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Isso de ser Sábado

(Isso de Ser Sábado é o sexto capítulo de Itambiricó de São Tenório. Um romance, se valer acabá-lo)


E isso de ser sábado de sol muito cedo e de tão cedo de ser sol e sábado, tira Ferrolho da cama suado, sem sono nem sonho que se lembre, que não dormiu de tanto calor na alma sua de padre. Senta-se em sua suada cama desarrumada de igreja, de campanha, observando o raiar da luz pelo vitral da Maria santa colorida em cacos de vidro furta cor em desenho luminoso na parede. Bonito acordar assim, com Nossa Senhora de bons dias. Até dá vontade de pensar que se está em paz em terra boa de meu Deus. Bom dia santa mamãezinha! Mas para você vai ser mais um sábado, Ferrolho. Sábado de catequese. Na sacristia a Zefa denuncia-se num aroma de café fresco pronto feito agora, num cheirinho de café coado em desenvoltura de água quente e borra em filtro velho de pano limpo, empestiando a igreja toda de bom dia.
Zefa professora sempre chega cedo nos sábados de catecismo. Educar as crianças de Itambiricó de São Tenório em cartilha de bê-á-bá, em caderno de um-dois-três é uma dádiva para ela, mas é nas coisas do senhor que ela se empenha mais, não deixando o padre Ferrolho ferrar os olhos numa soneca mais comprida. É sábado de manhã, de catecismo acartilhado da igreja com figuras ilustradas da vida do nosso Senhor Jesus, com os caminhos do nosso Senhor Jesus, com o menino na cruz ou manjedoura pastando presentes, no colo da mãe no lombo de um burro, na santa ceia em festança de vinho e beijo e pão e traição, do santo no alto do monte recebendo deveres, cumprindo mandares de oliveira falante, com essas histórias e estórias de contar para os meninos aprenderem a serem bons meninos e meninas do nosso menino Jesus em Itambiricó de São Tenório que é sábado de ser santo. O cura aprumado em calça e camisa sem colarinho, gola de padre e brilhantina sem vaidade no alisamento do cabelo pixaím de negro que é, moreno mulato babado até as orelhas, até as hastes dos pretos óculos grossos de ler em gomalina, repensa com a xícara na mão da sacristia para o altar as prioridades primeiras de prior preocupado em lições de instrução. O magote infantil sentado no chão da Mariana, à volta da Zefa, deleita-se muito seriamente na orientação da fé e dos seus princípios, ansiosos pelo fim, pela hora do bolo da tia Zefa professora que sempre trás bolo e tapioca com manteiga e suco de caju e cajá-manga, e pé-de-moleque e rapadura. Até parece dia de festa esse dia de ser sábado das crianças. Você conquista a fé dos meninos com guloseimas, Zefa, É comida, seu padre, que a gula é pecado. É só uma comidinha de alimentar doçuras nessas crianças travessas sem pecados. Nem tanto sem pecados nas travessuras, nem tantas doçuras nos pecados que logo do alto, bem do cimo da cumeeira de cima do seu santo nariz de padre, o Ferrolho esquenta a traquinagem da memória lembrando o bando de coisas levadas dos moleques de Itambiricó de São Tenório. Vinde a mim as crianças pois delas é o reino dos céus. Foi o que ele disse. Foi ele que pediu. Pois se levasse, já agora, agorinha mesmo, uma meia dúzia de piolhos aqui deste sertão de ninguém, eles tomavam conta de todo o céu celeste, do inferno e do além também. E faziam daquilo tudo um campo de batalha de bodoque e baladeira, estilingue, funda e papagaio cerolado, pipa guerrilheira em minas de capoeira para depenar asas de quero-quero, bem-te-vi, carcará e anjinho gordo só para vê-los voar desalados. E quantos nós seriam dados no sagrado santo sudário ou no rabo do cão, que nem o capeta escapava dessa legião de inocentes em calções de criança, sem camiseta no corpo que a leva na cabeça como lenço guerreiro, de sandálias-de-dedo nos dedos dos pés ainda negros da fuligem da cana queimada, em meio a poeira da manhã desse sábado de ser sábado em pó, renascido sem volta ou revolta das fúrias de menino perdido à porta da igreja em contra-luz. Lhe disse o senhor doutor Genilson, babalorixá Genilson de Iansã, oyá, e farmacêutico, que os búzios falavam dele como se fala de