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A última noite de um garoto. Parte final

Elisa e Cleiton Antunes apressaram o passo pela pequena estrada aberta no meio da mata a fim de chegar à casa do lenhador antes que a noite caísse de vez. Pois sabiam que quando escurecesse várias espécies ferozes que viviam na floresta saíam para caçar. Elisa era irmã do lenhador e Cleiton era irmão da mulher do lenhador. Quando eles chegaram à casa encontraram a porta aberta e verificaram que eles deveriam ter acabado de sair e logo voltariam pois nada foi levado. Resolveram então entrar e esperar.
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Em seus olhos via-se o terror diante da atitude do pai. Nem mesmo a mãe esperava uma reação tão violenta e arrependeu-se imediatamente do comentário. Temendo que o marido se tornasse mais violento tentou puxa-lo pelo braço dizendo que apesar disso o filho sempre lhe ajudava em outras tarefas. Mas o pai, enlouquecido, agarrou o menino mais uma vez pelo braço e saiu arrastando-o para fora da casa dizendo que como castigo ele iria dormir sozinho na velha cabana da floresta. O garoto, que tinha verdadeiro pavor do escuro da floresta e passar a noite sozinho, chorando, implorou ao pai que não o deixasse lá, que ele nunca mais deixaria de ajudar a mãe. Mas o pai continuava intransigente, imperturbável diante dos lamentos do filho e da mãe que corria atrás deles dizendo que não precisava daquilo tudo, que o garoto tinha medo do barulho dos bichos durante a noite. O filho menor também acompanhava aquela comitiva aos gritos. O pai jogou o menino dentro da cabana, trancou a porta e não deu ouvidos aos gritos de Henrique que esmurrava a porta fechada e aos berros dizia: “Papai não me deixe aqui, por favor, não me deixe”. O lenhador segurou a mulher e o filho menor pelo braço puxando-os de volta à casa que ficava na clareira fora da floresta. A mãe ainda insistia para não deixarem o filho lá e ouviu apenas a ordem do marido: “Mulher, cale a boca. O castigo está dado!” E foram para a casa. Lá encontraram Elisa e o marido Cleiton Antunes, que já estavam na casa à espera deles. Perguntaram por Henrique e ouviram o pai responder: “Ele está de castigo. Irá passar a noite na cabana da floresta”. O jovem casal se entreolhou e não disseram nada, mas silenciosamente criticavam a atitude do pai, julgando muito perigo deixar uma criança sozinha à noite na floresta escura. A mãe, em um estado de prostração, arrumava uma cama de armar para o casal visitante em um canto do aposento.
Mesmo ainda depois que todos foram dormir, ela permaneceu enrolada em seu velho chalé sentada na cadeira de balanço esperando acordada a noite passar.
Assim que o dia amanheceu, ela correu para a cabana seguida do pai.
Abriu a porta e encontrou o filho caído no chão, com uma pequena moeda na mão sujas de barro do fundo da cabana. Durante a noite, o menino em total estado de torpor e medo, tentou escavar o fundo da cabana com a moeda que tinha no bolso dada de presente pelo pai. Mas o coração frágil não agüentou tamanho medo quando ouviu o rugido de um animal bem rente à porta e parou para sempre. A mãe, vendo a filho morto no chão, soltou um grito tão feroz quanto os animais da floresta e perdeu os sentidos. O pai, verificando que o filho estava mesmo morto, virou-se e se dirigiu à cabana. O casal visitante, que vinha pela trilha até a cabana com a criança mais nova, encontrou-se com o lenhador que parecia não o tê-los visto. Seu olhar estava perdido e sem vida. O casal perguntou o que havia acontecido, mas não obtiveram resposta. O lenhador continuou seguindo até a casa. Elisa e Cleiton continuaram caminhando até a cabana para verificar o que tinha ocorrido. Chegando lá, encontraram a mãe já acordada embalando o filho morto no colo e em total estado de demência. Ouviu-se um tiro. O pai havia se suicidado. O jovem casal, diante dos acontecimentos, se vira compelido a tomar todas as providências para os dois enterros e internação da mãe. A criança menor foi por eles adotada e levada para o pequeno lugarejo.
Sam
Enviado por Sam em 10/09/2006
Reeditado em 08/12/2012
Código do texto: T237020
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Sam
Angra dos Reis - Rio de Janeiro - Brasil
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