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FRUTO DE UM AMOR

     João conheceu Maria que era passadeira de roupas de ricas senhoras da alta sociedade araçatubense em pleno feriado.
     Viviam no arrabalde da cidade, mas cada um num estremo. João era ambulante com espaço fixo na Praça Central, onde grandes senhores discutem o preço da arroba do boi.
     Num dia de Finados, no Recanto de Paz da Saudade, transitando entre túmulos se olham – simples fato de um esperar o outro passar – continuaram a caminhada por túmulos; subitamente seus olhares se voltaram para o ponto de encontro. Ambos abaixaram a cabeça na busca de algo perdido no chão, ou simplesmente o lugar os condicionou assim.
     Maria, uma senhora mal amada, de trinta e cinco anos, mãe de um filho de quinze anos que não conhecia o pai, tentava passar roupas para a alta sociedade na busca do sustento próprio e do filho.
     João, senhor desertor de pequena fortuna que herdara do pai, com trinta anos, vendia badulaques para se sentir patrão de si mesmo.
     Ambos lutavam para sobreviver a inúmeras dificuldades que a vida lhes traziam.
     Depois das preces na Capela Central do Recanto de Paz, Maria caminha para a saída e não percebe que João a acompanha de perto entre a multidão. Se afasta da massa e caminha apressadamente para casa.
     João, na tentativa de segui-la, liga apressadamente a sua motocicleta, mas perde-a de vista.
     Em casa João não cansava de se questionar como a perdera de vista. Batizara a desconhecida de “Mulher do Recanto”. Os dias se passavam e a rotina da vida dos dois seguia.
     Quinze dias depois, João no seu ofício de ambulante, sentado tranqüilamente atrás de seus badulaques na Praça Central, assusta-se: a “Mulher do Recanto”, inesperadamente, dirige-lhe a palavra:
     - Quanto custa este relógio despertador, senhor?
     Quase não saiu uma palavra se quer de sua boca; João prestava atenção nos traços físicos da “Mulher do Recanto”, a Maria.
     - Três reais, senhora.
     Maria, repentinamente como um relâmpago, passa-lhe à mente a figura do homem do Recanto de Paz, da troca de olhares... Ele está na sua frente. E agora?
     João, como era atirado, pergunta:
     - Já não vi a senhora?
     Maria sem saber o que fazer faz menção de sair, mas as pernas não correspondem aos estímulos da mente.
     - Um momento, senhora.
     Maria respira a tenta fixar os olhos no rapaz à sua frente:
     - Já nos vimos?
     - Sim, foi no...
     - Recanto de Paz?
     - Isto.
     Um breve silêncio.
     - Procurei-a após as preces da Capela Central, achei-a, mas logo a perdi de vista.
     Outra vez silêncio.
     - Quanto custa mesmo o relógio?
     - Três reais, senhora. Posso saber seu nome?
     - Maria. Outro dia venho buscá-lo...
     E sai rapidamente pelas pedras calçadas da Praça Central.
     João tentou chamá-la, mas não foi possível, pois os transeuntes cobriram sua visão.
     Muitos dias se foram, o Natal se aproximando. Maria reapareceu dando seu ar de graça.
     - Oi. Venho buscar o relógio.
     - Oi, Maria, tudo bem?
     - Tudo. Ainda lembras do meu nome?
     - Perfeitamente.
     E conversa vai, conversa vem, trocaram endereços e conhecimentos mútuos.
     No próximo domingo foram vistos, à tarde, numa calorosa conversa numa mesinha da sorveteria da esquina do bairro.
     João ambulante e Maria passadeira se encontraram várias vezes no mesmo lugar. Dia depois foram vistos, na mesma mesinha, três pessoas: o filho de Maria ocupava a terceira cadeira.
     O tempo correu e Maria passadeira já não é mais, João ambulante também não. Ambos reuniram os próprios recursos e dotes pessoais e montaram uma loja na Praça do Shopping.
     Outro dia foram vistos, na mesma mesinha da sorveteria da esquina, quatro pessoas: o quarto é o fruto de um amor não proibido.
     No Shopping, a “Recanto de Paz” é uma loja em plena prosperidade nas mãos de uma senhora comedida.
Prof Pece
Enviado por Prof Pece em 03/09/2006
Código do texto: T231627
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Sobre o autor
Prof Pece
Araçatuba - São Paulo - Brasil, 46 anos
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