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Muralhas

Encontrei-me, sem saber como, aninhada naquelas muralhas de pedras brancas. Diante dos meus olhos, Lisboa! Sentei-me, ali, naqueles fósseis de amores, entre pedras de lágrimas sibilantes, numa cama fria feita de lençóis estampados e rendilhados de ardentes paixões...  Na avenida que acompanhava o estuário do Tejo, as árvores, frondosas e verdejantes, gotejavam, ainda, o orvalho da manhã na toalha verde-amarelada das primaveris e festivas refeições. E vi-me, nos meus tempos de menina, quando por ali saltava e corria despreocupadamente por entre os mimosos malmequeres. Avancei no tempo, nas estações, nos recordos. Propunha-me a encontrar o início daquele idílio! A memória falha-me. Perco-me sem encontrar as primeiras peugadas, sem saber por onde passaste, por que porta entraste; ou em que ocasião nos vimos, face a face, pela primeira vez. As imagens desvanecem-se, as feições são pálidas como os tons pasteis de um quadro de Monet; encontrava-me diante de uma cena com cores do passado, tons que não se avivam, que não se retocam. Estão ali, num ontem longínquo, no fundo de um corredor, nas paredes hirtas... mas irrefutáveis!

O relógio parou – deviam ser umas três da tarde, pensei. Corríamos, sem destino, pela Quinta da Marquesa. De ideias ligeiras, grandes aventureiros de um mundo que nos parecia desmedido, mas que cabia no fundo das nossas algibeiras, ou nos alvos das nossas fisgas. Lembro-me que éramos todos franzinos, mas expeditos. De pernas esguias, galgávamos montes imagináveis, deixávamos as nossas peugadas na encruzilhada do desconhecido e na história que pensávamos um dia conquistar. Combatíamos serpentes, monstros de sete cabeças, centopeias... Nada nos amedrontrava! Nem a mim, a única moça no meio daqueles mocetões. Só aquele sorriso, que aquecia as minhas tardes de inverno, que desterrava o musgo das minhas nuvens passageiras, ou dissipava a névoa insulsa que se acomodava no ninho das saudades; como me atemorizava aquele sorriso! Temia-o mais que o ribombar de um trovão que, em campos desertos, fecunda o ventre da Terra. Sim!... temia-o, mas adorava-o! O meu olhar fenecia nos esculpidos traços do seu rosto de deus grego, e renascia nos alvéolos que circundavam as carnudas cerejas que eu não provára. Os seus olhos, que brilhavam mais que o sol das tardes de São Martinho, encantavam-me sem escrúpulos.

Desde essa época, as minhas mãos afagaram o cálido seio de algumas primaveras. Uma ainda me atormenta, quando o espírito esperneia e solta-se das teias dos atros porões  – a de oitenta! Floresceu repentinamente, nas flores dos arcos das romarias, na luz rubra das papoulas, nos meus olhos... que nos seus se perderam. Ah! doces olhos de amêndoa, que alucinavam a minha alma irrequieta!... Foram celestiais passeios pelas faustas avenidas do Olimpo, troca de beijos abafados no sabor da jeropiga, afagos de outrem que oblatei. Passaram-se cinco anos, cinco longos anos embalados nas franjas de um sonho rosicler que aos poucos se esmiuçava... desbotava-se! O encanto findou e roguei que partisses. Tu, sombrio, voltaste à Terceira. Acompanharam-te, até à boca do oceano, em procissão, os barcos engalanados da Nossa Senhora da Boa Viagem e, portanto, nesse dia não era dia de festa. As fitas multicolores acenavam ao cais; as pétalas rosas e liláceas que os catraios lançavam ao rio, alfombravam os passos das tuas pesadas lágrimas.

Eu... eu voltei ao conforto das muralhas e avistei, nas miudinhas ondas do Tejo, aquele temido sorriso, aqueles belos olhos que sempre me pareceram fulgentes, mesmo nas tardes pardas de Novembro; miravam outro horizonte, e o meu, cinzelava-se, aos poucos, na bruma dos dias infindáveis. Lisboa não se avistava. A Ponte dos Rubros Cravos, tão-pouco. Só os moinhos de Cervantes pelejavam contra os últimos raios de luz, que se humilhavam perante a glória da lua.

Continuei o meu percurso pelas íngremes ruas que serpenteiam o vale denso das lembranças, e o purgatório prostrou-se diante dos meus olhos ao ver o  velho caminho que desembocava na avenida da Praia, as árvores que saudavam as moucas águas do Tejo, e nós que, lado a lado, o percorríamos felizes e sorridentes. Parámos onde todos os amantes paravam. Olhavas-me intensamente, e os teus olhos voltaram a aniquilar o brilho do sol nas tardes de São Martinho, e pressenti o que sempre tinha almejado. Remoçou em mim aquele velho medo.

Recuei!...

O que seria de nós se não tivesse existido aquela primavera? Lembrei-me de Saint Pierre, dos meus antepassados,  das velhas tradições que nos constrangiam a suportar o peso dos seus nomes numa vida que supúnhamos que era só nossa; e perguntei-me se o final seria idêntico...

Parti. Já era noite!...
Cristina Pires
Enviado por Cristina Pires em 04/06/2005
Código do texto: T21991

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Sobre a autora
Cristina Pires
França, 51 anos
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Cristina Pires