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Festa do Padroeiro 1/3: A Praça

Antes que o mal aconteça, eu vou pra casa.

Montou no cavalo e o deixou ir. Ele sabia o caminho.

 Queria se desfazer, corpo, alma, pensamento, separar os seus muitos fragmentos de existência, se espalhar no espaço. Achou que podia dormir em cima do cavalo e deixou o corpo cair para frente, abraçando-se ao pescoço musculoso. De olhos fechados, sentiu o perfume misturando suor, capim mascado, cheiro de mato; cutucou com os dedos uns inchaços que só podiam ser carrapatos. Pobre animal: tinha que cuidar melhor, arrancar dali os sanguessugas miseráveis, aproveitadores das vidas dos outros. Tinha também que se cuidar melhor, fazer a barba, tomar banho, trocar de roupa, sempre, não apenas para a procissão de São Jorge.

“Cuidado com a ponte”, alertavam, sempre cai um peão bêbado da ponte, cai com cavalo e tudo, sempre tem um morto após a festa, peão bebo e cavalo inocente que confiou nos comandos do desorientado que estava no seu lombo, cavalo maria-vai-com-as-outras, que não sabe o que está fazendo, mas que não merece morrer.

Um tombo e tanto, vinte metros até o Rio Paraíba, e depois, pedras para se bater com a cabeça, água, água para cacete, água suja e barrenta, água com lixo e esgoto, cheia dos côcos que você mesmo cagou ontem.


O cavalo sabia o caminho, deixa ele ir, balançando; o estômago é um mar revolto. Vomitou no pescoço do bicho, tem que cuidar, tem que limpar, o cheiro de mato do pelo se misturou com o azedo ruim de seus sucos.Tomara que possa achar o caminho, o cavalo sabe o caminho, ele sabe. Uma fome ardida no estômago, vomitou de novo, manchando o pescoço do cavalo dos dois lados, o bicho imperturbado, moveu de leve as orelhas, animal que agüenta chuva pesada nas costas sem se mover, como se nada estivesse acontecendo. O cavalo sabe o caminho, se move no escuro, não tem farol, nem lanterna para iluminar as pedras e buracos. Mas ele sabe. Não era seu o cavalo, era de Eusébio, mas ele sabe.


Azar dos dois; mas não era seu cavalo, era o cavalo de Eusébio; pedira emprestado para impressionar, na grande cavalgada da festa de São Jorge. Maria, o seu amor distante, com o cavalo sim, achava-se capaz. Desfilaria garboso, depois iria atrás dela na praça, apearia e a convidaria para dançar, tomando a sua mão num cumprimento. Antevia a sensação gostosa da carne fresca e macia da pequenina mão em contato com a pele dura da sua palma de mão-macha, lanhada pelo couro cru da rédea. Estava arrumado e perfumado, vestido de cavaleiro, numa tarde gloriosa de preparativos, cavalhada, muitas almas prontas para marchar em honra de São Jorge, o padroeiro do lugar, de Juparanã, também para fazer figura, para fingir que estavam matando dragões, ou de partida para as cruzadas, “que ninguém podia com nós”, e na hora do sol poente invadir a cidade, o tropel dos cascos nas pedras, numa massa de carne vivente que se desloca, muitas bandeiras, lanças e pavilhões, muitos fogos de assustar cachorros, porque os bravos não se assustam com estouros vãos, os cavalos são unos na cavalgada, avançam como se fosse um mar de pescoços, de ancas, de rabos que vai derramar a sua onda na praça, em frente da igreja, com o povo aplaudindo, mais uma vez cumprida a sina, porque fazemos nossa parte, assim como faz a Sua o Senhor.

Mas não era seu o cavalo, era de Eusébio. Pedira emprestado, um bicho tordilho enorme, que o transformava quase que em um menino, pela desproporção de tamanho, os pés metidos no estribo alto, pequeno homúnculo sobre a montanha de carne forrada no pelo gris encardido de poeira. E quem disse que era marchador? Trotador sem-vergonha, metia a pata com força nas pedras da rua, arrancando faíscas que não se via durante o dia, a ferradura batendo chapada e jogava o seu traseiro para cima, como sacola de carnes sangrentas e doídas.

