Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Toninho e "aquelas coisas"

Toninho e “aquelas coisas”

Toninho estava cansado de fazer “aquelas coisas” . Todos os dias, a cena se repetia. “Aquelas coisas” estavam ficando monótonas. Até dona Adelaide, a velha cozinheira, havia surpreendido Toninho fazendo “aquelas coisas”. Foi correndo contar à dona Sidônia.
“Aquelas coisas” eram tão repetidas que padre Bertoldo antecipava o que Toninho ia dizer no confessionário:
-- Já sei, menino, você foi malcriado com sua mãe, brigou na escola e fez “aquelas coisas”, não foi?
Toninho confirmava. Depois, era só rezar a penitência que o padre Bertoldo recomendava. Pronto. Sábado seguinte, lá estava o Toninho em genuflexão. Lá estava o padre Bertoldo se antecipando ao Toninho.
Bem que o padre Bertoldo dilatava a penitência, mas Toninho não se continha.
-- Você precisa rezar bastante para afastar esses pensamentos, para mandar pra longe esses capetas que não saem do seu lado. Peça ao seu anjo da guarda...! Dizia o padre Bertoldo.
Só que os capetas de Toninho tinham sexo, vestiam saia. Era só Toninho enxergar a Ritinha debruçada sobre o tanque a exibir suas grossas coxas ou dona Zuleide, mulher do doutor Ambrósio, passar bamboleando, Toninho disparava a fazer “aquelas coisas”. Toninho não se continha.
Toninho bem que se esforçava. Mas, pelo jeito, seu anjo da guarda estava de férias.
Dona Sidônia, beata empedernida, queria que o filho entrasse para o seminário. Sonhava vê-lo padre. Quem sabe um dia ele não seria bispo, cardeal, ou até papa? Imaginava.
-- Ah, aquele jeitinho de santo, aquele rostinho... -- Confidenciava às amigas.
Por sugestão do padre Bertoldo, Toninho tornou-se coroinha, melhor, tornaram-no  coroinha.
-- Que lindo! Exclamava, com emoção, dona Sidônia ao ver seu filho em trajes padrescos, balangando a sineta no momento da elevação.
Mas Toninho só pensava em fazer “aquelas coisas”. E queria experimentá-las em parceria. Estava cansado de suspirar, de suar, de murmurar, tudo sozinho. E ainda tinha que puxar a descarga para não ser descoberto.
-- Padre Bertoldo que fosse para o inferno! -- Dizia, de si para si.
-- Se fazer “aquelas coisas” é pecado, suficiente é cumprir a recomendação do padre: algumas Ave-Marias, alguns Padres-Nossos. Céu garantido, -- pensava.
Toninho lembrava-se das aulas de catecismo, quando dona Benvinda, professora de religião, afirmava que o perdão de Deus não tinha limites.
Decidido, Toninho escolheu a Marambaia, um bairro periférico de Belém, para experimentar “aquelas coisas” em regime de parceria. A Marambaia era cercada de floresta, rica em igarapés e abrigava, naquela época, vivendas e sítios destinados ao repouso das famílias bem-afortunadas de Belém.
O trem era a forma mais rápida de acesso à Marambaia. Anos depois, essa ferrovia, como outras tantas do Brasil, foi sepultada em nome dos interesses da indústria automobilística.
As condições geográficas e as facilidades de ocupação acabaram atraindo  migrantes de diversas regiões do país. Gente de toda a sorte ali se estabeleceu: pequenos agricultores, criadores de peixes ornamentais, comerciantes, prostitutas, proxenetas, cafetinas, traficantes, gigolôs, ambulantes, pastores evangélicos e muito mais. Não demorou a funcionar a boate “Boi Preto” e à sua volta um cortiço que abrigava parte dessa fauna migrada. Nesses quartos, as prostitutas moravam e prestavam seus serviços. Não havia cama, restando aos clientes realizar suas coreografias lascivas na rede espremida no estreito espaço entre as paredes. Nessas horas, diziam, as escápulas rangiam, feito beatas a protestar contra o “descaramento”, contra a “patifaria”.
 Toninho escolheu uma terça-feira para seu debute. Os pais participariam da novena de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e de lá iriam bater papo e tomar chá com bolachas na casa de dona Gertrudes. Certamente demorariam a chegar, dando tempo para que Toninho se deslocasse até a Marambaia e realizasse “aquelas coisas” em compartilhamento.
