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Um pedaço de vida

Um pedaço de vida

by-Caio Lucas



Não estou preparado para viver, nunca vou ser alguém,

posso querer ser muito, tento,

acordei hoje festejando os sonhos do mundo.



Liberdade.

Abri as janelas do meu quarto, dei um sorriso com milhões de dentes,

não sei por onde começar, mesmo assim comecei a andar,

o mistério era que nunca encontrei gente, a minha rua só tinha um lado,

não sei qual, paguei caro a minha clausura, retorci os ferros das grades,

por baixo das pedras escondi alguns dissabores,

a morte nunca foi um atalho pensado, deixei por conta do destino,

peguei tudo e fui pela estrada do nada.



Mudança.
Hoje é outro dia, estou livre, solto pelo mundo, espero ser lúcido o bastante

e ter algum juízo, sou um filho quase esquecido pelo pai, não um vadio,

deixei um bilhete de despedida, colei no poste deste lado da rua,

não consegui mais voltar, deixei a porta aberta e as luzes acesas,

quem sabe ajude algum dia iluminar outro prisioneiro.

Assim que virei as costas a chuva começou, lavei as roupas sujas do passado,

aproveitei e também limpei a alma.



Outro.
Amanheci, logo meus olhos viram outros, eram de todas as cores,

tinha vergonha de minha pele, de meu corpo e do meu beijo,

não sabia o verdadeiro gosto da paixão, curioso saí à procura.

A sensação era estranha no começo, tudo parecia um sonho real,

como estava me sentindo, por dentro estava mudado.



Primeira paixão.

Fiz de propósito, não sabia como agir e me entreguei,

o aprendizado foi rápido, ela me mostrou seus caminhos,

não era isto que queria, precisava eu descobrir os meus.

Como poderia sem machucar outro e sair, ainda era aprendiz

e meus propósitos eram sonhar e quem sabe um dia amar.

Encontrei na minha primeira paixão atenção e carinho,

não era igual à outra, na minha carência qualquer atenção era amor,

estou aprendendo a pensar em mim, não sou só o provedor,

apenas um para sustentar outrem de suas necessidades.



Solto.

Viajei por muitos outros corações,

o que penso de tanta coisa, de tantos amores?

Não pode haver tantos ou eu que desconhecia,

neste momento fiz algumas sofrerem, também sofri na minha euforia

e no meu despreparo, sou só um sonho, como eu pensava,

um ser especial, somos todos.



Mais...

Outro dia, outro mês ou outro ano, outra paixão...

Tenho um novo encontro, pulei do avião

e me joguei nos braços de uma outra mulher,

como sempre me entreguei, deixei me levar.

Não creio em mim, fiz de novo e, desta vez, não estava nem aí,

tinha todas as certezas do mundo, de um mundo só meu.

Troquei carinhos e sabores, descobri até um outro corpo

dentro do meu, não era um outro pecador,

mas um cândido, limpo e amante.



Sonhos.

Estava começando a viver, aprendendo pelo menos,

sonhei um dia ser gostado, hoje sou amado,

quantas aspirações eu tinha, não tinha o gosto do beijo na boca,

rolei por um corpo quente, liberei meus hormônios

e senti o gozo, parecia um menino aprendendo a fazer amor,

sei agora que todos os prazeres são realizáveis,

ser amado não se agradece, ame, e fui assim por um tempo.



Meu mundo.

Voltei a correr o mundo, o meu pelo menos,

sonhei que poderia conquistá-lo, ainda que tenha que lutar mais,

não quero mais paixão, sofri algumas dores, todas suportáveis,

nada comparado à minha prisão, nada escuro como o passado,

comecei a voar, virei um pássaro, um cavalo alado,

não sei mais, mudei meu rumo à procura, nem mesmo eu sabia o que era.



Espera.

Escrevi em meu diário na noite passada: serei sempre o que nunca sentiu amor?

Aprendi que tenho que esperar mais, será para sempre?

Fiquei à espera que abrissem as portas, quero conhecer esta emoção.

Não havia porta, nem janelas, tudo continuava fechado,

até que alguém gritou meu nome dentro do meu coração,

ouviu a minha voz ou fui eu quem escutou o chamado? Não sei...



Manhã seguinte.

Acordei hoje em outra cama, creio que me apaixonei de novo,

escondido derramei lágrimas na minha natureza de macho,

seu sol me iluminou pela manhã, a sua chuva lavou meu corpo suado,

o vento secou meu mal cheiroso cabelo castigado pelo descuido.

Por um tempo junto ganhei carinho regado à paixão pura de mulher,

ficamos escravos do outro, trocamos desejos e anseios,

até que tentou me segurar comprando minha paixão, acordei cedo,

ainda era madrugada, muito cedo para o amor,

levantei devagar alheio à minha vontade, saí mais uma vez desta paixão,

sem nada, sem mesmo me conhecer, fui feliz por ser gostado, mas e o amor?



Continuei minha viagem, outra...

Comprei muitas caixas de chocolates e dúzias de rosas brancas,

toquei a campainha, bati na porta, ela não estava em casa,

saí de fininho e fui a uma confeitaria,

tomei água enquanto conversava com uma garçonete.

