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HISTÓRIAS DE MULHERES - Claudete





2004




Quando eu resolvi sair de casa, então com 14 anos, foi um daqueles casos típicos de revolta adolescente. E como não sabia o que fazer para ganhar dinheiro, caí na vida. Fui aprendendo com a experiência, minha e das minhas colegas de trabalho. Era novinha, então era muito fácil arrumar clientes. Logo fui trabalhar numa boate, onde fazia os homens beberem, dançava e fazia programas. E eu gostava de me arrumar, comprar roupas e coisas que nunca poderia comprar trabalhando em outro lugar, pois sem idade e estudo, esse é o jeito de ganhar dinheiro. As drogas faziam parte da minha vida, e nesse meio fui conhecendo outros tipos de gente, aumentando meu círculo de amizades, o que é muito bom, pois na noite não dá pra ter amigos. E assim fui vivendo, morando em pensões, e trocando sempre de lugar, quando não podia pagar, mas em São Paulo felizmente há muitas deles. Não se ganha tão bem quanto se gasta, infelizmente. Aí me apaixonei por um cara, e fui morar com ele. Engravidei, tive minha primeira filha, mas continuei fazendo programas, e ele fazia bicos. Uma coisa que aprendi foi que grávida faz sucesso com os homens, e não me pergunte por que. Mas minha vida não era fácil, pois ele me batia quando a gente discutia, inclusive quando eu estava grávida. Quando a menina ficou um pouco maiorzinha, eu cansei e fui embora com ela. Aí éramos duas, e eu nas boates, defendendo o meu. Logo me apaixonei de novo, e a história quase se repetiu. A diferença é que o segundo não queria que eu continuasse na vida, mas eu já estava muito acostumada a ter minha independência, e nem a gravidez me fez ficar com ele. Então eu tinha uma amiga muito amiga mesmo, que tinha conhecido há muito tempo, quando ainda tinha meus 17 anos, mas essa se deu bem. Conheceu um velho rico que se apaixonou por ela, e como era uma boa garota, certinha, ficou de amante fixa dele. Ele deu uma boa casa, comida e conforto pra ela, e eles formaram uma família. Quando resolvi ir embora, ela me chamou pra morar com ela. Nós duas grávidas, fazendo-nos companhia, e nossas primeiras filhas brincavam juntas. Não nos faltava nada, pois o amante dela dava de tudo pra nós. E assim foi, ela ganhou um menino, e eu mais uma menina. Quando a segunda já estava com quatro meses, deixei as meninas com ela e com a babá, e fui tentar descolar minha própria vida, um lugar só nosso, pra eu e as meninas ficarmos. Quando não viajava, eu ficava de segunda a quinta com minha amiga e filhas, e nos finais de semana ia descolar dinheiro. Mas era muito melhor ficar com eles, nossa amizade era muito grande, ao ponto de dormirmos juntos. E assim aconteceu minha terceira gravidez, novamente junto com a terceira dela. Falamos pra todos que era do meu segundo marido, mas é claro que ninguém acreditou. Danem-se, ninguém tem nada com isso. Mas sem dúvida foi minha melhor gravidez. Íamos juntas ao mesmo médico, fizemos enxoval juntas, e ganhamos as duas, duas meninas. Depois de seis meses, apareceu uma situação muito boa: o prefeito da cidade estava saindo com uma colega minha, que não tinha muita capacidade para segurar o homem, e foi muito fácil eu tomar o lugar dela. Quando estava com ele, conheci um promotor que se apaixonou loucamente por mim, e largou mulher e filhos para ficarmos juntos. E fomos morar numa cidade no interior, para onde ele se transferiu, pra ficar longe da antiga família. E lá tive vida de rainha, melhor que a da minha amiga. Morávamos numa mansão, com direito a três piscinas. Mas logo a situação ficou insuportável, pois ele e minhas filhas não se davam nada bem. O resultado foi que nosso caso acabou, ele voltou pra ex-mulher, eu vendi tudo o que pude e aluguei uma casa razoável pra mim e as meninas. Mas logo minha saúde não me deixava mais trabalhar, pois tinha hemorragias constantes, e no final, tive que retirar meu útero. Foi uma coisa muito rápida, pois como a hemorragia não parava e eu ficava cada vez mais fraca, quando dei por mim já estava num ônibus, voltando pra casa sem meu útero. Perdi o chão. A primeira casa que me lembrei de ir, foi a da colega de quem tinha ganho o prefeito. Éramos colegas muito antigas. E foi lá que despejei minha insegurança, minha revolta e meu desespero, pois estávamos somente entre mulheres, de várias idades e tipos de vida. Foi quando a mais jovem disse que seria muito bom, pois a única coisa que o útero fazia, além de menstruar e gerar, era impedir a penetração profunda de um membro maior. E me garantiu que eu não ficaria, como imaginava, com um “buraco por dentro”. E ainda me disse para fazer a experiência, o que me deu uma curiosidade saudável, e eu não via a hora de acabar a dieta para fazer o teste. E não é que ela estava certa? E assim pude continuar minha vida como sempre...

Edilene Barroso
Enviado por Edilene Barroso em 16/08/2006
Código do texto: T217527

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Sobre a autora
Edilene Barroso
Campinas - São Paulo - Brasil, 53 anos
192 textos (21461 leituras)
12 áudios (4784 audições)
5 e-livros (337 leituras)
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Edilene Barroso