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Faça-se a felicidade


       Não acho fácil nem bonito ser ateu. E nem um pouco confortável descrer na vida depois da morte. E para quem busca, como eu, a ideologia do prazer, isto pode parecer até mesmo controverso; notando-se que nada poderia me ser mais prazeroso que uma vida eterna, com gozo eterno, no reino de Jesus. Contudo, todos sabem o quanto é bom o gozo terreno – os ricos sabem muito bem, e por isso não se preocupam tanto com religião, dado o enorme prazer que extraem desta vida; um prazer que pode ser medido quando posto lado a lado, comparativamente, com o escasso prazer dos pobres. Este ato de comparar é tudo o que todos os seres humanos querem fazer. E parece que os ricos se satisfazem; alimentam-se com a vantagem obtida da comparação com os pobres.
      Receio que a fé esteja mesmo distante de mim. Temo que os meus sofram com isso. Todos gostariam que eu fosse cristão. Estranhamente, eu me sinto como tal. Critico o Cristo bíblico, mas não deixo de admirá-lo profundamente – ainda que não seja ele um deus pra mim. Sua mensagem de amor e tolerância (mesmo que às vezes uma tolerância um pouco duvidosa) me parece sensata, ou, pelo menos, a mais sensata que conheço. Isso faz de mim alguém que tem um desejo de imitar a Cristo. Sei que não se pode imitá-lo bem – assim como não se pode conhecê-lo e compreendê-lo de forma integral – , mas se eu puder ter uma fração do verdadeiro amor universal em mim, estarei perto da felicidade – que é o que, no fundo, eu quero; como toda criatura quer: como o ladrão quer, como o assassino e o latrocida querem, como as prostitutas querem, como os mentirosos querem, como os crentes, como os cientistas, as crianças, e, inconscientemente, os animais.
      "Meu referencial é a busca da verdade"(!?...): não sei mais de nada. Acho que ser feliz vem na frente. A verdade perde para a felicidade no fim das contas.  Daí a preferência mundial pela segunda. Felicidade é maior que tudo. Creio que por isso nos contentamos em viver com pequenas faíscas dela, que, miúdas,  caem muito esparsas em meio a nossos dias.
      Mas os caminhos são vastos para se buscar felicidade. Muitos a buscam até na dor. Gritar, gozar em orgasmo, saltar, sonhar, perguntar (perguntar não pode ser apenas angustiante, mas satisfatório também): há caminhos diversos.
      Acabo de pensar em um trinômio que me serviria:
“Pergunta-espera-contemplação”. Acho que vou experimentar fazer disso a minha guia, por hora. Acho que posso criar aforismos psicológicos; não pretendo ser dono da verdade – nem mesmo sou dono de mim, pois a sociedade não permite –, mas acho que eu posso inventar a minha forma de buscar verdade e felicidade. E por esta última não pretendo esperar por toda a vida até a morte: quero-a agora mesmo. Se eu quiser perguntar por ela, pergunto. Se preciso for, eu a forjo, eu a faço existir.

       Ele havia acabado de assaltar um banco – na época em que assaltos a banco estavam na moda – e alguém lhe disse: "grande assalto", em elogio... "está roubando de quem tem".
      Voltando do campo de batalha, onde tinha aniquilado dezenas, talvez centenas de vidas, ele foi condecorado por sua bravura...
      Ela fez na vida tudo o que chamamos de errado. Ultimamente, recusou um emprego decente e resolveu continuar com a prostituição, deixando os cuidados de seus dois filhos a cargo da avó. Mas ela tem seus motivos; está imersa numa vida de vícios e não é difícil sentir pena dela...
      Ele está entregue ao álcool. É fraco, como todo ser humano, mas tem o direito e as condições de se recuperar...
      Ela traiu seu marido. Mas a carne é fraca, e todos merecem perdão; desde que isso não se repita...  "atire a primeira pedra quem nunca pecou"...
      Ela abortou...
      Ele poluiu as ruas com fumaça preta de óleo diesel...
      Ele poluiu as ruas com suas galinhas mortas, velas e farofa...
      Ele, o pastor de uma igreja evangélica, fez com que alguns fiéis sofressem humilhações por não terem o dinheiro que ele esperava que tivessem como oferta...
      Ele, o muçulmano pirracento...
      Ele, o hindu beatlemaníaco  em meio às vacas podres...
      Ele, o budista em seu falso, confortável e impossível nirvana...
      Todos eles compreendidos. Todos eles respeitados como gente que quer ser feliz à sua forma. Gente que peca como todos. E todos tem o direito de pecar e arrepender-se. E sempre haverá defesa para os que pecam – mesmo para os que pecam deliberadamente.
       Mas o ateu foi vaiado num coletivo. O ônibus estava lotado e ele, disse em alto e bom som que não acreditava em Deus, nem em anjos, nem na virgem Maria, nem nos santos, nem na trindade divina, nem na Bíblia Sagrada.
         Em que circunstâncias ele disse tudo isso? O jornal que ele estava lendo trazia dois artigos que o indignaram. Nada que merecesse a primeira página: apenas notícias sobre o conflito judeu-palestino e sobre a miséria no continente africano. Foi então que ele disse: - Cadê o Deus de que tanto falam, nesta hora? Está de costas? Não creio que o seu bom Deus virasse as costas. Ele simplesmente não existe.
       As vaias fizeram pulsar seu sangue com violência. Para depois sentir grande fraqueza e desânimo, como se seu sangue escorresse pela escada do veículo.
       O ônibus transformara-se numa espécie de Coliseu onde, diante de seu martírio, as imagens se psicodelizavam aos seus olhos, caleidoscopizavam-se, em câmera lenta e som distante. Fadas-anjo de mini-saias de couro preto; trabalhadores gigantes suados com seus sovacos fedidos e sorrisos sarcásticos e impacientes; senhoras idosas com sombrinhas em riste como se fossem espadas; deficientes a segurar suas muletas como metralhadoras fossem; e para definitivo aturdimento, os evangélicos e suas granadas pretas e quadradas: estava completamente abatido o pobre ateu – que nem carteirinha de ateu possuía. Ele era apenas uma pessoa sincera e pura. Um materialista que amava a matéria que a natureza em mistério lhe dera.
        Seu sangue descia pelas grades do esgoto ao meio-fio. E sua alma estava ali, no esgoto. Os crentes lhe disseram que quem não tem Deus é um morto-vivo. Ele pensou: "sou fraco, sim. Estou fraco, mas não quero ser um fantoche ou uma marionete neste teatro sujo, de ignorâncias e maldades".
       No caso deste homem, ser feliz importa menos que ser limpo e inteiro.  Mas em silêncio ele sabe que Jesus e Buda não foram infelizes.
 

Luciano Fortunato
Enviado por Luciano Fortunato em 12/09/2006
Código do texto: T238385
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Sobre o autor
Luciano Fortunato
Mendes - Rio de Janeiro - Brasil, 46 anos
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