Ela me deixou à vontade para chorar, acho que percebeu minha solidão,

fui convidado para um passeio, saímos dali de mansinho,

misturados a papel dourado derretiam os restos de chocolates.

Muitas foram as minhas decepções, ainda terei outras tantas.

Depois de algumas horas de amor comprado em um hotel barato,

despedi da garçonete que me deixou sentado em um banco de jardim.



As rosas?

Ah! As rosas, despetalei todas e marquei o caminho de volta

para um canto frio de paixão, pois o amor ainda não conheci.



Telefone.

Alô, obrigado, me espere, estarei lá...

Me desculpem, era o telefone, são 19 horas, o encontro está marcado.

Agora farei novos versos, quem sabe para recepcionar a mais nova paixão,

estou fazendo o impossível ou o possível para não me sentir tão só.

Hoje quem sabe mudarei meus sentimentos,

vou deixar esta solidão que me acompanha fora do rosto,

não quero deixar perceber a tristeza.



O encontro.

Depois de alguns drinks, o jantar, poucos olhares foram trocados,

ela parecia preocupada com o cabelo, as unhas,

as amigas que passaram por perto e mais nada.

Não sei o que eu estava fazendo naquela hora,

me perdi em pensamentos e em lembranças de coisas que pareciam ter acontecido.

As mãos e os corpos se tocaram, os sentidos ficaram aguçados,

o tesão apareceu, fizemos amor.

Ao amanhecer olhei no espelho, a barba por fazer, um pálido sorriso e mais nada.

A roupa suja ficou jogada no rol, ela ao telefone,

fria e curtida de whisky com guaraná.

Eu, ainda sem camisa, recolhi minha carteira e saí.

Foi assim, outra vez com o peito vazio e os sentimentos mortos.



A Igreja.

Sonhei com muitas deusas e com Deus,

não sei como foi ver seus rostos, todos eram imagens vivas,

na mão uma espada apontando para minha cabeça,

aos berros de nefasto fui expulso de um lugar parecido com um templo.

Acordei suado, meu corpo tremia e minhas mãos rasgaram os lençóis.

Parei o carro em uma esquina, ao lado uma igreja velha, na verdade era uma capela.

Não me lembro há quanto tempo fiz a minha última oração,

ajoelhei meio desajeitado e balbuciei algumas frases decoradas que minha mãe me ensinou.

Senti estar sendo vigiado, olhado na verdade, uma pequena

moça de vestido comportado chegou devagar e começamos a conversar.

Passamos a tarde por ali, esqueci os compromissos, a moça parecia

séria demais, eu não tinha nenhum pensamento bom ou mal,

estava envolvido pelo ambiente.

Marcamos um encontro que, na verdade, era só um compromisso quase religioso,

ainda despreparado espiritualmente fui e não encontrei ninguém.

Desanimado já estava saindo quando ela chegou, me surpreendeu aquela mulher,

seu vestido recatado virou uma minissaia e sua blusa um top minúsculo.

Visitamos algumas lojas, o passeio virou um encontro de quase namorados,

antes só olhamos os carros que passavam, agora dentro de um sou atacado.

O vestido mudou, as pernas agora cruzam provocantes,

ansiosa começa um dedilhar abusado subindo em minha perna,

ela não deixou dúvidas e sem dizer uma única palavra fizemos amor.

Tudo isto não me pesa, como fugir ou acanhar, não sei se deveria,

mas os encontros nada religiosos se sucederam por mais alguns meses.



Correio.

Eu não invejo ninguém, mas pô, as contas só vêm para minha casa.

Recebi um bilhete, uma mulher me dizendo da minha personalidade,

eu nunca pensei como sou e nem as minhas atitudes, preciso me avaliar?

Sei não, acho que devo ser eu mesmo, assim como sempre fui.

Porque é possível, esta é a afirmativa que mais me faço,

e acabo seguindo por este caminho, não sei se o certo,

mas tenho cuidado para não atropelar ninguém.

Hoje preciso fazer alguma coisa por mim, e... não sei não,

quando começo com estas idéias sempre faço bobagens e acabo me apaixonando.



Fim de caso...

Estou de malas prontas, vou ver meu amor, é uma passagem rápida,

espero me divertir bastante e até matar a saudade daquele abraço gostoso.

O calor está forte demais, vesti errado, estou ensopado de suor, e agora?

Recebido com um beijo e um ''oi'' especial, peguei minha pequena mala

e fui, saindo de mãos dadas eu mal conseguia raciocinar, tanto era o calor.

Quando caiu a máscara, foi muito ruim, pela primeira vez eu não sabia como agir,

estava em uma encruzilhada, recebi um ultimato, preciso de você aqui e agora.

Tirei meu rosto refletido no espelho, parei de fazer a barba

e não acreditando no que ouvia, acabei não respondendo nada.

Nosso caso já havia envelhecido, foi isto que pensei.

Será que eu estava ainda sonado? Não acreditei naquelas palavras,

queria tomar conta da situação, mas foi em vão.

