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Oriente-se



O ambiente era aconchegante. Uma luz tépida e suave transmitia tranqüilidade. Não faltava a música instrumental, nem o aroma de sândalo se projetando pela sala em graciosas espirais de fumaça.

Adroaldo sentiu-se em paz. Sensação difícil de experimentar em sua atribulada vida. Sobrevivente de uma gastrite e de um quase infarto, fora aconselhado a procurar dar um rumo mais centrado a sua vida. Coisa que ele, agora, buscava no “ashram” do terapeuta oriental.

O mestre chamava-se Sung Lee e falava com dificuldade o português. Viera, ainda moço, para o Brasil, perseguido que era pelas tropas chinesas que haviam invadido o Tibet.
Estabeleceu-se na cidade na arte e no tratamento baseado em massagens orientais e práticas budistas.

Adroaldo sentiu os dedos do terapeuta percorrer seus pontos vitais. Sung Lee ensinava que o corpo era constituído por 12 meridianos principais, correspondendo cada um a determinado órgão ou função corporal. Filosofava que tudo no Universo pulsava entre os opostos yin e yang, energias antagônicas e complementares. E que no Ocidente as pessoas não percebiam que tudo era impermanente e a mente tagarela demais...

Vez por outra, algum ponto doía demasiado. Sung Lee explicava que era um ponto reflexo e que aquele órgão estava com excesso ou deficiência de energia e que iria sedá-lo ou ativá-lo, conforme o caso requeresse.

Hipnotizado por aquela música em compasso de adágio e pela fragrância do sândalo, Adroaldo experimentou um torpor intenso. Sentiu-se como um bebê aconchegado a seu berço, aquecido por mãos carinhosas e ancestrais. Quando percebeu, olhava seu corpo do alto do teto e Sung Lee pacientemente continuando seu trabalho.

Rapidamente, cruzou pela cidade, planando como se tivesse asas. Via os prédios, as luzes tremeluzentes, ouvia o barulho do trânsito. De repente, viu-se num outro tempo com senhores de feições orientais em posição de lótus, meditando. Curiosamente, entendia os mantras que repetiam, embora estes fossem em mandarim e ele nada soubesse desta linguagem. Começou a sentir uma paz sem precedentes e uma vontade de ficar ali para sempre.

No entanto, sentiu a mão suave de Sung Lee bater em suas costas e dizer num português sofrível.

- Amigo, terminamos o trabalho.Senti uma energia muito boa no ambiente.
- Mestre, mas eu estava no templo com amigos budistas.
- Você experimentou uma viagem astral. Não se preocupe, os Mestres estão lhe permitindo conhecer este novo instrumento de sabedoria.
- Mas, fiquei com medo.
- Relaxe. Você está bem amparado.

Sung Lee foi lavar as mãos. Após, um trabalho energético, sempre é recomendável, deixar as mãos sobre a água corrente para levar embora  as energias, porventura, negativas, ele dizia.

Então, Adroaldo vestiu seu terno e gravata. Retirou uma cédula do bolso e pagou o tratamento, conforme o combinado.

Sung Lee, despediu-se com uma mesura, inclinando o tronco para frente e sorrindo. Recolheu o dinheiro e o depositou junto a uma imagem de Buda.

Já na rua, Adroaldo recordou-se de sua experiência espiritual. Como tinha sido lúcido tudo aquilo. Deu mais alguns passos e defrontou-se com um restaurante oriental que nunca havia notado. Decidiu entrar.

Quem sabe entre um sushi e um sashimi, não alcançasse a iluminação?

Chamou o garçom e pediu um saquê. Outra aventura se iniciava...



Ricardo Mainieri
Enviado por Ricardo Mainieri em 04/09/2006
Código do texto: T232548
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Ricardo Mainieri
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 56 anos
1920 textos (29390 leituras)
1 e-livros (105 leituras)
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Ricardo Mainieri