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A VOLTA DE LÁZARO

A VOLTA DE LÁZARO









Dudu abriu os olhos e a claridade que vinha da janela inundou seu rosto cegando-o por uns instantes. Não percebeu de imediato onde estava, aos poucos foi reconhecendo os objetos; a mobília, a bandeira do Sport Clube pendurada em um prego, as medalhas de atletismo: três terceiros e uma de primeiro lugar – Ai que felicidade, não por chegar na frente, mas na frente do Paulinho, aquele cara era muito amostrado¹, queria ser o bonzão. A idade era a mesma, mas ele era o galã da turma e mais, namorava a Cíntia.

Tudo parecia familiar; a cama, os dois travesseiros, a estante cheia de tudo, as escovas e o boné por cima. Reconheci uma arrumação diferente, poeira ou falta de uso. Acostumei os olhos à luz, espantar a preguiça e ter vontade de levantar. O corpo pesado me impede; mãe abre a porta, me olha e começa a chorar. O abraço apertado machuca minha testa – “Não foi nada, um arranhãozinho, fiz o curativo enquanto você dormia...”.

Tento levantar, estou tonto, ouço a voz de tio João. Pai morreu quando eu tinha cinco anos, depois disso tio assumiu a família. Vozes agitadas – “Corre, ele acordou!”.  Saí um pouco atordoado e fiquei agarrado no portão, como quem está ariado². Neno passou na bicicleta e quase caiu quando me viu – “ Eu sou feio, mas não mordo não!”. Ele nem ouviu, estava longe. Em silêncio me olhavam na rua, eu não entendia. Puxa perdi a hora da aula, tinha teste de português, foi bom, eu nem tinha estudado... Meu negócio era ciências, doenças, o corpo humano, sangue arterial e venoso, tum, tum, tum, o coração batendo. Só não gosto de injeção, de tomar não, de dar, nunca fiz isso, mas deve ser um sofrimento, aquela agulha entrando... Meu braço é magro tem que ser na bunda mesmo.

Pensei que era segunda, mãe disse que era sexta-feira. Não entendi, ainda meio atordoado fomos ao médico, ele disse que estava tudo bem, que eu iria me recuperar, era jovem e tinha tempo, o pior já havia passado. Um pacto de silêncio reinava ao meu redor. Eu sabia que tinha dormido muito, estava magro e fraco, tinha um corte na testa, fechei os olhos e tentei lembrar.

O major era do Corpo de Bombeiros, tinha uns quarenta e tantos anos, mas era jovem, simpático, por causa do futebol vivia cercado de moleques. Nós jogávamos num campinho atrás da igreja e nos domingos tinha banho de piscina no quartel. Era uma festa, dividir os times, jogar a pelada³ e depois o piscinão. Naquele domingo tinha sido assim, estávamos apostando quem demorava mais no fundo e eu só me lembro disso.

Decidi procurar meus amigos, fui na escola dominical da Igreja Batista, o culto já estava terminando quando eu entrei. O Beto, não, o Pastor Roberto, que era nosso companheiro de bola, me olhou e continuou a pregação: - “Nós temos que confiar no Deus que obra milagres, ontem, hoje e amanhã. Este rapaz que entrou agora foi Deus quem ressuscitou...”.

Fiquei paralisado no banco, sabia que era eu de quem ele falava, mas não consegui entender o que havia acontecido. Senti vergonha, as pessoas viravam a cabeça e me olhavam espantadas; senti medo e depois raiva por estar servindo de palhaço. Saí correndo, Beto me alcançou.

Passei a mão na testa, quando o Nando mergulhou foi em cima de mim e eu bati a cabeça no fundo da piscina, ninguém notou nada. Quando me tiraram, o médico do quartel disse que não tinha mais jeito, saiu para fazer a guia de encaminhamento do corpo. Beto veio chorando, fez respiração boca a boca, minha língua mexeu, passei dois meses em coma, não dava para ficar na UTI, o médico mandou para casa.

Nenhuma lembrança, apenas um sono profundo. Não fiz viajem, não vi velhinhos barbados,  nem luz ou escuridão, só o sono. Talvez tenha morrido, até hoje não entendo bem. Nasci de novo aos quatorze anos; quando a história se espalhou eu não podia explicar, até hoje não posso. A grande alegria foi a visita de Cíntia, pelas mãos de Lázaro nos tornamos namorados. Milagres existem, eu sei.





1 – Exibido
2 – Desorientado
3 – Partida amistosa de futebol.



p.s. - Aguardo comentários.
CrisLima
Enviado por CrisLima em 24/08/2006
Código do texto: T224077
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Sobre a autora
CrisLima
Caruaru - Pernambuco - Brasil, 44 anos
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CrisLima