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PROMESSA

Não é apenas um conto. É um dos retalhos verídicos da vida humana. Coisa que ouvi contar há muito tempo.
     Promessa é uma coisa séria, de muita responsabilidade. Quem as faz, deve pensar bem antes de prometer qualquer coisa. Para depois não se arrepender, ou sentir remorsos.
     É o que aconteceu com um homem que vou chamar Juliano. Ele tinha uma família bonita, saudável e alegre. Eram a mulher e três filhos, um menino e duas meninas. O menino iria completar sete anos de vida daí a dois meses , era mais novo do que as meninas, o caçulinha da casa.
     A casa deles ficava no meio de um pomar muito bem cuidado. Era muito grande, parecia uma fazenda. Fora, havia os campos onde pastavam os bois e os cavalos. Juliano gostava muito de animais, jamais maltratara um. E osfilhos adoravam brincar com os pôneis.
     Certo dia, o caçulinha brincava à beira de uma açude, jogando pedras na água para vê-las borbulhar, quando uma cobra venenosa o picou bem acima do calcanhar. Na hora, o menino só sentiu uma alfinetada, mas não ligou muito ao fato, somente depois de algum tempo, começou a sentir-se mal, com arrepios,  gritou choroso pelas irmãs que brincavam não muito longe. Ao ouvirem os seus gritos, correram a chamar a mãe que bordava na varanda. A mãe levou um dos empregados que carregou o menino para casa, enquanto mandavam chamar o médico, na cidade. Juliano apareceu logo depois,aflito e branco como cera. Nunca ninguém havia ficado doente na família, a não ser uma gripezinha que uma das meninvas tivera, já há mais de um ano e que logo  se curara.
     O caso era dos mais sérios, pois verificaram tratar-se de uma cascavel das mais venenosas. Embora fosse robusto,  a febre aumentava e parecia banhado em suor.
     A mãe desesperada, chorava, enquanto uma benzedeira rezava o menino.
     Juliano foi até o pequeno nicho de uma santa e rezou pedindo a cura do menino. Para isso prometeu dedicar-se todos os dias aos oficios religiosos e dar metade de suas terras para a construção de uma capela para a Santa Milagrosa. Rezou durante mais de uma hora, com muito fervor e devoção, mais do que sempre tivera. Mal acabara de rezar, a mulher veio avisá-lo que o médico estava chegando. O doutor entrou com ele no quarto para examinar o menino. Deu uma injeção, mandou aplicar uma pomada para passar todos os dias.Mas o menino parecia já completamente bom. E levantou a cabecinha do travesseiro perguntando: -- O que foi que eu tive, pai?
      Juliano  chorou de alegria, e toda a família emocionada, depois de agradecer ao doutor os seus cuidados, foram ao quarto da santa, para agredecer de joelhos,  o que consideravam o maior dos milagres, a cura do Luizinho.
     Mas os dias de aflição se foram. Houve festas no aniversário do Luizinho como nunca se vira antes. Veio até banda tocar, os convidados dançaram até o amanhecer. Passaram-se os meses e já um ano que tudo isto acontecera.
     Juliano havia dado a metade das terras para a Igreja, mas não se lembrara de dedicar-se aos ofícios religiosos, deixava sempre para o outro dia, e assim foram passando os dias, meses e um ano.