Da janela do trem, Toninho apreciava a paisagem alumiada pela lâmpada de um poste aqui e outro acolá.
Na estação, Toninho desceu do trem e percorreu os estreitos e ermos caminhos de acesso à boate “Boi Preto” e ao cortiço do “Boi”, como ficou conhecido o conjunto de habitações circundantes. Tentou localizar o quarto de Nazarena.
Ah, que falha a nossa! Esquecemos de apresentar Nazarena a você, caro leitor. Nazarena era uma cabocla atarracada, pernas batatudas, seios fartos e uma barriga que parecia esconder uma gigantesca melancia. Toninho havia conhecido Nazarena em um dos passeios que fez ao sítio do doutor Pitágoras, amigo de seu pai. Enquanto a família conversava, ele e o primo aproveitaram para desbravar a área circunvizinha. Visitaram criatórios de peixe, plantações de macaxeira e outras coisas. Foi assim que os dois chegaram à boate “Boi Preto”. Assim, eles conheceram a Nazarena. Ela simpatizou com Toninho e convidou-o para uma visita. Toninho ficou de voltar.
Naquela noite, Toninho não se lembrava do número do quarto da Nazarena.
Excitado, bateu na primeira porta.
-- Seria aquele?
De dentro, uma voz poderosa:
-- Quem é? Isso é hora, porra?
Um mulato, de quase dois metros, parecendo uma parede de forte e portando enorme peixeira, apareceu na porta:
 – O que é que tu qué? Não tá vendo que a mulher tá companhada, porra?
Toninho quase obrou nas calças. Que situação complicada. Antes que acontecesse coisa pior, foi logo se explicando:
--Desculpe, seu mestre, tou procurando a Nazarena. Pensei que fosse aqui. Boa noite! Apressou os passos.
Para felicidade de Toninho, Nazarena ouvindo aquela gritaria correu pra ver do que se tratava. Avistando Toninho:
 -- Ei, amor! É aqui meu quarto. Entra!
Toninho entrou. Um cheiro forte de querosene vinha do candeeiro pendurado a uma viga do forro.
Nazarena despiu-se, soltando as banhas e chamou Toninho para a rede. Não podia perder tempo. Outros clientes haveriam de chegar.
Toninho, ainda com as pernas trêmulas do susto, não achava o começo. Desajeitado, tentou entrar na rede. Apoiou-se mal, rodopiou e acabou estatelado no chão de terra batida.  Nazarena, aborrecida:
-- Tu nunca viu um puçá?
Outras tentativas. Finalmente, Toninho conseguiu, espremido, acomodar-se ao lado de sua musa corpulenta.
O calor era forte, os carapanãs azucrinavam seus ouvidos, a rede balançava desestabilizando Toninho em todos os sentidos. Estava um pouco zonzo.
Ao tentar encimar Nazarena, faltou-lhe apoio aos pés. Acabou rolando para fora da rede e teve de se pendurar nos punhos para não cair. Nazarena, irritada, inquiriu:
-- Que tu faz aí cara? Até parece uma preguiça engatada num galho de jabuticabeira.  Toninho se recompôs. Concentrado, iniciou sua coreografia, melhor, sua acrobacia. Afinal, eram “aquelas coisas” ou nada...
Os carapanãs não davam trégua.
-- Que saracote esquisito, esse teu! -- murmurou Nazarena, enervada.
-- Acabou! suspirou Toninho.
 Um outro cliente já estava à porta. Toninho, rapidamente, se arrumou. Pagou o combinado e saiu assobiando. Afinal, havia realizado “aquelas coisas” não bem como havia concebido mas...
Na noite seguinte, contou aos colegas de rua as suas “pródigas” experiências:
-- Que mulher! Que amante! Que curvas! Que carícias! Que estonteante! Que vibrante! Que...Quase não me deixa sair...
Os colegas de rua ouviam a descrição, com ares ora de admiração, ora de incredulidade. Alguns não conseguiam esconder uma ponta de inveja.
Alvesfilho
Enviado por Alvesfilho em 31/07/2006
Reeditado em 01/08/2006
Código do texto: T206389
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Alvesfilho
Belém - Pará - Brasil
21 textos (510 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/16 06:06)