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O Arminho

Malo Mori Quam Foedari.

  O sol acaba de deixar o firmamento, firmando idéias que nada mais são que conjecturas vãs e perdidas. Vênus já há muito despontou. Ele pára, pensa. Não mais sabe o que deve fazer. Ele espera, confia, desvenda. O arminho, quieto e demoníaco. De olhos que não são olhos mas vidros de luz a irradiar flashes de lembranças jamais vividas num limite em que não há tempo, não há coisa, não há mundo, somente uma voz que fala.
  Anda, dá alguns passos, ensaia algumas velocidades distintas, corre e desliza, com a voracidade de uma mãe que escreve uma carta a um filho que há muito não vê, e que jamais voltará a vê-lo, já que jamais voltará como partiu. Eis uma das poucas verdades deste tempo.
A ampulheta sobre a mesa contrasta com o brilho fosforescente do relógio digital posto ao lado. Dois tempos a contar o mesmo tempo. Não há duvida? Não há presunção?
  Um espectro de uma voz que ecoa na escuridão, sem face, sem voz, o puro silêncio que grita palavras no incomensurável. Se pode haver outro caminho para atravessar as sombras sem se perder em trevas e  chegar realmente ao pote de ouro oculto do outro lado do arco-íris, por que ele não se apresenta?
  A mão, na luva de pelica negra, deixava entrever os dedos esguios. Uma mão e um estilete... tábuas latinas de cálculos sobre o não ser. Toca de leve a escuridão, divisando que não há escuridão, o que não há é luz. Sente com o paladar tênue do tato a textura do papel, ali, ali daqui alguns momentos estarão os intimos segredos do universo, gotas minusculas de sangue postas em cada hieróglifo.
  A sombra, já não é sombra. È alma e espirito, habitando campinas entre mundos. Dois que são um sem ser ninguém.
  A mão se agita, toma da tinta a vida, rompe-lhe a veia e o nobre escoa sendo acolhido para a nova vida. Será esta a ressurreição prevista pelas sibilas?
  Dos cantos do papel, Cloto, Láquesis e Artropos miram a vida se esvair e criar num único ponto do universo um nova vida, mostrando que entre capas de couro e algaravias no papel duas pessoas podem sim habitar o mesmo lugar  e instante no universo.
  Vê sua mão?  Ela não é sua mão. É mão de um desconhecido, de alguém que vai te acompanhar uma vida inteira quer voce queira ou não. É sua besta, seu animal, seu chefe, seu imperador.
  È plausivel pensar que Marco Antonio realmente se apaixonou pela Cleopatra que se matou?
  Não sei. Mas antes disto tudo, prefiro o papel em branco, liso, universo dos planos, das intersecções, de retas e cubos. Pleno do nada. Um nada absoluto, no qual as sombras se projetam.
  Quero o papel Arminho, devorador, sanguinário, mutante e instável, que antes se lance ao fogo que a mão amiga, a mão do réu dos ultimos momentos, a mão daquele que não sabe que a tocá-lo perdeu o controle, ao maior de todos os servos, aquele leal, cuja existencia esta em jamais se corromper.
  Ao nobre Arminho, leal ao mesmo tempo traidor... devorador de sua prole e de seu criador, por sua simples honra, votos de cavalheiro, uma vez que vale mais a morte do que a desonra de ser manchado.
  Mais vale a morte do que ser manchado...

Ev
Enviado por Ev em 09/08/2006
Código do texto: T212727
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Sobre o autor
Ev
São José - Santa Catarina - Brasil, 29 anos
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