     Numa tarde, Juliano tratava de seus cavalos no meio do campo como sempre fazia ao voltar da cidade, onde tinha uma pequena indústria de laticínios, quando sentiu uma ferroada de um inseto que parecia uma abelha ou um maribondo, mas que não conseguiu identificar, bem ao lado direito do pescoço. Foi para casa e passou álcool no lugar da mordida, depois voltou para o seu trabalho. Quando estava muito bem escovando um dos cavalos,sentiu outra ferroada, desta vez no lado esquerdo do pescoço. Juliano teve um sobressalto, achou esquisito aquilo.Tornou a esfregar álcool no pescoço, no lugar da picada. Mas já esta ardia mais do que a outra. Foi até a casa e passou a pomada que fora usada em Luizinho para a picada da cobra. Mas, nada, não melhorava. Começou a ter arrepios por todo o corpo, teve uma ligeira tontura. Chamou a mulher e contou o que estava acontecendo. A mulher mandou buscar o médico, mas quando este chegou, Juliano queimava em febre, mais de 40 graus e delirava. O médico fez todos os esforços para salvá-lo, mas parecia em vão. Juliano teve um ligeiro estremecimento: quando num vislumbre de memória que ainda lhe restava, lembrou-se da promessa que fizera à Santa: dedicar-se  aos ofícios religiosos todos os dias de sua vida. Pediu, em pensamento, para Nossa Senhora dos Milagres, que o tirasse daquela agonia, que jamais esqueceria o que prometera se ficasse bom. Mas não melhorava. Sua respiração ia ficando cada vez mas fraca, sentia-se como nas nuvens, estava calmo, já não sentia tantas dores nem arrepios pelo corpo, só não tinha forças para se levantar e muito pouco para falar. Pediu água, a mulher deu-lha. Pediu que os filhos viessem vê-lo. Queria falar com toda a família. Todos o rodearam, inclusive a empregada e o médico que não deixara a sua cabeceira todo o tempo. Contou tudo que havia feito. Falou-lhes da promessa que fizera um ano antes, e que não cumprira toda. A mais importante, a sua dedicação aos ofícios religiosos, pediu que a mulher e os filhos cuidassem disso para ele. Acendessem uma vela no nicho da Santa, enfeitassem-no com flores, as mais bonitas. Queria que o padre viesse rezar uma missa na sua casa antes que ele morresse. Todos choravam. Mandaram vir o padre. O padre demorou um pouco a chegar, pois tinha ido ver outros fiéis. Juliano pediu que transportassem para o seu quarto, o nicho da Santa, onde todos deveriam rezar juntos. E assim foi.
    O padre rezou mais de meia ora, e toda a família o acompanhava, até alguns vizinhos das chácaras mais próximas que lamentavam o acontecido.
    Ao terminar a missa, uma luz se fez no quarto, mas só Juliano a percebera e vira a imagem de uma senhora toda de branco, de cabelos grisalhos, que parecia com sua mãe. Sorria-lhe. Quis falar-lhe mas não conseguiu, apenas deu um grande suspiro e desmaiou. Todos o olharam aflitos. O médico aplicou-lhe um sedativo para reanimá-lo.Juliano voltou a si, após alguns instantes, já lúcido, quase completamente bom. Mas havia uma certa tristeza no seu olhar. Uma dúvida passou-lhe pela cabeça. Seria mesmo sua mãe a senhora que vira no quarto, toda iluminada?
Então como explicar isso? Sua mãe vivia em outra cidade do Estado e gozava perfeita saúde.
     Mas a resposta não demorou a chegar. A empregada entregou, nesse instante, um telegrama à sua mulher. E o telegrama informava que sua mãe havia falecido, repentinamente, vinte minutos antes quando fora informada de sua estranha doença.
     Juliano parecia incrédulo.
     A alegria custou a voltar ao seu lar. Sempre havia uma nuvenzinha no seu semblante. E no fundo, bem lá no fundo de sua alma, uma picada de remorso o corrompia. E pensava angustiado " Teria sido ele a causa da morte de sua querida mãe, por não ter cumprido a promessa feita um ano antes? "
     Mas foi dessa maneira, tão dolorosa, tão estranha, que Juliano dedicou-se fervorosamente aos ofícios religiosos. Nunca houve um só dia sequer que não orasse na Capela que mandara erigir perto de sua casa para a Santa Milagrosa e onde não esquecia nunca, de fazer uma longa prece para a sua querida e saudosa mãe, que trocara a sua vida pela dele.
     Finalmente, a promessa fora cumprida.
Victoria Magna
Enviado por Victoria Magna em 05/06/2005
Reeditado em 11/10/2009
Código do texto: T22261
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Sobre a autora
Victoria Magna
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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