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Bicho’s Band
 
Era uma vez um jumento. Animal forte, musculoso, trabalhador. Não se queixava da lida, mas estava cansado dos maltratos, das chicotadas, dos gritos quando, exausto, mal conseguia caminhar, sob aquele peso todo a desconjuntar-lhe as ilhargas. E, quando não estava trabalhando, uma corda velha o mantinha preso a um poste, a apenas poucos metros do milharal e do açude de água fresquinha, enquanto ele ficava ali, travado pelo pescoço, tentando arrancar da terra alguma raiz ressequida, tentando matar a sede no balde velho com água enlameada das chuvas. Nessas horas, ele cantarolava: "sabe lá o que é morrer de sede em frente ao mar, sabe lá?"*
Numa bela manhã, tão logo seu dono soltou-o do poste para atá-lo à carroça, o burro, que não é tão burro afinal, deu-lhe uma armada** derrubando o sujeito no chão e ganhou o mundo, correndo como louco pela estrada a fora.
Assim que julgou-se fora de perigo, resolveu parar para descansar um pouco, quando um cachorro saiu do meio do mato, latindo para ele. Levou um susto, mas logo viu que era só barulho e resolveu continuar seu descanso.
- É... Eu sou mesmo um fracassado - lamentou-se o cachorro.
O jumento levantou os olhos. Tinha o coração mole:
- Sei que vou me arrepender de perguntar. Mas... por quê?
O cãozinho contou-lhe sua história, tão comum hoje em dia. Foi comprado para fazer companhia aos filhos de seu dono, mas ninguém o educava, ninguém ensinava o certo e o errado e ele sempre descobria a diferença da pior maneira possível: apanhando. Vivia assustado e, um dia, quando já ia apanhar mais uma vez, latiu, pedindo desculpas, o que foi interpretado como um ataque. Resultado: no final da tarde foi convidado para um passeio de carro e abandonado no meio do nada.
- Bom... podemos seguir juntos, se você quiser... – sugeriu o jumento.
- Mas... eu ainda estou esperando meu dono.
- Ele não vai voltar, rapaz. Não tem nada que você queira fazer? Nenhum sonho a realizar?
- Ah! Eu queria ser músico. Quando meus donos não estavam olhando eu brincava com o violão... Já toco umas coisinhas. E também já sei cantar: aaaaaauuuuuuuu au au au au aaaauuuu aaaaaauuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!
- Muito bom, rapaz!! Esta é uma ótima idéia... Eu sou bom na percussão - e, batendo a calda e as patas numa árvore meio oca, fez uma batida cheia de suíngue, para acompanhar o som do novo amigo.
- Miiaaauuuu! Não acham que falta um baixo nessa banda? - perguntou uma voz manhosa do alto da árvore.
Os dois olharam para cima e viram o enorme gato branco. O cachorro começou a latir feito um louco. Foi preciso usar de autoridade para evitar o pior.
- Quieto, cachorro! Junto! Senta! Iiiiii-hoooooonnnnn!
Quando ele se acalmou, o gato desceu da árvore e contou sua história:
- Filhote de gata mimada com gato malandro da praça,
nasci em berço de ouro fadado à desgraça
Queriam porque queriam depressa se livrar de mim
Num saco jogado no mato
Por pouco não sou tamborim
Herdei do papai a esperteza
Venci correnteza
E parti pro esculacho
Depois de fazer serenata
E levar sapatatada
Aprendi contrabaixo.
- Uau! Muito bom! - aplaudiram os outros.
- Seja bem vindo à banda – disse o cachorro!
Os três seguiam animados, fazendo planos para seu sucesso quando ouviram uma voz chorosa cantarolando, baixinho. Aproximaram-se cautelosos e viram um velho galo, colando cuidadosamente algumas penas de volta nas asas e cantando:
- "Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela"*** tá louca se pensa que vai colocar a minha pessoa na panela
"Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela" vê lá se eu me presto ao seu gosto de frango guisado à cabidela.
"Morena de Angola"...
- Ei! - chamou o burro.
O dono da voz deu um pulo, espalhando penas para todo lado.
- Cóóóóóóóóóóó! - gritou zangado - vai assustar quem tem có-có-coragem!! Olhaí! Vou ter que có-có-colar tudo de novo!
- Calma lá, galináceo! - disse o cachorro. - O que aconteceu com você? - perguntou, ante a triste figura do bípede, não mais tão emplumado.
