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Festa do Padroeiro 2/3 - Dorinha

Isto é o que se pode fazer, sair sem esparramo entre os casais bailando, andar de costas para não esbarrar, virar o corpo, como numa luta de boxe, esquivar-se, ir para o canto, clinchar. Não haverá nada nessa noite, nada que possa lembrar com orgulho. Iria, como tantos outros em busca de emoções.

 Primeiro, e muito rapidamente, tomar dois dedos de pinga na barraca dos Gomes, o que esteve evitando a tarde toda para evitar o bafo da boca na hora de falar com a moça. Agora podia, dois dedos e muito mais, uma mão inteira, uma braçada, uma vara, muitas onças e pintas, e hectos, e gigas e megas. De início, dois dedos, para arder na barriga e aquecer os peitos, doidinha a cachacinha de terreiro, com travo de fedegoso, espírito saltitante das matas, que dá uns pulinhos e depois abre a tampa do gênio ruim que mora dentro do corpo de macho rejeitado, espírito pesado que puxa pra baixo, e emperra a língua e escolhe as melhores palavras para ofender o mundo; cheiro de demônio que todos sentem menos você.

Depois, olhar novamente a pista de dança, qualquer uma serve, qualquer moça, alta baixa, magra, gorda, com dentes ou desdentada.Bebeu com vagar, experimentado, capim-limão, melissa, um pouco de pimenta do reino, para esquentar ainda mais. Comeu duas rodelas de lingüiça de porco.
Agora sim, bem mais à vontade, catou a moça para dançar, a primeira que estava livre no caminho. Foi até a quadra, puxando a moça pela mão e encaixou-se entre os casais; ficou se movimentando, nem ritmo, nem passos, nem nada, que ninguém estava policiando a dança. Quando a música parou, voltou à barraca e bebeu mais uma. Ofereceu para a moça, dois dedinhos, para começar.

- Beba que é bom, viu, gostou?
- Nossa, esquenta demais!

 Pediu cerveja gelada, para refrescar. Bafo, nem se preocupar, agora estavam empatados, ele e a moça, os dois com o bafo que ninguém mais sente, iguais, no bafo e nas intenções, dançar, só dançar e não se preocupar com o amanhã.

- Viu, mulher chique, perfumada de lavanda, vestido branco rodado, de gaze ou organdi, gosto é de mulher que enfrenta os perigos, assim como você.

  A pobrezinha sorriu, faltando um dente da frente, devia ter fugido correndo dali, do lado do brutamontes, que nem vaqueiro era, fantasiado de peão, o cavalão esperando amarrado no poste.

- Meu cavalo está bem ali, vou te levar comigo para dar umas voltas!
- Quero não, seu, prefiro ficar dançando.
- Dançar é só a introdução, é só para nos conhecermos, para saber se nos damos bem, então, já sabemos, nos damos bem, nos gostamos, não precisamos mais de dançar, vamos dar uma volta por aí.

 A moça não sorriu mais, fechou a cara. Puxou-a novamente para a pista, dançou mais um pouco, acompanhando a música com os olhos fechados, via Maria, sozinha, no quadrilátero, rodopiando uma valsa, com o seu vestido enfunado, aberto como um balão que a levava às alturas. A moça fechou também os olhos, via um cavalo grande, com ela na sela, ele a pé, puxando as rédeas, num campo florido com uma casinha ao fundo. Depois, dentro da casa escura, em cima da cama, com ele bufando em seu pescoço. Mais um intervalo e mais uma cachaça.

“Cuidado com a ponte. Sempre cai um cavaleiro, de noite, todos os anos, depois da festa, um bêbado cai com cavalo e tudo. É a ponte rodo-ferroviária, a pista cabe um só carro, do lado a linha do trem, que quando passa faz um barulho dos diabos. É uma ponte de quase trezentos metros; topar com um carro no sentido oposto é a pior coisa que pode existir. Alguém tem que dar marcha à ré, porque não passam dois carros. É uma ponte em curva, não dá para ver o outro lado. Começar a travessia é jogar com a sorte. Tem que buzinar e piscar os faróis para avisar o outro lado, alguém tem que esperar a pista ficar livre. E cavalo não tem faróis; muito menos buzina. Tem só o tropel dos cascos no asfalto. E faíscas que aparecem de noite”.
 Quando chegou na ponte, estava abraçado ao pescoço do cavalo, achando que poderia dormir porque o cavalo sabia o caminho. E o cavalo não sabia de nada. Mas parou na boca da ponte, desconfiado. Levantou a cabeça para ver onde estava, já chegamos?  Reconheceu a ponte e lembrou dos avisos. Umas luzes brilhavam na água que adivinhava lá embaixo, deslizando de encontro às pedras, seria fundo?

Então larga a menina, a Dorinha, que se embebedou e está dormindo no banco da praça. Cutucou com a ponta dos dedos, ela mostrou a falha nos dentes da frente. Bebe mais uma Dorinha, a saideira; quero não, seo, estou zonza demais, via o campo florido, a casinha ao fundo, o cavalo a carregando, vestida de vestido cumprido branco de casamento.
“Larga”, gritou Euzébio, “deixa ela aí mesmo pros urubus. Vamos pra casa de dona Neném, que a festa é lá”.
- E o caminho, qual o caminho?
Eusébio riu, “o cavalo sabe o caminho, está cansado de ir”.

 Um grupo da mais de quinze, a cavalo, partiu e se embrenhou na noite, cavalo não tem farol. O tropel desfez-se rapidamente; nem deu tempo de correr, montar no cavalo para acompanhar. Quando viu, estava trotando no meio do escuro, sem mesmo divisar as próprias mãos. Não via o cavalo; o sentia debaixo de si; o cavalo sabe o caminho? Bebia de uma garrafa de pinga, um gole a cada três passadas. As feridas esfoladas de suas coxas voltaram a arder e a noite era sem fim. Passou um carro, jogando um facho forte de luz; deitou-se no pescoço do cavalo; vomitou uma, duas vezes.
Jacques Levin
Enviado por Jacques Levin em 20/08/2006
Código do texto: T220889

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Sobre o autor
Jacques Levin
Vassouras - Rio de Janeiro - Brasil
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