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A VOLTA






Escolhi uma tarde cinzenta, incerta para voltar. Sem hora nem sol, confundida a natureza num dia triste. A estrada – acho que é a mesma, com seus ríspidos muros e pichações que sobreviveram às eleições.

O vento assanha meu cabelo, joga areia nesses olhos meio cegos; se estivesse feliz veria os sorrisos de cobiça e os boa-tarde maliciosos que agitam o ego e a vaidade, mas não estou. Passo pela vacaria – ilha perdida no centro da cidade. Vejo as mesmas caras conhecidas dos velhos perdidos no tempo, com tempo apenas de ver o tempo passar. Por um breve instante volto à fazenda, numa viagem com cheiro de esterco e mugido de bois; lembrança morta, apagada do coração.

A ponte é estreita, atropelam-se pessoas que mais parecem carrancas. O rio virou riacho, que virou canal, que virou esgoto e nos meses de chuva engana os pescadores. Paro e vejo meninos buchudos carregando anzóis e enfieiras de minguadas piabas. São felizes com os peixes e a lama. Volto a olhar o cercado do curral: existem flores, flores? Não sabia. Lá estão elas: brancas, sem perfume ou beleza, sem nome. Um cachorro abana o rabo e vai embora. Continuo, sento numa pedra e tenho sombra, mas sombra para que? Talvez chova e o sol morreu sem ninguém perceber. Sinto o cheiro antigo de café forte, não que eu goste de café, mas quando se tem saudade tudo serve de lembrança. Ainda existem mulheres na calçada, varrem folhas e olham pelas janelas; animadas conversam e admiram suas crias.

Vejo-me nas meninas de unhas vermelhas, cheias de bugigangas, com shorts curtíssimos e pernas finas. Eu crescia uns dez centímetros quando me chamavam de mocinha. Parece que é outra a menina tomando banho de chuva no carnaval e sonhando ter quinze anos. Sonhando com outro mundo onde pudesse sair sozinha e namorar... Realmente é outra, a sinto dentro de mim como uma conhecida, uma velha conhecida personagem de uma época feliz. De um universo limitado pelo Colégio onde as semanas eram contadas pelo almoço de domingo: Éramos uns oito netos que marcavam ponto no pirão com cozido da casa de Vó. Meus tios bebiam e falavam alto, sempre discutiam sobre vovô. Dele lembro apenas a cara fechada e os roletes de cana docinha.Acabaram-se os almoços, as ceias, a união. Hoje os caldeirões esquecidos servem de morada a pés de zezinho.

Não mudei sozinha. Tudo segue seu rumo, sua sina. Este peso da desilusão me faz ter cem anos, as mãos sem rugas e a alma pequena, presa, irrecuperável.

Continuo caminhando, conheço todas as pedras do calçamento, por certo conhecia, passou o asfalto e soterrou minhas pegadas. Sei aonde vou, mas sigo por uma estrada desconhecida.

Hoje sou estranha a um lugar quer já foi meu. Tudo mudou muito, só a vendedora de milho e tapioca continua na esquina, resta uma esperança. Agora é o cheiro do São João que me invade: gosto de quentão, de bolo, de alegria. Revejo a igrejinha onde casei de brincadeira, a palhoça, a casa da cigana. Sinto o peso da invasão, sou estranha às bananeiras envelhecidas que servem de roupa aos pés-de-moleque. Perdi meu ontem para o furacão do futuro. A distância é enorme, errei ao voltar. Cruzo a rua: a casinha verde-amarelada aparece por detrás da palmeira. Está desbotada feito retrato velho, mofada. Paro na calçada e admiro minha casa: seis estrelas apagadas de poeira e uma antena quebrada. Chego perto, sonho na saudade, passo os dedos pelo portão enferrujado, fico querendo o que foi meu, remexo a touceira de capim-santo, desperto com uma voz: - Perdeu alguma coisa?





CrisLima
Enviado por CrisLima em 02/09/2006
Código do texto: T230775
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Sobre a autora
CrisLima
Caruaru - Pernambuco - Brasil, 44 anos
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