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A LUZ





“Faça-se a luz, e a luz se fez. E viu que era boa”.




Quando o sol dorme, na rotina normal do final do dia, as trevas tomam conta de tudo. Primeiro devagar, tingindo de vários tons o céu no entardecer; depois de um segundo a outro, o preto total. A escuridão é assim: rápida e segura. Difícil para definir, assustadora para sentir. Realmente só tem medo do escuro quem não conhece a luz. Onde está a luz? Estará no dia, no sol ou dentro de cada um? A chama é figura fugidia de brilho passageiro - um sopro e a vela já era. Basta uma neblina para a fogueira morrer, restando apenas brasas, que também perecem sob a chuva ou o vento. Mas a luz e a escuridão se odeiam, ou se amam, eu não sei. Abro os olhos e vejo o resto da luz do dia, fecho os olhos e sinto a luz dentro do meu interior. Abro os olhos novamente e vejo a claridade da cidade ao longe. Eu tenho algo que não entardece nem envelhece: os meus pensamentos, sonhos e esperanças. Diferente do que ocorre com o dia e a noite, onde não há encontro nem relação, só uma leve transformação, como trocar de roupa: saí o dia e se veste de noite. Coisa de encantamento, estória de conto de fadas: uma fração do tempo onde não há nada definido. A incerteza de que o universo continua se movimentando e girando, no palco a cortina vai se abrindo – ou fechando, e entra o outro personagem: vestido longo e véu, máscara e mãos de veludo cobrindo o firmamento, pintando e passando suavemente do claro para o escuro. Isto é a noite.




Hoje a noite está mais escura, sem lua ou estrelas. Vazia de sons e vento, a imensidão é solitária. Existe a serra com as pedras rodeando o riacho, as árvores, a areia, as casinhas... Não as vejo claramente, até a chuva ficou pros lados de lá, nada real para distinguir: formas conhecidas impõem a presença. São como fantasmas indistinguíveis, mas eu não tenho medo deles, apenas o escuro luta comigo; muito mais o que me domina do que o que tingiu a noite. As lembranças vêm descendo pela estrada; corro, empurro a porteira de madeira e passo a tranca. De costas respiro ofegante e tento não pensar, escuto o barulho de algo que se aproxima, não tem chance, é o fim da estrada.






O mês é fevereiro, de uns anos atrás, chegaram os caminhões e os postes, juntou gente para ver a novidade, pararam a lida e correram pro arruado. Tinha moleque pendurado no pára-choque, mulher com criança de colo e s. Gera mobilizando os homens para descarregar os postes. Um trabalho demorado, de medir e marcar o lugar certinho de cada um parecia cem metros entre um e outro. Alinhado na frente das casas, do lado direito vindo da estrada até o último sítio, coisa assim de cinco quilômetros da usina à barra da serra. O motorista disse que não sabia quando iam instalar, estava só para “postear".

Água gelada, ferro elétrico, liquidificador e televisão. A festa estaria completa, cada casa com um bico de luz e com seus respectivos eletrodomésticos, vida moderna mais compatível com o novo século. A escola com aula noturna, o clube funcionando com dança todo sábado, o marasmo do escuro substituído pela alegria da luz. A conversa era uma só: - “A energia está chegando! Até que enfim! Vou chamar Mestre Tonho para fazer minha instalação... O Zé mesmo faz, é só comprar os fio”.

Passaram semanas, meses e nada. Nada de fios nos postes, nenhuma ligação ou satisfação. A euforia deu lugar à resignação, o ferro só esquentando no fogão, da televisão só o carnê das prestações lembrava o sonho de assistir a novela das oito. No São João, as bandeirinhas foram penduradas nos postes e na casa de Lia, o pé de Zezinho cobria o buraco do medidor que não veio.

Marcas do sonho por toda parte, em cada casa, em cada um. Meus avós, meus pais, eu, meus filhos e netos não conhecemos a luz. Nascer e morrer nas trevas e para as trevas; tendo velas, candeeiro e lampiões como únicos companheiros. Vida dura quando a noite chega, insegura e monótona. Pior hoje que não tem lua nem estrelas.

Encostada na porteira sinto o peso dos cadernos na bolsa de plástico, as lágrimas teimam em correr dos olhos, como se a esperança tivesse cedido lugar à realidade. Não tem jeito, o escuro tomou conta de tudo, ou melhor, permaneceu onde sempre esteve: no lugar e em seus moradores. Em mim uma dor apertada, lembrança da voz e das palavras; o riso cínico e as explicações: - Ah, faltou o ofício... Sim, pedindo autorização... Afinal as terras são minhas, disse o usineiro.

E a luz não veio, não se fez, era boa eu sei, mas hoje se apagou em mim.

CrisLima
Enviado por CrisLima em 05/09/2006
Código do texto: T233600
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Sobre a autora
CrisLima
Caruaru - Pernambuco - Brasil, 44 anos
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