coisa desgarrada, descuidada e desgraçada. Ele acreditou com a fé da mão na bainha do facão numa meia-lua capoeira, meia-lua maneta, e outra e mais uma e uma outra de compasso, seguindo numa armada pelos bancos sem tirar da mão crente na cinta, pendendo num aú malandro com o calcanhar meio ao umbigo do padre, que seu tamanho não chega para o queixo absorto que lhe aponta. Bom dia, Lúcio. Se veio para a lição da igreja é melhor você ir se lavar primeiro. Cresceu-lhe o peito para a frente e os ombros para as costas, fantasiando músculos na cara de mau e perigoso menino, quase bandido sem mocinho. Quero saber é se é mesmo hoje que tem batismo? Ferrolho abana a cabeça num sim de fechar os olhos sem consolo, conformado que o Lúcio não quer saber de igreja num sábado fervente de batismo, transfigurado novamente em menino de pura alegria, com uma risada tamanha que lhe toma os olhos, expulsando-lhe os dentes da boca de gargalhada, numa correria desvairada para a rua na batucada dos chinelos nos pés, slap slap slap na bunda, tun tun tun no assoalho lavado, ziriguidum na mesa de lata equilibrando os copos da cerveja em tremedeira de fazer o caxixi novo chacoalhar. Esmero novo em trabalho antigo que o mestre Rufino sabe bem, conhece melhor em tempos de brincadeira de roda de capoeira antiga. Desce outra, Josué, que esta já não quer sambar do samba que se apressa no coração apaixonado do mestre artesão. Só mais essa que eu tenho que ir entregar esse brinquedo ao dono. Mistura de junco, lágrimas de Nossa Senhora e o cu de uma cabaça bonita, escolhida na sonoridade do nó do dedo para um berimbau cantador.
Josué ainda demora-se na conversa com a Rosa caixeira que de viajem do Arraial trouxe uma remessa de fumo bordado, já embalado e florido em singelos embrulhos de rameira. É na Mercearia de Prata que a Rosa entrega os bordados que o Gladi trás de vez em quando. O Josué arranja sempre um cantinho ao lado do fumo de corda, na prateleira da tabacaria e há sempre encomenda certa para deixar de lado, em baixo do balcão ao lado do caderno de apontamentos de contas à pagar, que lhe devem quase sempre as contas de quase nunca receber. E a Rosa não sabe se fazer menos vistosa de tão bonita que é, mesmo com aquela idade que não se fala por não se falar da idade de mulher bonita com já alguma idade, mesmo em Itambiricó de São Tenório. Um vestido azul-claro arranjado de céu e renda, decotado que faz verão e propaganda suada não é enganosa. A Rosa nunca engana. Mulher séria nos negócios, rafeira na cama. Mas trouxe com a encomenda uma ponta de preocupação com a afilhada, que ficou intrigada com o passeio da madrugada que a menina tinha e não se parecia nada com passeio fugido de namoro fugaz, repentino de hora incerta. Era um passo apressado que o Josué não sabia, não tinha visto desde ontem, quando secou-lhe o cansaço do calor do corpo em copo de suco, caja-manga, e pedido de casamento que não disse. Mas ainda vou na igreja saber se o padre sabe da menina, E pede a bênção do Senhor, Rosa, Já nasci abençoada com essa formosura que era a gostosura da cafetina vasta, cheia até a tampa da boniteza chapada na cara do delegado babado que a viu entrando e resolveu entrar, na desculpa de levar do fumo bordado da Rosa para o pessoal da delegacia, que eles também fazem uso de calmaria e leva meia-dúzia de agrado e mais dois para ver a Rosa risonha, agradada. Cheio de moda o delegado galalau lhe tira o chapéu, lhe faz uma vénia leve cavalheira de bom dia, lhe arrisca a saúde e lhe palpita o tempo, dando logo toda a tropa se lhe for preciso na busca da protegida quando o Josué lhe dá conta da consternação da pobre dona do berel. Estou é encafifada com uma coisa, mais nada, e licensa que me vou andando naquele rebolado que enche a boca do delegado de calor desse calor de ser sábado e bom dia em Itambiricó de São Tenório.
Antonio Antunes
Enviado por Antonio Antunes em 02/09/2006
Código do texto: T231029
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Sobre o autor
Antonio Antunes
Reino Unido, 41 anos
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