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A Mulher da Colina

A MULHER DA COLINA





Era ranzinza e mal humorada. Vivia sozinha, numa casa velha e servia de divertimento para a criançada, que se comprazia em humilhá-la, ante o olhar complacente dos adultos, que faziam questão de ignorá-la. Ninguém se perguntava quem fora essa mulher que o tempo havia gasto tão inexoravelmente.
Não se sabia de onde surgira. Simplesmente apareceu naquela cidadezinha perdida entre as montanhas. O corpo mal coberto por alguns trapos, cabelos despenteados e pés descalços, catava no lixo os alimentos que lhe matavam a fome.
Isabel chegou há pouco tempo. Tinha só doze anos e era, em tudo, uma criança com seus cabelos compridos, esvoaçando ao vento . Muito alegre e comunicativa, fazia amizade muito facilmente e não havia quem resistisse ao seu riso contagiante.
Ao voltar da escola, viu alguns meninos perseguindo uma pobre mulher indefesa, que apenas chorava, tentando esconder a sua infelicidade. Uns mais afoitos, rasgaram-lhe o vestido e, sem se conter, chamou-os de estúpidos e se interpôs entre aqueles brutos e a "Mulher da Colina". Ela não tinha nome e foi assim que a apelidaram. Tentou aproximar-se, mas foi repelida e achou melhor não insistir.
          Em casa, pediu à mãe um dos seus vestidos para oferecer àquela pobrezinha. Teve tanta pena! Ficara quase nua!
Mal o dia surgiu, seguiu para  a Colina. Sem saber bem por quê, ficou indecisa, sem coragem de bater à porta, onde uma mulher amargava os horrores da solidão. Sentou-se um tanto à distância, ouvindo o cantar dos pássaros que voavam nas imediações daquela tapera e quase assustou-se quando "a mulher da colina" surgiu à porta.
- O quê você quer, menina?
- Falar com a senhora.
- Vá embora, garota! Não foi suficiente o que me fizeram ontem?
Isabel observou que ela tinha um olho roxo e inchado.
- Eles lhe fizeram isso?
- E quem mais poderia tê-lo feito?
- Olhe, a senhora me desculpe, mas cheguei aqui há alguns dias. Não tive nada a ver com o que aconteceu ontem e até tentei ...
         - Ah, eu me lembro! Foi você a menina que impediu que a garotada me linchasse! Pois saiba, mocinha, que não estou agradecida. Devia ter deixado que aqueles brutos   me matassem. Ou pensa que gosto de viver? Pequena idiota! Eles me teriam feito um grande favor. Ora, mas você  não entende nada disso! Vá embora, já disse! Deixe-me em paz!
- Como é o seu nome?
- Não tenho nome. Sou, apenas, "a mulher da colina".
- Bem, minha mãe mandou este vestido e ...
Era a primeira vez que recebia um gesto de simpatia
daquela cidade que tanto a machucava e não pode impedir que as lágrimas lhe molhassem o rosto vincado de rugas. De onde vinha essa menina? Não queria a piedade de ninguém! Entrou e bateu-lhe com a porta na cara.
A pequena Isabel vivia triste pelos cantos da casa. Pensava, constantemente, naquela mulher estranha! Tinha que voltar à casa da Colina. Uma força superior a empurrava para lá. Era muito criança para entender o que estava acontecendo, mas resolveu que voltaria lá.
"A Mulher da Colina" parece que a esperava. Não a mandou embora e até ensaiou um arremedo de sorriso. Levou-lhe um presente. Numa sacola havia pão e um pedaço de queijo. A mulher nada dizia, olhando aquela criança loura, que parecia ser a única pessoa com coração naquela cidade. Não estava acostumada a gestos de carinho. A vida só lhe havia dado dores acerbas, dissabores atrozes, mágoas profundas, até essa criança surgir não sabia de onde.
Isabel acostumou-se a visitá-la diariamente e em pouco tempo eram amigas, não obstante as diferenças gritantes entre as duas e devagar foi arrancando-lhe retalhos de lembranças.
