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“Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo.“
Júlio Cortázar

I.
Ela parou na porta do prédio espantada.  Estranho título em néon vermelho atiçava seus olhos sonolentos para a possibilidade de mais uma aventura fugaz, mentiras que pescava à noite para se alimentar de dia.  Ele deu-lhe as mãos.  As duas agora entendiam-se tão bem quanto os punhais e a carne.  O papo ora seguia solto, ora esbarrava em pequenos montes de tédio acumulado.  Quando isso acontecia, eles calavam e sorriam, como se tivessem visto algo engraçado.  Na entrada não olharam para ninguém.  Após vencerem o que parecia ser um gigantesco pátio, nos primeiros lances de escada pararam e notaram-se dentro de espelhos, guardiões de sua tez por um pedaço de presente, fotografia que não permanecerá nas gavetas, nem em nenhum álbum.  Venceram outros corredores, pessoas, carrinhos, revistas, portões e seguiram.  Num clima de arranjada naturalidade e tensa descontração romperam boa parte da noite, exercitando falácias e discutindo paradoxos presentes em várias partes do universo conhecido.  Ela era uma carne maculada, revestindo um espírito que dormia. Subiram até o quarto.  Abriram uma cerveja, ele era um amigo agora.  Cerveja, cigarro, filosofia profana.  Tontura.  Num lapso, ele inclina os olhos devagar até sua nuca e de soslaio ensaia um toque.  Ela já se sente mais à vontade, o monte de tédio desaparece dos olhos, como uma duna sucumbindo ao vento fresco da primavera.  Até esboça um sorriso maternal, coisa desconhecida por ele, coisa desconhecida por ela.  Os dois piscam e a noite se derrama pela cidade como um fluido.  Luzes que se apagam, brasas que se acendem.  Música que se estende.  Cerveja, cigarro e lágrimas.  Lembranças.  Vapores evolam pelo ar, atraindo impurezas e perfumando o quarto de luxúria, rancor e medo.  À certa hora, ela sente um punhado de dedos escorregando pela cama, deixando um rastro amassado no lençol.  Os olhos  vagueiam, gelatinas flácidas como sua vontade.  Confia.  Cede.  Dessa vez, só mais essa vez.  E um sono mineral a domina como se alguém tivesse lhe arrancado da carne o caminho das veias.  Daí para a frente não guardaria detalhes.  Como sempre, só havia noite e nada mais.

II.
Bagunça.  Sobre a cama lençóis amarelados em petição de miséria tentam resistir ao calor esquálido e diagonal de um raio  de sol que perpassou o rasgo da persiana suja de vinho tinto.  Um luz claríssima, dividida em gomos fazia milhares de minúsculos pontos de poeira parecerem estrelas particulares.  Mas não eram.  Neste momento, ela tentou esconder os olhos, enfiando a cara e a vergonha no travesseiro de cetim de cor inalcançável.  Foi quando um segundo raio entregou à janela um quarto de clarão de luz que revelava um desbotado carpete rosa, outrora vermelho.  Estava só, mas no minuto em que despertou, por pouco algum imperativo místico a convence de que o dia hoje seria ensolarado de verdade.   Mas não, ainda não era a hora.  O dia amanhecia estranho, cheio de tédio e curiosidade.  Ainda admirou por alguns minutos aquele tom niquelado atrás das cortinas, estampado atrás das vidraças embaçadas.  Mas promessas não mais a alimentariam naquela manhã, como há muitos anos; por isso preferiu deixar-se envolver pela panorâmica dos corredores, inflados das diáfanas luzes  vermelhas sucessivas e lilases que crepitavam numa agonia sem fim.  Ao cabo do dia, o cenário não oferecia o benefício da dúvida.  Nada lembrava o delírio acetinado de ontem.  A certeza tomava formas cada vez mais calcificadas, a culpa manifestada em cada objeto de mal gosto daquele lugar de mal gosto.  Nos azulejos verdes frios, nas tinturas ressecadas dos vitrais, construídos por traços industrializados e mecânicos, das linhas de uma gravura sem agonia e sem alma pregada na parede.Em dia anuviado e carmim, tateava paredes, criados mudos e outras peças sem nome, cada ato de tossir era um rasgo seco que se abria na garganta.  A saliva pouca e rala irrigava a boca fria, as pequenas feridas nos lábios, agora reveladas por um pequeno espelho sujo.  Nada mais seria o mesmo, impossível dar ré no zoom, desfazer o plano, cortar a cena, trocar a marcha, apagar, refazer, esquece.  Era tão difícil encontrar um banheiro, uma saída!  A cabeça tonta das bebidas, das cores, das conversas vazias, depois veio o choro, inevitável indício de outros temores antigos, uma mão amiga que se estende, um braço, um ombro, olhos que se fecham, um pequeno alento, aperto e mágoa.  Depois um toque inelutável e pronto, lá estava o pequeno cristal de eternidade caído do céu no seu colo.
Acreditou.  Eis seu pecado venial, desejava habitar ainda que por algumas horas lugares de lagos límpido da alma, erguer uma casa casta perto das colinas, onde o sol divida o dia ao meio com raios alaranjados.  Um corpo, uma alma repletos ainda da pureza dos loucos vadios, desejo de continuar criança, como se ainda pudesse.


