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A menina

A menina
by-Caio Lucas
 
Uma menina está sentada no segundo degrau de uma escada de uma velha casa.
Parece muito triste e, de repente, aparece alguém bem junto dela e pergunta:


A: Por que está com carinha de triste?
M: Tenho saudades da minha mãe, ela deve estar no céu.
A: Ela está bem agora, percorreu seu caminho.
M: Pois é... às vezes, fico pensando... pensando... como será lá?
A: Você ainda está na metade da vida, ainda tem muitos caminhos a percorrer.
M: Eu sei
A: É um lugar limpo, tão limpo que não tem cor.
M: Mas... um espaço?
A: Tem pessoas que sorriem, tem gente que anda sem os pés, apenas flutuam, os braços são só para abraços, as bocas são para pequenos beijos, no ar tem um cheiro suave de alfazema.
M: E o olhar?
A: O olhar é só um olhar, nada se vê através dos olhos, deles só brilham luzes, tantas como estrelas.
M: Uauuuuuuu!!!
A: Ah... e tem muitos sóis.
M: Não existe noite?
A: Sim, um sol para cada pessoa, cada uma escolhe o calor que quiser, a cor mais forte ou menos forte, mas todas em dourado; a noite tem lua, sempre nova, brilha como pérola, tão forte que reflete uma névoa entre os dedos quando apontamos a mão para o alto, e as vestes...
M: E... todos vestidos de branco? Assim me parece.
A: Tem todos os coloridos, nos cabelos enfeites lindos, muitos enfeites e também coloridos.
M: Mas eu achava que era tudo em branco, sei lá...
A: Tem jóias e anéis, muitos anéis, tem também música, cada um escolhe a sua, ela muda de lugar, vai para onde você está indo.
M: Nossa... que maravilha!
A: Se quer outra, tchum... é só pensar e pronto! Lá vem ela.
M: Quanto aos sonhos... não existem?
A: Eles, estes habitantes, são os sonhos, os desejos, eles que nos fazem ver através das noites estas tantas luzes, fazem com que sonhemos com cores e em cores, é como olham de lá para cá, ficam de olho aqui na terra. Estes coloridos, muitas vezes, são tintas que jogam no nosso caminho, colorindo o amanhã que viveremos e todos os depois, tem tintas que ainda não conhecemos, tem muitos outros sabores, doces, salgados.
M: Eitaaaaaaaaaaaa!
A: Cada uma das cores é uma forma de vida que vivemos e/ou vamos viver, quando precisamos de uma coisa, um conselho, uma ajuda olhamos para o céu, sabe por quê?
M: Por que?
A: É que lá tem um espelho bem grandão que reflete desejos.
M: E todos os desejos são aceitos?
A: Não, só os pedidos bons, este reflexo vem da nossa alma e vai até aonde estão todos os deuses, mas nem todos são aceitos e nem todos são recusados, alguns esperam numa fila, não muito longa... é que a gente sempre tem pressa quando desejamos, mas quando você quer muito uma coisa ou um sonho, ela vem. Não é realizar, é alguém que manda para você, atende seu pedido, entendeu? Mas sempre esquecemos de olhar de novo para aquele grande espelho e agradecer. Sabe? Quase todos são assim, esquecem... isto é ruim.
M: E?
A: E tem outros desejos a serem entregues e você nem agradeceu o anterior. É sempre assim com os humanos.
M: O que acha que vão fazer?
A: Deixar na fila mais um pouco, é o sistema...
M: Para que pensem, reflitam, né?
A: Sabe que este lugar que chamam de céu não existe, este lugar que lhe falei é segredo, pouca gente sabe disso, me contaram confidencialmente, mas pra você posso dizer, você tem aquilo que falam lá...
M: Mas é um espação sem fim?
A: Espere! Vou lembrar.
M: O que tenho?
A: Sim. É um espação grandão assim, espere...
M: Espero.