 Não é assim, grita Eusébio, tens que pular junto com ele, não deixa ele te jogar para cima! Firmou-se nos estribos para se antecipar aos trancos. Logo estaria com as pernas doendo de tanto exercício, maldição, cavalo não é poltrona pra gente se refestelar e ver televisão, relaxado. Cavalo é cavalo de pau, duro, pé duro, ficar quase de pé apoiado nos estribos, pulando junto com ele, os músculos retesados o tempo todo sem descanso, até que as coxas estejam esfoladas por dentro, sem tempo de caçar os pequeninos pontos de micuins que migraram para pegar o sangue humano bom.

Apeou, amarrou o cavalo e foi para a praça procurar Maria.
E agora o cavalinho, com o seu porte bom, ia ficar amarrado no poste, junto com muitos outros, esperando o fim da festa, capim nenhum, milho nenhum, açúcar nenhum, carrapatos lhes sugando o sangue. Curvou-se todo para coçar a barriga, esbarrou no companheiro, e a fila inteira se agitou, olhares aparvalhados de cavalo, e a égua do Eusébio que também estava ali, encarou o tordilho com os olhos úmidos de amor e o tranqüilizou.

Correu as barracas de churrasco, espetinhos de bambu assando sobre o braseiro, cheiro bom de coisa comunal. Viu Maria encostada em um balcão, conversando com as amigas. Aproximou-se, e sem coragem para falar, ficou do seu lado, olhando a penugem dourada do seu braço, os cabelos amarrados em coque, a orelha bem feita. A música estava tocando, mas ninguém se animava a dançar. As amigas arrulhavam como pombas catando milho. Falavam mal de todos eles, falsos peões de vacaria inexistente, falsos cavaleiros de São Jorge enfrentando falsos dragões, falavam mal do lugar, vilazinha entediante de longas tardes de domingo modorrentas, a enorme praça vazia, os cães sonolentos levantavam só para se coçar, falavam mal da festa, sonhavam com uma praça em Paris, ou Nova Iorque, a enorme árvore de natal se acendendo, um frio de cortar as carnes, e casacos luxuosos de peles sintéticas fabricados em Taiwan.

- Vamos dançar?

Silêncio no meio do barulho. As amigas estacaram, com a boca aberta da surpresa amarrada na garganta. Respeitoso e silencioso, como se a reverenciasse, tomou a sua mão e a conduziu para um quadrilátero cimentado onde dois casais dançavam. O contato da mãozinha, quente e bom como imaginara, o antevisto prazer sonolento de seu perfume e do calor irradiado de seu corpo. Era assim que o amor acontecia?

Pé duro de cavaleiro misterioso, não falou uma única palavra, concentrado com a responsabilidade de dançar; com a tão sonhada, a tão querida; sentia os joelhos duros, o roçar dos panos nas carnes esfoladas do atrito com o cavalo, mas era como se nem sentisse, compenetrado no importante momento, no estar acontecendo, no viver como se não estivesse nem vendo. Pé duro, corpo duro, não saiam palavras, falar pra que quando o amor fala mais alto? Ela sabia, ela entenderia.

As amigas riam quando os olhares se encontravam em cada rodada da dança; tropeções e pisões, desencontros e esbarrões. Roçava sem querer em seu biquinho de peito e quase pedia desculpas, não era a sua intenção,
Quanto tempo agüentaria? – pensou a moça. Dançar por educação? Fez de conta que estava em Nova Iorque, a praça e a enorme árvore de natal iluminada, carnaval fora de hora, carnaval no gelo, ali, sim, estava preparada para tudo, não tinha medo de lavar pratos ou banheiros, de fazer faxina ou ser garçonete, se soubesse que poderia, depois ter aulas no Actor’s Studio, revelar-se, explodir rumo ao futuro. Agora, dançando com um peão que não era peão, continha-se. É preciso ter educação.

 Pediu licença, estava cansada, e, também sem uma única palavra saiu do quadrilátero cimentado. Chega, vamos embora ver televisão, depois voltamos quando esses chatos tiverem ido embora.

( continua )
Jacques Levin
Enviado por Jacques Levin em 18/08/2006
Reeditado em 18/08/2006
Código do texto: T219556

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Sobre o autor
Jacques Levin
Vassouras - Rio de Janeiro - Brasil
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