- O de sempre - respondeu a ave, dando de ombros. - Fim de semana chegou, visitas pro almoço e eu quase fui parar na panela. Escapei no último minuto. A dona lá ainda me agarrou pelas penas, espalhando várias pelo chão, enquanto eu tentava me soltar. Quando finalmente escapei, peguei as que có-có-consegui e ganhei o mundo.
- E você está colando isso aí com o quê, que mal pergunte?
- Cuspe, claro! que pergunta! Ou você queria que eu voltasse à có-có-cozinha para pegar có-có-cola?
- Eco-có!! - disseram todos em uníssono.
- Deixa isso aí, galo. Elas voltam a nascer. Vamos com a gente. Vamos ser músicos e você tem uma bela voz. Não quer ser nosso vocalista? - perguntou o burro.
Os outros olharam para ele, surpresos. Como seria terem um vocalista que gagueja no có?
O burro, sorriu:
- Ninguém gagueja cantando, gente! Canta de novo aí, seu galo, a história da morena de angola.
E o galo cantou perfeitamente. Sem gaguejar nenhum cózinho.
Agora a banda estava formada. Precisavam dos instrumentos mas, mais urgente, precisavam de comida e de um lugar para passar a noite.
Foi o galo, empoleirado no cangote do burro quem primeiro viu a luz. Uma casinha, discretamente protegida pelo bosque. Aproximaram-se. Pensavam em dar um show e com isso, receber o convite para jantar e dormir.
Pararam perto da janela e, que sorte, viram lá dentro muita fartura, um belíssimo violão, um contrabaixo reluzente e um kit de percussão dos mais respeitáveis. Dois homens cochilavam em frente à TV.
Os quatro se posicionaram e começaram a cantoria:
- Iiiii-hooooooo!
- Au, au, au, auauuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu!
- Mi, mi, mi, mmmmmmiiiiiaaaauuuuuuuuuuuuuu!
- Có! Có! Ri! Cóóóóóóóóóóóóóóóóóó!
Os dois homens, que eram ladrões, acordaram apavorados com aquela barulheira e, pensando ser a polícia, saíram em disparada.
Os animais ainda esperaram um pouco pelos aplausos, mas depois perceberam que os homens não voltariam. E resolveram entrar. A casa era quentinha e à mesa, um belo jantar. Famintos e exaustos, depois de se alimentarem cada qual achou um cantinho para dormir.
No meio da noite, os homens resolveram voltar para recuperar seu esconderijo. Mas, ao entrarem, pisaram no rabo do gato que, no susto, deu um berro e arranhou-lhes as canelas. O burro, pensando ser seu tratador, acabou acertando um belo coice nas costas de um dos invasores, enquanto o cachorro, lembrando-se de quanto apanhava dos seus donos, meteu os dentes na bunda do outro. O galo, achando que era a morena que vinha buscá-lo para o almoço, distribuía bicadas a três por quatro. Os homens fugiram apavorados, achando que a casa estava tomada por monstros e bruxas e nunca mais voltaram.
No dia seguinte, os bichos pegaram os instrumentos e, depois de muito ensaiar, gravaram um vídeo e publicaram no youtube.
Em menos de duas semanas, já tinham o maior índice de visualizações do site em todos os tempos.
Logo tinham outro sucesso, e mais um e um terceiro. Contrataram agente, viajaram o mundo em turnê e viveram felizes para sempre. Até estátua ganharam.
 
Ah! Sua música de maior sucesso é um roquinho que diz mais ou menos assim (ninguém entende direito o que o galo canta):
 
Aos bichos dê sempre carinho
Cuidados, alimentos, lazer
Não importa se eles podem pensar
Importa que eles podem sofrer
 
Os bichos são como anjos
Têm por nós amor eterno
Quem maltrata os animais
Tem vaga cativa no inferno
 
*****
 
* Esquinas - Djavan
** Golpe de capoeira que consiste em girar o corpo sobre uma das pernas com a outra esticada, dando uma rasteira no adversário.
*** Morena de Angola - Chico Buarque
 
*****
Texto inspirado no conto "Os Músicos de Bremen" dos Irmãos Grimm para o Exercício Criativo: "Conte-me um Conto"
Saiba mais, conheça os outros textos: http://encantodasletras.50webs.com/conteumconto.htm
Nena Medeiros
Enviado por Nena Medeiros em 08/01/2010
Reeditado em 08/01/2010
Código do texto: T2017880
Classificação de conteúdo: seguro

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Nena Medeiros
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 50 anos
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