Não aceito este tipo de cobrança e ela, irredutível, exigia, e mais.

Na manhã seguinte, peguei minha mala e saí sem ao menos um beijo de despedida.

Tentei, tentei até demais, pensei que era meu amor,

o sentimento que há tanto eu corria atrás.

Chega! Voltei para minha casa, ainda pra ajudar caiu a maior tempestade.

Que saco! Cheguei todo molhado e sem grana.



Versos inúteis.

Escrevi quase a noite toda, não conseguia dizer do acontecido,

a decepção foi grande demais.

Minha consciência não estava pesada, era o vazio que comecei a sentir,

precisava falar com alguém, talvez quem sabe até chorar um pouco.

Eu não era o capacho, sentia ser o próprio chão,

me roubaram tudo e não valeu nada a dedicação e o tempo que ficamos juntos.



Internet.

Me sentindo o filho adotivo do morto, resolvi ler meus e-mails,

o desconforto era enorme, pela minha cabeça pensamentos horríveis

e a lembrança de tudo maltratava a alma, aquele mal-entendido não tinha volta.

Resolvi conversar com alguns amigos, foi ali que encontrei uma

amiga muito especial, parece que ela notou a minha tristeza e nada disse.

Fiquei um pouco mais à vontade, tanto que consegui escrever

alguns pequenos versos, muito tristes e quase sem nexos.

Em determinado momento senti que com esta amiga eu poderia conversar,

quem sabe jogar tudo pra fora, ela me deixou bem à vontade,

e eu ali sem saber por onde começar.

A certa altura, morrendo por dentro, comecei a dizer da minha viagem,

a vontade era de gritar, mas a língua estava travada

e o nó na garganta não deixava sair nada além de um silencioso e abafado soluço.

Passei quase a madrugada inteira conversando e escrevendo,

algumas coisas que ainda poderiam ser aproveitadas,

mas as lembranças estavam ali vivas me tirando o raciocínio.

Em outros tempos eu não estava nem aí, era fácil mudar de relação,

era só dar um tchau e pronto, mas esta foi alguma coisa

muito especial e estava me corroendo por dentro.



Defronte de outro sentimento.

Todas as noites esperava ansioso a hora de conversar com minha amiga,

foi impossível não me sentir tão estúpido, eu que não enxerguei o óbvio.

Qual seria o mistério desta mulher, tão certo como o sono,

os seus segredos começavam a me aguçar a curiosidade.

Estava balançado, era este o meu sentimento, precisava conferir,

mas ainda não tinha coragem, estava mesmo era com medo,

de magoar e de ser novamente enganado com outra paixão pensando ser amor.



Noites.

Foi assim por muitas noites, estava sendo envolvido por tanta atenção,

de repente caiu em cima de mim um sentimento de culpa,

mas não sabia na verdade quem era o culpado, eu ou a minha máxima de ser feliz.

Estou quase convencido, a carência misturada ao medo não

me deixavam enxergar a pessoa muito especial que estava bem perto.



Primeiro encontro.

Acendo seu cigarro e devolvo, colocando-o na sua boca,

bem depois do primeiro contato e de dois beijos,

um em cada uma das palmas de suas mãos, assim demonstrei

meu respeito e a libertação de todos os pensamentos e reservas

que, por acaso, ainda poderiam existir.

Confesso que estava ansioso neste primeiro encontro,

eu sentia que a expectativa era muito grande de ambas as partes.



A apresentação e o gozo.

Em um primeiro momento me apresentei como um amigo,

mas não funcionou, todas as especulações que antes tínhamos

um do outro vieram à tona e transpareceram em nossos gestos,

e o beijo aconteceu, e mais outro, dali pra frente começamos

a nos tocar e a nos conhecermos melhor.

Este primeiro contato durou alguns dias, 3 ou 4, não completos ou foram?

Sei que tivemos muitos bons momentos, dia e noite ali juntos...

Ah! O gozo?

Não preciso descrever, tudo foi melhor do que toda a ansiedade.



Depois.

Ela continua fumando.

Todas as noites temos um encontro marcado,

muitos carinhos são trocados, aprendemos a respeitar

as diferenças e estamos tentando nos entender.

Os encontros foram se sucedendo, um, dois, muitos,

as viagens planejadas e os novos amigos que foram chegando devagar.



Felicidade.

Talvez fosse feliz da minha maneira.

Hoje enxergo o passado de uma janela protegida,

as tempestades se foram, acho que estou mudando.

O homem que saiu à procura de amor não existe mais,

ele era um, hoje um amante amado

e por que não dizer apaixonado de verdade?



Ah! Conheço-o - eu disse muitas vezes estas palavras em relação ao amor,

tudo é muito diferente quando se está vivendo uma relação forte e sadia.

Voltei hoje de um encontro, na verdade uma viagem,

fui dentro de um coração e não me surpreendi quando me vi nele.

Não devemos agradecer quando somos amados,

em troca ame, é assim que termino: ''te amo.''



02/12/2002
Caio Lucas
Enviado por Caio Lucas em 05/06/2005
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Sobre o autor
Caio Lucas
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