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O amolador

Numa bela tarde de Inverno ainda acanhada,  ainda envergonhada, sem que nada pudesse antever uma nuvem no céu, nem uma – nem sinal de alvoroço  dos pássaros, que nos galhos se inquietam e erguem os pios prescientes da aproximação dos prodígios – naquela tarde de Inverno, igual a tantas outras, ouviu-se o pregão do amolador. Um som seco e agudo de uma flauta, ouviu-se na vila. Todos o ouviram, e ninguém ficou indiferente.

 - Ó Ambrósio, vai tocar para outra freguesia, anda! - gritaram-lhe alguns.

- Não posso! Estou à espera que me saia o enterro! - respondia o amolador.

Quem viveu no Barreiro, nos meados dos anos setenta, conheceu o Ambrósio - um velho bonacheirão, com o cú das calças à altura dos joelhos, e uma corda que deveria servir de cinto. Teria sido, em tempos idos, tão louro como as espigas dos campos alentejanos, e tão cadavérico como a fome. Não era alto, nem era baixo - tinha a estatura da maioria dos estremenhos. No rosto, os vincos das amolações, e nas mãos os calos de tanto ajeitar facas, tesouras, guarda-chuvas, tachos e panelas. Andava de terra em terra, e, no dia de São Martinho, reunia-se com outros amoladores, em Penafiel. Era a tradição. Juntavam-se mais de cem homens, amoladores e funileiros, todos amigos da mesma arte, a beber uns copos e a comer umas sandes e umas castanhas assadas.

Agora, amolava só no Barreiro, e arredores. Já não calcorreava pelas estradas, de norte a sul de Portugal. Em outra época, também, parava muito no outro lado do Tejo, na Ribeira. Ganhava bem, lá na Ribeira, de tanto afiar os facões das peixeiras. Assim que chegava, era um tal de facas para cá, facas para lá, que se não as conhecesse bem, não sabia de quem elas eram. Velhos tempos!...

Amanhã vamos ter chuva. Lá está o Ambrósio! disseram três jovens, tão gordotas como beatas, que saíam da Igreja de Santa Maria.

- Ó Ambrósio, pare lá com essa cantilena, senão vamos ter borrasca.

- Já a tive, minhas meninas. Por isso estou aqui, à espera que o enterro me saia.

- Que enterro? O Padre Januário não disse nada!

- O da minha senhora, que me deixou. Se soubessem o que lhe aconteceu!...

Encolheram os ombros, apressaram o passo, e dirigiram-se à Boleira do Parque, onde se pavoneava a fina flor barreirense. Se o pobre do amolador esperava que o enterro lhe saísse, a nossa fina flor do Barreiro, esperava, ansiosamente, que alguém lhe deixasse uma mesa vaga. Cada um esperava como queria, e podia. Frequentado, de dia, por poetas de cigarro pendido nos queixos, que bebiam bicas, e arranhavam os guardanapos do café com versos pungentes, por algumas senhoras de boas famílias, que depenicavam queques com a pontinha dos dedos roliços, ou embebiam-nos dentro do copo do galão, e por algumas meninas farfalhudas, de faces rubras, e saiotes que escondiam as purezas de outros tempos. Quando a noite caía, a fauna era outra – apareciam os dores! Amoladores, engraxadores, varredores, todos esses dores que, nunca, tinham mesa vaga durante o dia. Nem sequer horas vagas! Aqueciam-se numa taça de café, antes de ir até à tasca, gastar os tostões do dia, em copos de vinho, e alguma isca.

O amolador recolheu a sua traquitana, e lá foi cantar para outra paróquia. Era, sempre, assim! Cada vez que chegava, as velhas diziam que vinha temporal, e os velhos mandavam-no ir cantar para outras freguesias. Recostou-se na parede da Igreja, levou a gaita aos beiços, e começou a chamar a clientela. Até os cães que não se calam às vozes intrusas, responderam, num ladrar desconcertado, ao som, quase mediévico, da flauta.

D. Josefa, a esposa do alfaiate, foi a primeira a chegar.

- Ó Ambrósio, quero estas tesouras bem afiadas.

- Como sempre, D. Joseja, como sempre. As tesourinhas bem afiadas pró Sr. Verdial talhar belos fatos.

- Depois trago-lhe um prato de sopa. Homem, você está com um ar tão miserável que até dá fastio !

- É por culpa do enterro que nunca mais me sai, D. Josefa.

- Que enterro?

- O da minha esposa. Deixou-me esta semana. Lá se foi! Que Deus a tenha em paz e descanso. Se a senhora soubesse...

- Avie-se lá, que o Sr. Verdial precisa das tesouras.

Os beiços carnudos e descaídos calaram-se, deixando chiar o silêncio do dia na pedra de amolar. Ah! Se eu pudesse empunhar estas tesouras, e dar talhos firmes nas bestas orelhanas, deixava-lhes umas belas de umas marcas!

- O que é que estás para aí a falar, ó Ambrósio? Olha que quem fala sozinho, são os doudos, alertou-lhe o Sr. Teixeira numa excelente dialéctica, coisa de grande filósofo.

- Nem o vi chegar, Sr. Teixeira. Pois vossemecê teria razão, se eu realmente estivesse a falar sozinho. Mas é que estava a falar com Deus. Ia pedir-lhe que me fizesse o favor de mandar sair o enterro, quando o ouvi.

-Ah! O enterro! Pois sim! Conta-me lá aquela tua lenga-lenga da borrasca. É que, sempre, me fazes rir. Ora, que diabo, quem é que ainda acredita nessas cousas!?

