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Festa do Padroeiro 3/3 - A égua cheirosa

O cavalo parou, não entrou na ponte. Levantou a cabeça para ver a pista molhada, rebrilhando as luzes de um poste do outro lado. Então, o cavalo sabe o caminho? Não é pela ponte? Olhou em torno e não enxergou trilha, portão, cancela, lugar nenhum que pudesse ir. Agora voltar e indagar o caminho da casa de dona Neném. Mas para trás a escuridão era, também, absoluta. Sentiu a cabeça tonta de olhar pra trás. Depois, chegar lá com o cavalo todo vomitado, vergonha e gozação garantida para o resto de sua vida, história contada todos os anos na festa, lembra dele, bêbado, procurando a casa das putas, com o cavalo vomitado? Isso é que é ejaculação precoce!

Vamos, cavalinho, vamos direto pra casa, antes que algo de mal aconteça. Entraram na ponte, a passo lento, ele voltou a deitar no cavalo. O barulho das patas do cavalo ecoava pelas beiradas da ponte; com a cabeça baixa, viu as faíscas que as ferraduras soltavam a cada passo.

De repente, uma luz forte bateu em seu rosto; um carro vinha no sentido oposto, vinha acelerado, desembestado, até topar com o cavalo a sua frente. Freou, com ruído, deslizando pela pista, não havia como para-lo, enquanto o cavalo empinou relinchando. O mal estava feito. Em fração de segundo, viu-se pulando com o cavalo a amurada da ponte, rasgando o espaço escuro, para mergulhar no rio fundo, os corpos inchados aparecendo na foz do rio, em Campos.

O carro parou atravessado, a pista bloqueada. Lá dentro um grupo animado ria de fazer gosto. Olha o peão burro, deve ter se borrado todo. Aqui não é estrada de cavalo, é de automóvel!

Desceu do cavalo, apalpou suas juntas, olhou com cuidado para ver se havia manchas de sangue ou ferimentos, aproveitando a luz do farol. Sentiu o coração batendo rápido e forte, como se quisesse sair o peito. Segurou as rédeas e contornou, com cuidado, o automóvel, guiando o animal pelo espaço de pista apertado que sobrou. Viu-se andando a pé, de volta pra casa, atravessando os trezentos metros de ponte, puxando o cavalo pela rédea, ele não sabia o caminho, o ruído dos cascos lentos ecoando pela estrutura da ponte, até a cabeceira, onde o caminho era de terra e os passos se abafavam em farfalhos quase inaudíveis. Sentia-se melhor após o susto, a adrenalina correndo nas veias como um poderoso antídoto para o álcool.

De um quadrado de luz, no meio do breu da noite, julgou ouvir a risada forte de Eusébio. Alguns passos naquela direção revelaram as ancas da sua égua cheirosa. Encostou o cavalo vomitado junto dela, o branco do seu olho rebrilhando no escuro, fica aí, cavalinho burro, junto da tua amiguinha, nenhum torrão de açúcar, nenhum capim, as grandes barrigas arqueadas tangenciaram, se roçando em aconchego. E depois, a lua tirando brilho daquele pelo, o sereno caindo sobre o suor. Festa de homem é assim mesmo, música, perfume, ar abafado e cheio de fumaça, mulheres sentadas em poltronas de braços puídos, um pano que algum dia já fora grená.

- Mas, moço você está branco como vela de defunto!

Tirou o chapéu e sua fantasia de caubói começou a se desfazer. Era um simples mané de rabo esfolado, desses que vomita em ônibus nas curvas da serra e no lombo de cavalo.

- Chegou tarde, mané, onde é que estavas?
- Quase que fui eu, o peão que caiu no rio esse ano. Mais um pouquinho e era eu. Mais uns centímetros, mais uns milímetros e o carro me pegava, ali no raio da ponte estreita...O teu cavalo quase que pulou a amurada, quando viu que não tinha pra onde correr. Senti o ventinho frio que vinha do fundo do rio bem na minha cara.

 Estavam rindo, estavam rindo pra caramba. As mulheres também, ainda que sem entender o motivo de tanta graça.

- Então, tu que ias ganhar o Oscar esse ano! Aí, garoto, passa uns tempos no Rio de Janeiro, e volta para morrer afogado!

E daí, devia ter morrido, devia ter pulado, um salto só e depois dormir tranqüilo.

- Era o carro de quem? Um fusca velho, com um farol apagado, cheio de meninas de família. Azul? Escuro, talvez azul.
- É o carro do velho Habib. O neto dele deve ter saído na moita, para se cartar com as meninas, um garoto magricela, com um buço fino. Ele mesmo. O próprio.

 Lembrava do garoto ainda criança, jogando bola na rua, bem diferente de seu quase assassino: isso aqui é estrada para carro, falara com voz grossa.

- Melhor esquecer, Mane. Toma um copo de cerveja.

O amargor da boca, com o amargo da cerveja, com o amargo de amar, com o amargo de viver, e com um tira-gosto, como uma rodela de salaminho, que tem também um travo de amargo, acaba por descer rumo a um estômago ardido.


Melhor assim. O cavalinho estava lá fora, já molhado de sereno. Mas cavalo não sente frio. Fica parado debaixo de chuva, como se nada estivesse acontecendo. De raio tem medo. Mas chuva, não. Sua égua do coração do lado. Suas barrigas se tocavam, se esquentavam, e ela ficava se mexendo devagar, como se estivesse se relando. Vai ver, estava. Ou então, era um incômodo do couro da sela, ou do freio na boca. Ou estava se coçando.
 Imóvel, o cavalo oferecia a sua resistência passiva para a égua aproveitar. Coce à vontade, meu bem. Arrepiava com o quentinho bom que vinha dela.

Melhor assim, dormir com uma mulher que nem conheço. Depois, pago e vou embora, sem complicações ou choradeiras. Muito melhor, aquela moreninha está muito bom.

Então foram, um quarto sem janelas, nos fundos da casa, colcha de estampado azul. Despiram-se em silencio, de costas um para o outro, e se enfiaram sob os lençóis. Um quebra-luz pequeno na cabeceira da cama mal iluminava os rostos. Pela primeira vez se olharam.
- Como é o seu nome?
- Maria; e o seu?
- Zé Antônio. Prazer.

Ficaram em silêncio, até que Zé Antônio disse:"Boa noite, Maria". Alguns minutos depois, Maria segurou a sua mão, escutando-o ressoar, enquanto despedia-se em pensamento: boa-noite.

E Eusébio, coitado, foi o vencedor daquela noite, o peão que caiu no rio. Saiu às três da manhã, montado na égua. Mal conseguia se suster. Chegou na ponte e deu de cara com o fusca azul que vinha voltando. A égua, esperta, fez meia volta e galopou para escapar do carro. E foi nessa virada rápida que o corpo pesado de Eusébio se desprendeu da sela e mergulhou vinte e tantos metros nas águas frias do Paraíba, mas morrer não morreu, deu uma barrigada na água e encalhou numa prainha. Olhou para a ponte, sem entender em que estranho mundo penetrara; e a égua, num galope saltitante, soube encontrar, facilmente, o caminho de volta ao calor da barriga arqueada do tordilho.

FIM





Jacques Levin
Enviado por Jacques Levin em 20/08/2006
Código do texto: T221165

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Sobre o autor
Jacques Levin
Vassouras - Rio de Janeiro - Brasil
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