava perfeito como nos primeiros meses de casamento, até o dia em que outra carta chegou. Essa, infelizmente, foi sua mãe que recebeu. Ela ficou intrigada por não ter remetente. Esperou seu pai chegar do Rio, se controlando para não rasgar o envelope e descobrir o que dizia — falou, revendo em sua memória Elizabete andar desorientada pela casa. — Quando ele chegou, ela o esperava furiosa. Não deu nem tempo de acalmá-la, porque assim que ele entrou em casa, pude ouvir os gritos de sua mãe, exigindo uma explicação. Ele inventou uma desculpa, que não me lembro agora — Jurema coçou a cabeça, chateada com as lembranças —, mas sua mãe o mandou ler a carta em voz alta. Ele negou o seu pedido e saiu apressado,  bufando pelo corredor. Estava tão irritado que, graças a Deus, nem me viu atrás da porta. Entrou no escritório, batendo a porta com muita violência e não saiu mais naquele final de semana.
— Era dela, não é? Ele recebia cartas da amante em casa. Você sabia de tudo e não contou a minha mãe. — indignou-se, acusando-a.
— Eu não sabia que eram dela — falou irritada com a acusação, engolindo a saliva e se levantando do sofá. — Você não vai entender.
— Tente! — disse furioso.
— Antes de partir, seu pai me chamou para conversar. Foi a primeira vez que entrei no escritório depois que ele voltou e nunca mais quis pisar lá de novo, porque senti tanto ódio quando vi o quadro daquela mulher pendurado na parede, que tomei as dores de sua mãe e quis rasgá-lo na frente dele, mas quem sou eu para fazer isso — lamentou-se, sentando novamente no sofá.
Jurema se calou, chorando compulsivamente. Jean conclui que a conversa com seu pai era o motivo das lágrimas de Jurema. Correu para a cozinha e voltou com água e um calmante. Engolindo o comprimido, a mulher recostou a cabeça no sofá, tentando acabar com a forçada confissão rapidamente. Seus olhos percorriam a sala, refletindo os pensamentos que ocorriam em sua cabeça.  Foi salva pelo soar do telefone. Jean despertou de sua alucinação e lembrou-se de Fernanda, olhou o relógio e constatou que estava há horas entretido com Jurema. Apressou-se para atender o aparelho. Era Rita.
— Pronto! — disse, já esperando o pior.
— É cômodo para você deixar Fernanda aqui e ir para suas fanfarrices — acusou-o, sem deixá-lo defender-se. — Onde você está, infeliz? Se não pode ficar com sua esposa, por que não foi trabalhar? Claro, eu já entendi tudo, não podia deixar sua amante para cuidar da minha filha, não é? — disse aos berros.
— Rita, não é... — tentou se explicar, mas foi interrompido pela sogra.
— Está claro, Jean, enquanto minha filha sofre aqui, você vai para a farra. Não adianta negar, pois já sabemos quem é ela.
— Ela quem, mulher? — Perguntou, irritado. — Já disse que não tenho nenhuma amante.
— Você esqueceu de levar seu casaco, meu querido, pode pegar um resfriado! — zombou ironicamente.
Pôs as mãos no bolso da calça e não encontrou o bilhete da enfermeira. Colocara-o no casaco. Não adiantaria tentar se explicar, ela não o compreenderia. Nem mesmo tentaria entendê-lo.
— Depois conversaremos, estou muito ocupado para perder meu tempo com suas alucinações, minha estimada sogra — retribuiu a ironia, desligando o telefone em seguida, sem dar tempo para ela revidar.
Voltou à presença da velha emprega, sentou-se ao seu lado e a abraçou como se fosse possível dissipar as dores da alma enferma. Chorou como criança nos braços de Jurema. Ambos choravam, mas por diferentes motivos.
— Continue, por favor! Acabe de uma vez com esse suplício — disse, ele, a fim de encerrar sua própria tortura.
— Acabar — exclamou ela. — Se isso fosse possível, eu não sofreria tanto em lembrar do que aconteceu.
— Você está me matando! Por favor, o que meu pai disse?
— Seu pai me pediu que — calou-se por alguns segundos — eu recolhesse as cartas de Paula, antes de o carteiro chegar. Eu deveria pegá-las quando ele ainda estivesse no vizinho.
— Onde você as guardava? — perguntou intrigado.
— Seu pai me deu uma cópia da chave do escritório.
— E você concordou com isso — resmungou, ele, decepcionado com a atitude de Jurema. — Não sente nenhum remorso?