A: Lembrei! É uma coisa que só certas pessoas têm e que nos fazem abrir o coração e muitas vezes ficar mais perto, é algo assim que quando choramos não tememos as lágrimas.
M: O que está me vindo aos olhos agora: lágrimas.
A: Quando sorrimos não tememos mostrar a alegria, algo que só quem tem alma de criança e coração de humano tem: bondade. A bondade é apenas um pré-requisito para ser candidato a ser alma; é bom ser alma, morar em um lugar que podemos escolher, ou será que escolhem pra gente? Ainda não sei. Pronto! Fiquei em dúvida, mas tudo bem, acho que um dia vai saber. Mas também nem mesmo quero ir e nem saber agora, né?
M: Continua, conta mais.
A: Quero também saber de tudo direitinho, um dia, e também agradecer algumas coisas que recebi este ano, estou atrasado nos agradecimentos, preciso prestar mais atenção. Sabe? Qualquer dia vou sentar no penúltimo degrau da escada e pensar um pouco sobre o que conversamos.
M: Ah! Por que o penúltimo?
A: Por que? É que não gosto de ficar muito alto, acho que cada um tem seu tamanho certo, sua altura certa, seu conceito e sua inteligência certas. E o que vem depois do último degrau? Nada. Por isto fico no penúltimo. Até os pés têm tamanho certo para caminhar, e do tamanho dos seus passos, quem sabe um dia até flutuar entre outras tantas pessoas que foram deste mundo, que não é redondo, é apenas uma cabeça que fica em cima de um corpo, aquele que lhe dá calor, alegria e felicidade; às vezes, dor na testa.
A: Ah! Desculpe, estava pensando alto, você quer saber do último degrau? Faz-me voltar à escada, não gosto de ser o último, nem de sentar neste degrau.
M: Por que?
A: Devemos ser ao menos o penúltimo e fazermos por onde sermos o primeiro ou, quem sabe, o segundo; mas tentarmos ser o primeiro é sempre melhor, mostra que se não vencermos demonstra sua vontade de progredir. Pronto! Esqueci do que estava falando, mas tudo bem... Você agora sabe que falo muito, penso muito e esqueço muito,  mas só coisas boas, viu?
M: Vi e "viajei" também aqui com você.
A: Sempre trago comigo um tanto de carinho, quer um pouco?  Tenho o bastante para repartir, um pouco de água, pois nunca sabemos quem tem sede, um pouco de amor.  Amor só tenho um pouco agora, porque distribuí antes de você chegar, mas... tudo bem, logo vou ter mais e lhe mando, pode ser por e-mail?
M: Podeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee.
A: Quando amanhã levantar, lembre-se de mim, mas antes de você, sabe, sempre temos que ser do jeito que nascemos, nada muda se não for você por você mesmo e se sonhar, é claro. É assim que tudo funciona, se não der certo, não sei,
só se me ensinaram errado. Mas acho que é assim, quer um pouco do meu amor? Amanhã deixo embaixo do seu travesseiro.
M: E um beijo?
A: Um tanto de tudo, assim sei que vai sempre lembrar de mim, pega tudo e coloca bem perto do seu peito e tchummmmmm... vai para dentro e instala no coração, lhe garanto, vai se sentir bem melhor. Bom, agora preciso ir, desculpe se não posso ficar mais.
M: E... quem é você?
A: Estou assim assim hoje, não é tristeza, é só um tantinho de saudade.
M: Não é bom quando não se ama?
A: Saudade é bom, faz lembrar quem nos ama e quem nós amamos. E que saudade, hummm! Bom... até mais ... qualquer dia me chama, voltarei...
M: Tchau!
M: Certo... mas chamo a quem?
A: Ah! Eu? Sou seu anjo.
Caio Lucas
Enviado por Caio Lucas em 05/06/2005
Código do texto: T22285
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Sobre o autor
Caio Lucas
São Paulo - São Paulo - Brasil, 68 anos
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Caio Lucas