         - Sabe, nem sempre fui assim. Já tive nome! Quando nasci chamaram-me de Luciana. Fui casada e tive uma filha.
A última vez que a vi tinha assim a sua sua idade. Também era loura como você  e eu.
- E onde anda a sua filhinha?
- Não sei. Nunca mais a vi.
Isabel ficou cansada de convidar a mãe para visitar Dona Luciana. Agora ela tinha nome - dizia toda orgulhosa - , mas a mãe nunca tinha tempo e resolveu pedir ao pai que a acompanhasse e para lá seguiram num domingo ensolarado.
  Dona Luciana não se mostrou muito amável na presença daquele  desconhecido, mas  terminou  deixando-se  contagiarpela alegria de sua amiguinha. Trazia boas novas. O pai consentiu que fosse morar num quartinho nos fundos da sua casa e assim poderiam ficar mais tempo juntas. Foi uma luta convencê-la. Havia se acostumado à sua desgraça.
Era um quartinho pouco maior que a sua cabana, singelamente decorado pelo carinho de uma criança.
Dona Celita não viu com bons olhos aquele arranjo e discutiu com o marido a permissão para que uma estranha ali se instalasse, mas terminou por aceitar o inevitável, considerando ainda a alegria da sua pequena Isabel e com o tempo concluiu que fora ela que saíra ganhando, pois a tia Lucy - como passou a ser  chamada, revelou-se uma pessoa muito educada, de bons princípios e, para sua grande surpresa, muito instruída. Isabel passava todas as suas horas livres naquele quartinho e a tia Lucy ensinava-lhe os deveres escolares e lhe contava estórias.
Desde o princípio, Dona Celita ficou impressionada com aquela mulher, que podia ter cinqüenta anos de idade. Habilidosa, reformou os vestidos que lhe dava e tinha hoje outra aparência. Estava sempre procurando ajudar: cozinhava, lavava, arrumava a casa e aos poucos conquistou toda  a  família  e  Dona  Celita  decidiu  penetrar      naquele
mistério, custasse o que custasse. Isabel já havia falado sobre a sua filhinha e achou que não havia melhor assunto para fazê-la falar.
- Tia Lucy, Isabel me disse que a senhora tem uma filha.
- É verdade.
- E onde está sua filha?
- Não sei.
- Fale-me sobre ela, pois talvez possa ajudá-la.
- Ninguém pode me ajudar.
- Vamos tentar?
- Bem, quando as meninas ainda brincam de bonecas, já estava casada com um rapaz tão criança quanto eu. Fugi de casa para escapar de uma madrasta mais malvada do que "a bruxa de Branca de Neve". Meu marido era um garotão bonito e trabalhador. Nada nos faltava e vivíamos felizes.
Minha filha nasceu numa bela manhã de sol e foi a primeira boneca que tive na vida, pois vim de uma família pobre. Além disso, não conheci mãe e minha madrasta só me dava pancadas. A partir do nascimento da minha filha, meu marido mudou o comportamento. Passava dias sem aparecer em casa e quando chegava estava sempre embriagado e agressivo. Um dia pediu-me o divórcio. Não concordei porque o amava muito.
Certo dia, quando acordei, minha filha tinha desaparecido. Chorei, gritei, esbravejei e meu esposo ria, divertindo-se com a minha desgraça. Foi um momento dramático e triste da minha vida. Não sei contar como aconteceu, pois só me lembro que ouvia, como se viesse de muito longe, aquela risada tétrica. Escutei-o dizer que a menina era só dele e que jamais mais haveria de vê-la. Estávamos na cozinha e havia uma faca em cima da mesa e enfiei-a nas suas costas. Ele não gemeu nem gritou. Eu? Eu também não griteinem chorei. Simplesmente corri.
   

MARISA ALVERGA
Enviado por MARISA ALVERGA em 02/08/2006
Código do texto: T207734
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Sobre a autora
MARISA ALVERGA
Guarabira - Paraíba - Brasil
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