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                               (gravura original de Judith Tomaz) 

                                - Ralo acima, o meu sonho entra na 
                                    partitura Cósmica... os átomos 
                                    as moléculas... que opção? 

                                         Judith Tomaz
      



                    Parabéns?       

                                     Rosa Pena



Foi como um aniversário inesquecível. A mesa bem arrumada pela mamãe, os enfeites escolhidos a dedo, Rapunzel com tranças de chocolate, o bolo um castelo enfeitado, as bolas coloridas sopradas com vigor estacionadas no teto espiando o alegre movimento, os presentes colocados amostra na cama. Sentir que somos amados é tão bom, ainda que seja só numa festinha que depois fica no registro do álbum da memória como uma das fotografias preferidas.

Foi como na hora de soprar as velinhas, todos em volta sorridentes cantando com fôlego parabéns. Isso nos faz sorrir e cantar mais alto para nós mesmo e até engrossar o coro do é big big big, é hora hora hora, Rá Tim bum! Todos gritam o nosso nome. Sonoro som. Depois vem o direito de fazer um pedido secreto.

Foi como no momento de cortar o bolo e dar a primeira fatia, a mais especial, aquela que será olhada por todos como o pedaço amoroso para figura number one em nosso viver. Naquele ano foi sua, ainda que em pensamento, para você ter idéia da sua importância em meu viver. Saboreei intensamente o nosso pedaço. O pedido foi ter você.

Eu não sabia ainda quantos aniversários viriam, quantos bolos a vida me daria, os bigs que eu não diria, as horas que trariam as rugas que hoje me batem com força na cara, o bum das rasteiras sem tim, quantas camas vazias de presentes eu teria. Não sei se o amei muito ou pouco! Isso não importa, mas sim o prazer que você me transporta ao me lembrar que a primeira fatia do bolo do meu aniversário mais bonito foi sua, acho que mais do que isso, naquele ano eu fui inteiramente sua sem cobertura. Fui absurdamente sua sim, assim como uma criança que dorme, completamente exposta, indefesa, nua. Naquele ano aniversariei tantas vezes que gastei todo o meu estoque de Happy Birthday.

Agora sem mãe, sem mesa posta, sem você, minhas pernas rumam para uma churrascaria onde o gerente com um sorriso cheirando a picanha, oferece-me de cortesia uma torta e me diz parabéns. Minha covardia agradece como o momento convém, pensando nas novas teias que se formarão no telhado de minha morada de recordações no novo ano que insiste em me reiniciar na vida, mas desiste de me iniciar na arte de esquecer.

Imagino por momentos a última fatia de um bolo em algum lugar no espaço. Se me fosse dada alguma escolha, queria que ela fosse novamente sua. O pedido secreto o mesmo, que teima em me acompanhar nestes aniversários tão iguais as tulipas de um bar. É small, small, small. É hora, é hora, é hora de pintar os cabelos, Rapunzel está com as tranças glacê mármore. E eu continuo sem saber se o amei muito ou pouco.
                   Mas que me importa isso agora? 




                                        BN/3217865908
Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 23/08/2006
Reeditado em 21/04/2014
Código do texto: T223380
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
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