- Pois não são lendas, Sr. Teixeira. Olhe que não são lendas! respondeu-lhe o velho, já todo espigaitado. É por isso que eu já nem ligo quando se assomam à janela e mandam-me ir tocar para outra freguesia. Um dia, quando dei por mim, já estava lá para os lados da seca do bacalhau... Mas vamos lá à borrasca que carrego na minha vida, para trás, e para a frente. Para trás que de mim fiquei distante, e para a frente que é contínua a vida.

- Apressa-te, que o céu já começa a ficar negro.

Numa tarde de Inverno, tão bonita como a de hoje – começou o velho - , fui ver se a D. Hermelinda, que trabalhava para a pobre da D. Eugénia, tinha algum trabalho para me dar. O senhor lembra-se da D. Eugénia?  Coitadinha, vivia fechada dentro daquele casarão. Pois então, como sempre faço, levei a minha flauta aos lábios, e toquei para avisá-las que tinha chegado. Ora, nem tinha assoprado três vezes, que o céu começou a ficar negro. Olhei, e vi que se aproximava por detrás do casarão – acho que vinha lá dos lados do Rosarinho -  uma tempestade com uma cara medonha. Sim senhor! Medonha, de meter medo! As nuvens começaram a engordar, multiplicavam-se, uniam-se como se unia a ganilha; o vento começou a soprar fortemente, fortemente... Receei, até, pelo casarão. Olhe que já estava velho, mas ainda tinha ares monárquicos, robustos. Os primeiros trovões fizeram-se sentir - contava o amolador com uma voz atemorizada, alentando a picardia do outro - , e as rajadas de vento que uivavam no silêncio da tarde, foram as primeiras a fustigar aquela antiga mansão. Já nem sei se uivavam, se ganiam... o que eu sei, é que fiquei quietinho num canto, a ouvir aqueles ruídos animalescos.

- Tu fazes-me rir, homem. E o vento lá gane? E ruídos animalescos então, é a melhor!

- É verdade sim, Sr. Teixeira. E olhe que vossemecê, como homem sapiente, devia saber destas coisas.

- Continua, continua que ainda muito me hei-de regalar com tamanha bazófia! disse-lhe o Teixeira.

Pois bem, enquanto me protegia da tempestade, acocorado num canto, vi como a mansão resistiu às primeiras rajadas. Assim! tesa que nem um carapau alimado, altiva como uma rainha. Lutava com nobreza, sim senhor! As segundas rajadas chegaram mais enraivecidas, pareciam uma matilha de ventos secos e agudos, como os sons da minha flauta, ganindo sediciosos gritos, de dentes afiados, a ira a escorrer pelas ventas da borrasca. Atacavam de face, de flanco, e ela, coitadinha, queixou-se. Queixou-se, que eu ouvi! Algumas das telhas começaram a voar, e os batentes das persianas de madeira também gemeram, e curvaram-se às chibatadas do vento que lhes tentava esfolar a pele.

- Esfolar a pele, não é Ambrósio? Anda lá com essa imaginação, anda!

- Nem sei como lhe dizer, mas o casarão resistia àquela besta carniceira. A ira dos céus dobrou-lhe os rins, as feras sopravam rasteiras, tentando arrancar-lhe as raízes seculares. As árvores vergavam-se, e as folhas cantavam um choro fúnebre, como este que eu canto quando afio as facas dos fregueses, e que até aos cães incomoda. Veja lá o Sr. Teixeira, que quando olhei bem para o casarão, poderia jurar que ele tinha um aspecto humano. Ai tinha, tinha! Até as portas fincaram pé, e impediram a entrada dos insultos que as nuvens lhes cuspiam! Só de me lembrar, arrepio-me todo!

Teixeira ria da paródia do amolador. Valha-lhe a santa imaginação! Sim, isso ninguém podia negar. Com as pontas dos dedos enfiados nos bolsos do colete, Teixeira continuava a rir grotescamente. Era um indivíduo atarracado, de cabelos grisalhos, com modos antigos de bon vivant. Na gravata, um alfinete com uma pequena esmeralda, condizia com as abotoaduras da camisa branca. Mudou alguns dos seus hábitos, menos o de carregar, quer chovesse quer fizesse sol, um guarda-chuva preto com o cabo em madrepérola.

- O Sr. Teixeira não quer que eu dê um olhinho às varetas do seu chapéu?

- Toma lá o chapéu, mas vê se te avias.

- Faço isso enquanto o diabo esfrega um olho. Servicinho rápido, que ao senhor não lhe sobra o tempo, não é?

- Ó Ambrósio, e que história era aquela, a do enterro?

- Ah! Sr. Teixeira, ainda estou à espera que me saia. Quem sabe, sai hoje... O senhor não sabe, mas a minha senhora cá me deixou. Pobre mulher! Se o senhor soubesse como...

- Que raio de sina a minha! Vê lá as varetas, e depois vai me levá-lo ao Chave d'Ouro. E põe genica no serviço.

- Pois sim, Sr. Teixeira, o senhor manda.

Meteu mãos ao trabalho, e, enquanto amolava as suas mágoas, procurou a calmaria que, sempre, chegava depois da borrasca. Algum dia havia de lhe sair o enterro. Algum dia!
Nada mais soube do amolador, mas por perto deve andar. E depois de tantos anos! Caiu hoje uma borrasca, que ninguém estava à espera. Nem eu! E, por isso, lembrei-me do amolador, que esperava que lhe saísse o enterro. E eu à espera que saia o desterro!...
 

Cristina Pires
01/2005
Cristina Pires
Enviado por Cristina Pires em 02/06/2005
Código do texto: T21633

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Sobre a autora
Cristina Pires
França, 51 anos
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Cristina Pires