— Se eu pudesse voltar àquele dia — disse tristemente. — iria fazer tudo diferente, mas eu era jovem e pobre, precisava de dinheiro para mandar para os meus filhos e seu pai me ofereceu uma quantia muito boa para eu ficar em silêncio, muito mais do que imaginei ter quando saí da minha casa. Fui seduzida pelo diabo e vendi minha alma.
— Como minha mãe confirmou suas suspeitas — quis saber ansioso.
— Não agüentei esconder da pobre o que seu pai fazia. Era insuportável vê-la pelos cantos da casa, vagando desolada. Durante um ano, fiz o que ele me pediu, mas, em uma noite, próxima de sua volta, eu estava exausta com a limpeza que esqueci de trancar a porta do escritório depois que terminei. Quando acordei no outro dia, seu pai já havia chegado e tinha encontrado sua mãe no escritório com um maço de cartas em uma mão e uma arma em outra. No momento em que cheguei, ele tentava acalmá-la, mas sua mãe não mudava de idéia. Não teve jeito e ele foi obrigado a confessar o que ela já sabia pelas cartas encontradas..
— Ela ameaçou matá-lo? — perguntou Jean, surpreso com a atitude desesperada da mãe.
— Sim. Ela apontou o revólver para a cabeça dele e o forçou a falar sobre seu romance com essa mulher. Não pude ouvir muito, mas o que escutei resume toda a história. Seu pai conheceu essa mulher em São Paulo, ela era uma de suas alunas na universidade e tinha pouco mais de 17 anos. No início ele sentiu remorso, mas descobriu uma paixão devastadora nos olhos da menina. Não podia viver sem ela, se sentia dependente daquele amor. Sua mãe chorava muito ouvindo o safado contar sobre a mulher que desgraçava suas vidas. Pensando em você, ela vacilou e controlou a raiva que sentia. Confessou que não queria criar você sem a presença do pai, por isso sacrificaria, como sacrificou, a própria felicidade em nome da família. Passaram, então, a um casamento de aparências. Não trocaram palavras durante anos, eram estranhos vivendo na mesma casa e, quando você estava por perto, fingiam não ter problemas entre eles, era a única forma de quebrar o silêncio.
— Que escândalo é esse — disse indignado. — Não vejo motivos para agirem dessa forma!
— Eu sei, meu querido, parece simples, mas não é. Quando a família de Paula descobriu o caso da filha com seu pai, um homem casado, conseguiu fazer a universidade demitir seu pai. Sem opção, ele foi expulso de lá, mas como tinha bons amigos, esconderam o caso. Não satisfeitos ainda, a família dela ameaçou matá-lo se não restituísse a honra da menina.
— Minha mãe concordou com isso? Não o impediu de continuar com sua traição.
— Ela tentou, mas não encontrou apoio. Seu avô, rude como era, a mandou se conformar com a situação, pois, segundo ele, o homem tem direito a ter outra mulher que satisfaça seus desejos e o lugar de Elizabete era em casa cuidando de você. Ela tinha que servir ao marido e jamais questioná-lo. Por isso os dois cortaram relações.
— Agora entendo porque ela nunca fala em meu avô. — concluiu, balançando a cabeça.
— Isso é tudo o que sei, Jean. Não tenho mais nada a dizer. Por favor, este assunto está encerrado, não me pergunte mais nada e, eu imploro, não diga a sua mãe o que eu acabei de contar — suplicou a ele, segurando fortemente suas mãos.
— Só mais uma coisa, Jurema — insistiu. — Onde posso encontrar Paula?
Ela balançou a cabeça.
— Que Deus tenha piedade de sua alma. Ela já morreu.
Desanimado com a última informação, quis saber mais, continuar o interrogatório, saber qual foi a reação do pai à morte da amante, mas Jurema não respondeu as suas perguntas e encerrou sua confissão, já dissera mais do que devia.
Antes de ir embora, porém, deu-lhe um conselho:
— Esqueça o passado e viva o presente. Não deixe a história se repetir.
Pegou suas coisas e saiu apressada, sem terminar a faxina. Não podia contar tudo o que sabia, dera-lhe mais do que ele poderia imaginar sobre o pai, entretanto não teve coragem para revelar o grande segredo que a assombrava. Não mentiu, apenas omitiu um fato; preferiu evitar um remorso ainda maior. Precisava agora alertar Pedro para que não dissesse a Jean mais do que ela havia dito.
Subiu para o ônibus e partiu sem olhar para trás.
Alberto da Cruz
Enviado por Alberto da Cruz em 24/07/2006
Código do texto: T200609

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Sobre o autor
Alberto da Cruz
Angra dos Reis - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
201 textos (24149 leituras)
15 áudios (1092 audições)
6 e-livros (1207 leituras)
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Alberto da Cruz