III.
Logos após o primeiro temporal, seguiu-se um vento crespo que causou-lhe arrepios e  pequenos choques na escuridão.  O néon ressurgiu, agora só letras, signos agonizantes no que parecia ser o horizonte do seu céu.  Quando a vida já a tinha quase esmagado, aquela  pequena fada novamente tocou seu rosto e, erguendo-a de um gigantesco poço, soprou coragem em seus ouvidos, enquanto falava de tempos antigos, de aprendizes e cavalheiros.  Cantando parábolas terrificas, mostrou que nossa vida, ilusão feérica,  também pode causar a morte.  Escolhas.  Era momento de recolher tudo de si e guardar no pano da saia, costurar as marcas que ainda deixavam vazar seu sangue batizado.  Vislumbrou mais um a vez a fração de mundo que se apresentava a sua volta e pensou: uma sala.  Recompôs-se, lavou-se, olhou-se e pegou apenas o necessário para seguir, como se precisasse fazer uma viagem de longas andanças.  Dispensou pormenores, supérfluos, ornamentos e levantou-se nua; abriu e fechou a porta ainda umas quatro vezes e recitou bem baixo para caber nos ombros quatro versos de um poema que só ela conhecia.   Mas depois daquele dia resolveu trocar todas as roupas, mesmo sem ter ainda certeza do que escolher.  Queria encontrar alguma magia que soltasse as âncoras do seu andar, que a reconectasse não com um mundo, mas consigo mesma, numa súbita, inexplicável gratidão que sentia por este dia, por esta chave.  Precisava estar mais uma vez em contato com aqueles sentimentos amigos dos dias inocentes.  Consigo era uma nova maneira de encarar um estado.  De espírito?  Ou de existir.
Remexeu as cavidades do peito, tentando encontrar novamente um pouco da matéria delicada e sutil que outrora embalara seus sonhos, um fino bombom licoroso para os dias de cólera.  Não queria mais saber das cinzas, dos dias brutos, buscava a aurora feminina, que era só e sua de volta. Pudesse ela hoje voltar no tempo, quando o importante era amar e parecer sempre jovem, voaria num balão.
Perambulou ainda por um tempo nua, suportando o frio de seu próprio reflexo.  Depois, num dia desses, pulou para dentro de um vestido velho e solto, estampado com minúsculos florais amarelos e vermelhos e deixou os cabelos caírem leves pelos ombros.  Esteve neste mesmo dia,  dando voltas pelos becos da cidade velha, contando cada detalhe rococó das fachadas. Agora sabia tudo que era preciso, que não se aprende nada no céu.
Jan Morais
Enviado por Jan Morais em 24/07/2006
Código do texto: T200981
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Sobre a autora
Jan Morais
Gibraltar
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