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PASSEATA - NOS TEMPOS DA DITADURA.*

                   


A multidão seguia agitada, olhos voltados para as esquinas, rostos  a procura da repressão esperada.
Ela caminhava ao meu lado, gritava, cantava. Vestia calça justa  e um blusão folgado preso à cintura por um cinto vermelho. Seu corpo agitava-se continuamente, os braços erguidos, rosto ligeiramente pálido, mas expressão que refletia coragem e segurança. Os olhos azuis pareciam ver tudo pela primeira vez, tal era o brilho de felicidade que transmitiam. Ela tudo via, observava, devorava, menos a mim que lhe implorava um olhar, um sorriso.
Agora estamos de mãos dadas, todos fazem um cordão. Arrisco uma carícia, ela sorri sem me olhar, e seguimos.
De repente, os soldados. Corri para um muro, subi. Lá de cima olhei para a rua e a vi correndo ora para a direita, ora para a esquerda, até que parou. Ficou como a esperar o fim, entregar-se. Gritei: - Marina, aqui. Apesar da distância e do barulho me viu, correu. Quando o gás já era intenso, pulamos. Estávamos em um terreno baldio que fazia fundos de uma casa. A impressão era de estar desocupada, pois o quintal descuidado, as janelas fechadas denotavam abandono. O mato era alto e a construção era destes palacetes que se encontra às vezes no centro das grandes cidades.
Ficamos afundados no mato. Eu escutava sua respiração ofegante junto ao meu rosto. Um soldado subiu no muro, disse qualquer coisa para outros lá fora, ouviu a resposta e voltou para a rua. Uma bomba de gás explodiu perto de nós. Xinguei e corremos.
Ela me apontou um barraco de madeira, oculto junto ao muro. Nos arrastamos até lá. A porta cedeu sem esforço, entramos. O paiol estava vazio, com exceção de alguns sacos de milho já mofados. Sentamos no chão. Lá fora se ouvia gritos, palavrões, correria.
- Obrigada.
- Não foi nada. Perdeu-se de alguém?
-Não, estava sozinha.
-Como se chama?
-Marina. Como você soube?
-Não sei, engraçado adivinhar.
-Alguém?
-Não.
Uma ratazana atravessou o barraco . Assustei-me, ela gritou.
-Vamos sair daqui.
Saímos. Na janela do casarão um velho barbudo apareceu e nos chamou, Corremos para a casa e entramos.
Dentro, a riqueza dos móveis, os lustres, obras de arte, tapetes, nos impressionaram. Percorremos a casa cômodo por cômodo sem encontrar ninguém. Salas enormes ricamente decoradas, intensamente iluminadas completamente desertas. Ela permanecia junto a mim, assustada. Passei o braço em torno de sua cintura e subimos as escadas de mármore. Em cima muitos quartos, com decoração antiga. No maior deles uma cama muito macia e grande, grossos tapetes e uma lareira acesa.
Ela jogou-se na cama e ficou a pular, rindo como criança. Saí, andei por toda a casa sem encontrar ninguém. Na sala de refeições um enorme relógio de carrilhão enchia o ambiente de ruídos compassados. Eram onze horas da noite
Voltei ao quarto e a encontrei envolta em montanhas de cobertores. Seu corpo parecia menor na imensidão da cama.
-Ninguém em casa. Os soldados interditaram o quarteirão, houveram tiros e os homens estão por toda  parte. O jeito é ficar aqui.
Ela me olhava sorrindo. Já apagara a luz e nos iluminava apenas a chama vermelha da lareira. A cama era luz e sombra, calor e desejo. Seus cabelos espalhavam-se pelos travesseiros. Virou-se de costas mostrando os ombros nus e o contorno de seu corpo perfeito delineados nos lençóis.
O tempo é breve quando se é feliz.
Quando acordei não a encontrei na cama. Vesti-me e desci. Um aroma de café vinha do andar de baixo. Na sala de refeições a mesa estava posta com pães, geléias, frios e sucos. O café na chapa quente do fogão à lenha era irresistível. Enquanto bebia escutei o carrilhão bater cinco horas. Lá fora ainda estava escuro e uma chuvinha miúda acompanhava um vento gelado.   Ouvi uma porta bater. Corri até a janela e já longe pude ver os cabelos compridos e louros de Marina. Ela corria na escuridão. Ainda alguns segundos fiquei observando seu vulto liberto. Mas as garras da repressão caíram sobre ela. Agora caminhava triste e escoltada.
Lembrei-me do sorriso  moleque quando lhe acariciei a mão, seu grito de medo do rato inofensivo, seu braços assustados me apertando quando entramos na casa, seus olhos provocadores, seu corpo entre lençóis iluminados pela claridade trêmula da lareira, minha noite de amor, minha descoberta da felicidade.
Cobri a cabeça, saí andando pela rua deserta, na chuva miúda,  no vento frio rasgando a madrugada violada agora pelos primeiros raios de sol de um novo dia.


     
 * Extraido do E-Book A PORTA DA PALAVRA publicado neste site.
Humberto Bley Menezes
Enviado por Humberto Bley Menezes em 25/08/2006
Reeditado em 26/08/2006
Código do texto: T225269
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Sobre o autor
Humberto Bley Menezes
Curitiba - Paraná - Brasil
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