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In "Justiça"


IN “JUSTIÇA”
     

     Suas forças estão acabando, mas ele não desiste, corre, corre muito.
    “Não posso ser preso” - pensa. Por isso emprega suas ultimas forças correndo pelas vielas do morro, tentando despistar a polícia que está no seu encalço.
     Ele não é uma pessoa ruim, infelizmente não teve sorte na vida. Sempre honesto e trabalhador era um exemplo de pessoa até o dia em que ficou desempregado. Depois de quase uma vida dedicada ao trabalho em uma empresa, ele foi demitido.
     A princípio ele não se preocupou, tinha muita experiência e um novo emprego era questão de tempo, mas o tempo foi passando, passando, e nada, nenhum emprego, era velho, diziam, precisavam de pessoas mais jovens, de sangue novo para a empresa.
     Sua mulher tinha ganhado o terceiro filho e suas economias haviam terminado, e nenhum emprego havia aparecido para ele. Primeiro veio à insegurança, depois o medo, afinal, seus filhos precisavam comer, por último o desespero. Foi então que tomou uma decisão, iria pedir ajuda para o traficante do morro, pediria um emprego, não queria se envolver em mortes, assassinatos nem pensar, pediria um emprego que não prejudicasse as outras pessoas.
     O traficante o ajudou, deu-lhe dinheiro e disse que logo teria um trabalho. ”Quando?” - perguntou. “Logo”. -respondeu o traficante.
     Os dias se passaram e logo um menino veio á sua casa com um bilhete do traficante, a partir desse dia ele se tornou um funcionário do tráfico.
     Começou como mula, mas, logo se tornou gerente de boca, era implacável, tornou-se uma pessoa fria, sem sentimentos. Tornou-se um assassino.
     Tirou sua família do morro, não queria que sua mulher soubesse da vida que estava levando, tinha que dar exemplos para seus filhos. Para sua mulher ele estava trabalhando em uma fábrica na cidade vizinha, justificando assim, as várias noites que ele não aparecia em casa para dormir.
      Ele corre, conhece as vielas do morro como ninguém, mas parece que todo esse esforço está sendo em vão. “Será que é uma armadilha?” “A polícia não pode conhecer tão bem assim o morro”. - pensa. Não agüenta mais, resolve então se dirigir para o esconderijo, quem sabe lá encontra alguma ajuda.
     Tropeça e cai.
- Parado! Não se mexa!
“Acabou”.
- Revistem-no! Vamos! Revistem-no.
- Por favor, não atirem. Eu estou desarmado.
     A polícia revista ele, procuram por armas, drogas, qualquer coisa que o incrimine. Eles o levantam.
- Como você se chama?
Silêncio.
- Vamos rapaz, como você se chama?
Não obtém resposta.
Um soldado lhe dá um murro na boca do estômago.
- Diga logo filho da puta.
Ele geme de dor, mas permanece em silêncio.
     Agora ele é atingido com um soco no rosto. O sangue escorre. “Droga! Não posso dizer quem sou” - pensa ele, tentando encontrar alguma solução.
- Vamos, desgraçado, diga quem é.
Pontapés, socos de todos os lados o atingem.
- Parem com isso já. - é uma voz de comando - de repente surge uma esperança-O que vocês estão fazendo aqui.
- Senhor... É que... Nós...
- Cale a boca. Larguem esse homem.
- Mas senhor.
- É uma ordem.
- Sim senhor!
Eles o largam, sem forças cai no chão. A dor é muito forte, ele respira com certa dificuldade.
- Obrigado! - diz com dificuldade.
- Se eu fosse você não agradeceria.
Ele baixa a cabeça, a dor esta se tornando insuportável, por alguns segundos deseja morrer.
- Tragam-no.
O policial vai até um barraco fechado, com o pé ele arromba a porta e entra.
- Deixem-no ali. -os policiais o colocam em um canto - Obrigado. Agora me deixem a sós com ele.
- Água, preciso de um pouco de água. -o policial não liga - Por favor, me dá um pouco de água.
- José Fernandez Barbosa ou raposa pegamos você, fácil não?
- Como você sabe.
- Você não lembra de mim José?
- Não. Eu...
- Olhe bem para mim, olhe nos meus olhos.
- Você é...
- Vamos esforce-se. Você vai se lembrar de mim.
- Paulo Pacheco. Você é Paulo Pacheco.
- Isso mesmo, José, isso mesmo... Você me desculpa?
- Desculpar, do quê?
- A culpa é minha. Você sempre foi uma pessoa honesta.
- Isso é passado, agora não sou mais, sou culpado.
- Não, você não é culpado. Você é inocente, se eu não tivesse te indicado para o patrão mandar embora, você não estaria aqui agora, você sempre foi honesto, sempre.
- Você não tinha solução, alguém teria que ser mandado embora, você era o chefe, só fez o seu trabalho.
- Eu poderia mandar outro embora, mas mandei você porque você nunca quis entrar no meu esquema, por causa disso você se tornou um bandido.
- Acontece. Infelizmente não me arrependo do que eu fiz. Tudo o que eu fiz foi por amor a minha família, faria de novo se fosse necessário.
- Eu me arrependo do que fiz, muito. Sempre fui desonesto, agora estou aqui prendendo a pessoa mais honesta que eu já conheci.
- Aquela pessoa morreu há muito tempo.
- Por minha culpa... Por minha culpa... Era para eu estar no seu lugar. O mundo precisa de pessoas como você, não como eu. Eu sou um assassino, matei uma pessoa boa.
- Não se culpe pelo o que aconteceu, a vida é assim mesmo, eu sou o mocinho que virou bandido, e você...
- O bandido que virou o mocinho.
O policial começa a chorar.
- Por favor, acabe com isso logo, porque você me trouxe para cá? Sinto te dizer, mas não delatarei meus companheiros.
- Eu sabia que meus homens estavam no seu encalço, por isso resolvi vir junto, desde o dia que vi sua fotografia nos arquivos da policia, venho te procurando, me sinto muito mal sabia muito mal. Tenho pesadelos constantes com você. Você não merece ser preso, não merece viver assim, sendo procurado como um bicho, você não merece.
- Sou culpado, só tenho isso a dizer.
- Você é inocente, amigo, você é mais uma vítima desse sistema falido em que vivemos. E, eu prometi a mim mesmo que tiraria você dessa, indiretamente também sou culpado.
- O que você vai fazer?
- Meu irmão tem uma fazenda no Mato Grosso, lá você terá uma casa, um trabalho, escola para seus filhos, tudo o quê você precisar para viver bem e feliz, pois você merece.
- Será?
- Merece isso e muito mais.
- O que eu dou em troca?
- Sua felicidade e de sua família.
- Como sairei daqui?
- Tenho um plano. Por favor, finja-se de morto...
O policial Paulo sai gritando feito louco do barraco.
- Seus irresponsáveis, vocês mataram o rapaz a pancadas, agora vamos embora antes que algum repórter chegue aqui.
- E o corpo senhor?
- Vamos deixá-lo aqui, pensarão que foi algum acerto de contas, agora vamos embora, vamos...
Horas depois, Paulo encontra-se com José, trás consigo uma maleta. Nela está dinheiro e todos os passos que José tem que dar para chegar à sua nova vida.
     José e sua família ficam muito felizes, e Paulo tira de si o peso que trazia consciência.



Marc Souz
Enviado por Marc Souz em 04/09/2006
Código do texto: T232308
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Sobre o autor
Marc Souz
Birigui - São Paulo - Brasil
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