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Quando as palavras não falam

Quando as palavras não falam


De repente, você passa por alguém, seus olhares se cruzam, há um cumprimento expressivo neles, de simpatia num mutismo, apenas sorriem através dos olhos... este espelho d’alma.

Aconteceu comigo:
Estava em um supermercado, eu e meu filho de 13 anos, e, ao passarmos por uma moça bem jovenzinha, que conduzia um desses carrinhos de compras, acabamos nos esbarrando, pois era fim de semana, casa lotada... Ela me olhou com um olhar brilhante, excessivamente expressivos, sorriu com eles... Pediu desculpas com eles, e seguiu...
Momentos mais tarde, encontramo-nos novamente, na fila dos frios, ela se encontrava logo atrás de mim, bateu-me levemente nas costas, informando-me com os seus belos olhos, que eu seria a próxima a ser atendida, acordei-me de meus devaneios e voltei ao supermercado, as compras, através daquele olhar... Agradeci com um sorriso e retribui com um olhar carinhoso, sua gentileza.
Neste momento, ambas percebemos, talvez até meio inconscientes, que havia se estabelecido entre nós uma espécie de “cumplicidade”de almas, que só descobrimos mais tarde, confirmando nossas dúvidas, pois mais parecia um “reencontro”, que só estávamos mesmo é dando continuidade a algo interrompido, deixado pelos caminhos, lá trás, numa outra vida, quem sabe..., pois a troca de energia através dos olhares eram tão significativos, tão evidentes, que chegavam a incomodar as outras pessoas da fila, sendo percebido por nós, através de seus gestos e comentários discretos e através também de seus olhares...
Nos despedimos através de sorriso nos olhos, sorriso nos lábios e... seguimos corredores diferentes...
Bem mais tarde, lá estava a “menina dos olhos”, só que desta vez parecia que ela se encontrava numa situação difícil, pois estava naquele momento sem sua acompanhante, achei melhor observar primeiro para perceber da real dificuldade, que ela encontrava para conseguir apanhar umas bolachas, colocadas há uns dois metros de altura, numa prateleira, que os comerciantes insistem em nos desafiar. Fico a imaginar a cara da pessoa a monitorar a vigilância/segurança do supermercado, a rir, a se divertir de nossas peripécias, malabarismos que fazemos para conseguirmos pegar o que está totalmente fora de nosso alcance, nestas prateleiras “próximas ao céu”. Bem, ao vê-la naquela situação, vendo que varias pessoas passavam “sem vê-la”, outras só a olharem, outras passando direto, sem ao menos pensarem ou desejarem um modo de ajuda-la, era evidente isso em seus rostos, expressando suas próprias preocupações, sem terem tempo para “probleminhas” de outras pessoas, principalmente de pessoas estranhas.
Enquanto tudo isso passava em fração de segundos pela minha mente, tive a idéia de arrastar um caixote de plástico que estava nas proximidades e ir em seu auxilio, transformei rapidamente pensamentos em atitudes, e percebi que isto chocava as pessoas que passavam por nós, até meu filho que sabe que costumo agir assim, ou seja, a de transformar com certa “facilidade, pensamentos e desejos em ações, e que ele também não sei se pelo exemplo ou por sua personalidade também costuma agir dessa forma, se mostrou perturbado, numa espécie de “preocupação com o que os outros poderiam pensar, imagine então os transeuntes naquele corredor de supermercado, também os funcionários a reprovar minha atitude, e a só aumentar meu desafio com suas expressões irônicas, todos curiosos paravam seus afazeres para assistirem ao nosso “show, todos com aqueles ares e olhares... alguns se emocionavam, seres mais sensíveis, dotados de pureza d’alma, se expressavam e nos ajudavam através de seus ricos olhares... Outros faziam comentários desnecessários do tipo – Deixe isto para as pessoas que são pagas para tal, elas se referiam aos funcionários, pobres “paus-mandados”, que com toda a certeza não foram os autores de idéias de economia de espaço utilizado naquelas prateleiras altíssimas. Outras pessoas assistiam tudo caladas, assentindo com gestos de suas cabeças e de seus olhares... Ainda outros passavam sem nos ver, absortos em sua ânsia desesperada de acabar logo as compras e sair logo do tumulto e burburinho do supermercado apinhado de gente.
Bem, ajudei-a a subir, ela atingiu o seu objetivo, conseguiu enfim suas bolachas, ajudei-a descer, desafiamos, ousamos, assumimos nossa cumplicidade, tudo através de olhares... Pois ela, ao término de “nossa batalha”, sorriu-me e tão somente agradeceu e seguiu...
Confesso que fiquei intrigada, não pelo mutismo, mas pelo que acabamos de compartilhar, aquela troca de simpatia e gentilezas mútuas, e a expressão daquele olhar... refletindo a essência...
Já na fila do caixa, dei pela falta de meu filho que ficara para trás, provavelmente distraído numa prateleira de balas e chicletes...
Comecei a procurá-lo com os olhos, demonstrando preocupação com as horas, pois alem do caixa que andava até rápido para um final de semana de casa lotada, eu havia marcado um compromisso especial para o qual, eu já deveria me encontrar a caminho.
Nestes meus olhares de procura, encontrei os da moça, que parecia “ler”minha mente, pois surgiu do “nada” ali na minha frente, oferecendo ajuda e indicando o corredor onde meu filho estava...
Naquele momento. Esqueci compromisso, fila, compras, filho, e lentamente caminhei até ela, decidida a dizer-lhe com palavras o quanto ela era especial, parei diante dela... fitei-a demoradamente nos olhos... ela compreendeu a extensão do momento, retribuiu meu olhar... abracei-a demoradamente sem conseguir emitir uma só palavra, pois lágrimas brotavam de meus olhos, olhamo-nos e os lindos olhos dela estavam também marejados, trocamos beijos nos rostos molhados, enquanto nossas lagrimas se confundiam... Conseguimos naquele momento, “construir” em fração de segundos, um mundo só nosso, creio mesmo que nos transportamos dali para outra dimensão, tamanha  a emoção, sabíamos disso, eu já não ouvia mais o burburinho do supermercado, nesta outra vibração em que nos encontrávamos, éramos duas irmãzinhas, recolocadas naquela situação por algum motivo que só seres dotados de sensibilidade espiritual podem sabê-lo, e dentre estes seres, muitos se encontravam ali, no supermercado, pois ao “retornarmos” para nosso plano, (o supermercado) e percebemos lágrimas nos olhos destes seres especiais, ao olharem a cena e ao ouvirem a acompanhante dizer que ela era muda e a minha resposta rápida e sincera: - “AS PALAVRAS NÃO LHE FAZEM FALTA”.
 Se a nossa cumplicidade expressa em lágrimas daquele momento “tão nosso”, realmente tocavam aquelas pessoas elas tentavam a todo custo, “disfarçar” suas emoções, secando lágrimas que teimavam em cair, ao ver-nos confundindo também nossas lágrimas e estas já eram incapazes de serem contidas.
Registro no livro de minha memória, de minha alma, mas quero também registrar no livro do tempo presente, nos corações das pessoas; não somente das já “sensíveis” pois os corações destas já são saturados naturalmente e espiritualmente de boas ações, tento falar aos corações dos que sempre tem bons sentimentos, boas intenções, mas que por um motivo qualquer, suas intenções não se convertem em ações.
Diana Lima
Enviado por Diana Lima em 03/06/2005
Código do texto: T21874
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Sobre a autora
Diana Lima
Santo André - São Paulo - Brasil
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