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DOS CONTOS DO VILAREJO-"Os filhos de Letícia"

Após as revelações de Jordão, seguidas do assassinato de Letícia, houve uma derrocada geral na família. Seus filhos tomaram rumos diferentes, procurando recomeçar suas vidas, carregando o peso dos dias de temor causado pelas estórias que se espalharam por todas as partes em que se estabeleciam, procurando abrigo e compreensão. Se antes eram vistos com reserva, agora, enfrentavam o desprezo de todos e o zum-zum das falações e cochichos nos lugares por onde passavam.  Otávio, nem se quer, compareceu ao enterro, ameaçado e perseguido, por motivo do seu romance com Regina, segundo as delações de Jordão.  Somente após a morte de Anastácio, sentiu-se aliviado; mesmo assim, como conseqüência das marcas que ficaram, viveu algum tempo confinado nos arredores de Cipoal, temeroso da fúria de seu filho Zelfo, que se voltara contra Anastácio matando-o. Futuramente, soube-se, vagueava de cidade em cidade, sem lugar certo, coberto de miséria, ingressando no alcoolismo, viajando como ajudante de caminhão; numa dessas viagens caiu da carroceria em estado de embriaguez, vindo a falecer no meio da estrada.  – Zefa estava noiva de Leopoldo, de quem engravidara, antes de saber do grau de parentesco que existia entre eles, pois, Leopoldo era filho de Jordão com Eufrásia, por conseguinte, irmão de Zefa, que ao tomar conhecimento da veracidade dos fatos, jogou-se dentro de um cacimbão, forjada pelo desespero, foi retirada  boiando sem vida.  Zara a mais velha, seguiu caminho ignorado, jamais dando notícia do seu esconderijo – supõe-se, tenha morrido de desgosto.  Zilá tornou-se mulher de Raimundo que acolheu também a Zilca, proclamada sua filha sob a richa de Leopoldo e Zelfo. Os dois encurralaram Raimundo numa empreitada e o amarraram no mourão do curral, iniciando os preparativos para o sacrifício que há muito arquitetavam.
         - Então Zelfo - disse Leopoldo: “Pegamos o filho de uma égua! Este desgraçado já devia ter morrido muito antes!  Mas não temos pressa não; o tempo de gozo dele findou:”
deu-lhe um chute nos testículos que Raimundo revirou os olhos de dor.  Raimundo pedia por tudo quanto fosse santo que não o matassem . Prometeu dinheiro, terras, gritava por socorro, mas ninguém escutava, pois não havia gente por perto que ouvisse os seus rogos.  Zelfo teve uma idéia: - “Toma conta desse porco que eu vou ali e já volto.” – Foi então à casa onde morava Zilá com Zilca; pegou um papel e à sua maneira redigiu um testamento; de volta, obrigou-o  a assinar. Raimundo tremendo assinou o papel, ao mesmo tempo em que pedia socorro e prometia tudo que quisessem para não maltratá-lo.  Deixá-lo em paz. Terminada a assinatura, os dois tiraram-lhe a roupa e começaram a sessão de torturas: retalharam seu corpo ainda vivo, castraram-no, cortaram sua cabeça e o esquartejaram, juntaram os pedaço e jogaram dentro de um formigueiro.
          Os dois tomaram posse de alguns dos seus bens como: cavalos e cabeças de gado, fugiram no meio da noite, sem que mais nada se pudesse saber de seus paradeiros.
          Zilá e Zilca foram mortas pelos parentes de Raimundo, sob acusação de terem planejado seu desaparecimento de olho nos seus bens.
          Zoraia sob a proteção de Oriel, também fugiu para as bandas do Garanhão, tendo terminado seus dias confinada num hospício, atormentada pelo espírito de Eufrásia e Letícia  até a morte.
          Zelma, depois do falecimento do Pe. João, mudou-se para Cipoal, obrigada pelo filho Rúbens, cujo estado de saúde e comportamento, não lhe deixaram outra alternativa, mesmo, por não suportar mais as falações dos moradores de Vilarejo, quanto ao procedimento de Rúbens, de sair  nas noites escuras assustando a população com seus uivos e gemidos.  Rúbens executou sua mãe, num momento de tensão, tomado pelo furor em estado de crise.  Poucos dias depois ao ser surpreendido por um ataque epilético, à beira de uma fogueira, morreu queimado.
          Zilda contraiu matrimônio com Reinaldo, antes de todos esses acontecimentos.  Reinaldo vendeu todos os seus pertences e se estabeleceu fora do Vilarejo, constituiu família com Zilca  distante dali, ignorando os acontecimentos que abalaram os alicerces e promoveram o desmoronamento da sua família, levando de eito toda a existência de uma vida mal traçada, vivida à luz da ignorância e primitivismo estado de convivência numa pequena tapera a quinze quilômetro de Vilarejo.
Zecar
Enviado por Zecar em 31/05/2005
Reeditado em 05/08/2007
Código do texto: T21010
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Sobre o autor
Zecar
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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