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HISTÓRIAS DO MEU RESTINHO




Nossa fazenda estava sempre alegre e feliz. Era tanta a fartura, que a gente não se importava em trabalhar tanto. Tinha a criação de cabras, a plantação de milho, feijão, mandioca e a horta de mãe. Aqui e ali umas árvores grandes, como o umbuzeiro secular em frente da casa. Lembro como se fosse hoje, juntos no alpendre para ouvir as cantigas que pai e tio Zeca cantavam. Eram noites festivas, onde a lua saía para ouvir também. Brincadeiras de contar estrelas até que o sono chegava e íamos de olhos fechados para a cama.


Tinha a festa de São João, aonde vizinhos vinham com grandes bolos e canjicas, como presentes à dona da casa. Fazíamos balões e bandeirinhas; minhas irmãs eram dadas às adivinhações e simpatias, que faziam sempre a Santo Antônio, na intenção de casamento. Minha vó se orgulhava de ter a bandeira de São João mais bonita de toda vizinhança. A festa durava quase um mês. A produção na casa de farinha aumentava, mas continuávamos satisfeitos, mesmo sem as chuvas esperadas; a festa estava especialmente bonita, parecia até uma despedida...


Na família de onze filhos, fui o último. Era tido como capeta, mesmo sendo fraco e raquítico. Conta minha mãe, que graças a uma promessa feita ao Menino Jesus de Praga, consegui sobreviver. Nunca gostei de leite, nem de cabra, nem de vaca; ruim mesmo pra comer. O bom era fruta verde no pé: goiaba, umbu, manga espada. Ir para a feira e comer bolo de goma, pipoca e rapadura; “brebote” como chamava vó. Tudo coisa que só serve para estragar os dentes. Mas eu ficava todo feliz em correr solto pelo mato, de comer eu não lembrava não.


No dia que eu cresci, era domingo. A roupa nova, toda atacadinha com o colarinho engomado. Tinha listras azuis e vermelhas, era branquinha como a minha irmã maior. Calcei a contragosto um sapato meio apertado, que quando eu andava fazia um barulho estranho. No casamento meu pai disse que eu estava à marinheira. Achei a palavra bonita e saí dizendo que minha roupa era marinheira.

Meu tio Zeca me chamou num canto e disse: - Você cresceu menino, num demora e já está um homem! Fiquei meio atordoado e passei a me comportar como homem; sentei-me no batente de casa a olhar o tempo como pai fazia. Depois de tanto olhar e nada ver, entendi que ser grande é coisa chata. Eu não podia ir no rio, não podia caçar, não podia sair a cavalo, eu não tinha nem uma faca... Então desisti de ser homem na hora que chamaram para ir à igreja. Já ia com a mão nos doces quando minha vó chegou, pedindo por todos os santos pra eu não me sujar. Deu uma tapinha na minha roupa, alisou meu cabelo e saiu puxando minha mão. Na igreja, sentei na primeira banca e fiquei, como sempre, olhando para Deus. Ele estava cansado, tinha o rosto sofrido, dava até pena. Ficava imaginando como Ele agüentava ficar sempre pregado na parede em cima do altar. Prometi a mim e a Ele, um dia O tiraria dali. Foi essa, a última vez que vi a igrejinha enfeitada.

Nossa vida começou a mudar, nem todas as promessas, novenas e rezas foram ouvidas no céu. Nunca mais choveu na fazenda. No começo era atraso, agora era esquecimento mesmo. A cada dia o riozinho secava mais, a água que tinha em casa, eram as lágrimas que caíam devagar dos olhos do meu pai a olhar os pezinhos de feijão fracos e minguados, a qualquer ventinho caiam no chão e lá ficavam.

Assim caminharam meses, chegou o dia que pai vendeu uma parte da fazenda a um homem chamado Coronel. Ele tinha oferecido pouco, mas a roça de milho estava perdida também. O Coronel foi comprando nossas terras e dos vizinhos. Enquanto a miséria tomava conta de nós, sua fazenda prosperava.

Pai começou a beber muito, chegava em casa quebrando tudo. Descarregava sua dor/raiva e depois chorava. Era um choro angustiado e desesperado; eu tinha raiva dele, mas no fundo sentia que ele estava sofrendo.

O sol morria calmo sobre o riacho seco, olhava nossa terra e sentia uma coisa estranha, um aperto no peito e os olhos chorando sem eu querer. Sentia uma enorme tristeza em deixar a fazenda. Os meus lugares, os meus amigos. Despertei da saudade presente quando pai chamou para ir na venda comprar uma garrafa de pinga. Ele estava animado, dizia que deixaríamos a seca, lá na cidade tem tudo de bom para agente ver...


Fui no galinheiro, na moita de cobras, na casa de farinha, a horta de mãe era um amarelidão só. Saí percorrendo o mundinho, meio triste, meio feliz; com uma vontade de ir e de ficar.  Ainda me lembro como mãe chorou no dia que soube da partida. Chorou mais do que nos dias que pai batia nela. Minhas irmãs gostaram, agitadas com a idéia de morar na cidade. Tio Zeca ficou pensativo e disse apenas que ia vender a espingarda, no “mundo de ferro” não precisaria mais dela. Vó chorou, disse que depois de tantos anos de alegria e sofrimento não deixaria o sertão, ficaria até morrer. Eu ia sentir falta de muita coisa, mas a viagem de trem compensaria tudo.


O trem caminhava devagar pela estrada deserta. Devagar quase parando. Por mais que a terra tivesse sido ingrata, dava pena de deixar. A velocidade aumentou e eu olhava as pessoas que passavam. Minha cabeça não saía da janela, era o imã da primeira viagem que não me deixava perder os detalhes do mundo que corria, não sei para onde.

Passamos da aridez para um lugar mais verde, olhos arregalados com tanta vida. As árvores eram realmente árvores, grandes e viçosas, como na fazenda. Apaguei da memória a lembrança dos gravetos secos, que pareciam espantalhos a assustar as noites em que a lua não chegava e tio Zeca deixava a viola num canto sozinha.

Seguia a viagem irrequieto e sonhador. Contava bois e cavalos, na minha fazenda imaginária eram todos meus. Via galopando imponente, com um largo chapéu de couro, sobre terras verdes, onde me chamavam de doutor Antônio. Meu sonho crescia e agora eu tinha uns treze ou dezoito cavalos. Será que é muito?... Deve ser. Tem um rio com cachoeira, tem gato, cachorro, uma espingarda como a de tio, tem de tudo que ficou para trás.

Na minha fazenda tem a felicidade. Na minha fazenda tem vida, tem minha mãe sorrindo de novo.






























CrisLima
Enviado por CrisLima em 16/08/2006
Código do texto: T217703
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Sobre a autora
CrisLima
Caruaru - Pernambuco - Brasil, 44 anos
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