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Segundo casamento

Terezinha Pereira



- Sabe que a Marieta está se casando de novo?
- Deveras? Não acredito. Depois de mais de vinte e três anos de separada.
- A Marieta, sempre tão certinha, tão religiosa... Vai se casar de novo?
- Mulher separada.
- E ainda não descobrimos quem é o noivo.
- Vida arrumada. Filhos criados. Não precisa mais de marido nem de homem nenhum.
- É o que digo. Pra quê arrumar mais confusão?
            - Ontem falei com a Rosinha da dona Cândida. Disse que a Marieta quer fazer surpresa em todo mundo. Faz três meses que está reformando a  casa. Comprou enxoval completo. Tudo, um brinco! Tem gente que até viu cama de casal ser entregue na casa dela.
- Não seria para algum filho... Quem sabe é  algum filho ou mesmo a  filha que está se casando...
Em qualquer parte da cidade o comentário era o mesmo. Comadres e não comadres falavam  a respeito do segundo casamento da Marieta.
- Dizem que ela já pediu demissão nas associações religiosas que comanda na cidade. Houve até festa de despedida. Mais de uma festa.
- Não é que ela está se vestindo melhor? Cabelo tingidos, bem arrumados. Taí! Foi por causa disso que desconfiaram que algo de novo estava acontecendo com a Marieta. Ela nunca havia pintado os cabelos...
A mulher havia se renovado de verdade. Ah, e além da mudança no visual, seus olhos deixavam escapar um certo brilho, daquele característico de paixão nova. E, sabem como é. Tanto falaram, tanto fuxicaram, que acabaram descobrindo data e horário do esperado casamento. Ficaram por saber quem seria  o noivo.
Na data marcada para o acontecimento, cidade e meia estava à porta do cartório que ficava num prédio ao lado da igreja matriz. Algumas pessoas se disfarçavam com uma sacola de feira na mão. Outras levavam livros de reza, terços. Até pessoas de óculos escuros, daqueles que a gente vê em velórios nas novelas de TV, estavam por perto. Cada um se camuflava como podia.
- Falei com a filha da Marieta. Ela não abriu a boca.
- Nem a Neuza que trabalha no cartório. Bisbilhoteira  como ela só. Deve ter ganhado algum pra fechar o bico dessa maneira.
O pessoal ficou mais aflito ainda quando viu  Marieta e filhos, com roupas de festa,  entrando  no cartório. Ela, usava um cinza prata, estava bem maquiada, cabelos bem penteados. Ah, e  caminhava como se estivesse sobre nuvens. Uma diva. Mas, e  o dito cujo?
- Não vi mais ninguém entrar. Como pode?
- O noivo deve ser gente de fora.
- Não vi entrar nenhuma pessoa estranha. Entraram a filha e os dois filhos dela. Também as duas irmãs.
- Coisa mais esquisita. E o noivo?
Com o passar do tempo, os não convidados que se postaram na região do cartório estavam com a curiosidade cada vez mais atiçada. A todo instante alguém consultava o relógio.
- Faz meia hora que entraram. Não saiu ninguém de lá até agora. Disso estou certa.
- Deve estar terminando. Será que casamento de desquitada demora mais do que os outros?
Paixão nova! Precisavam ver o  espanto das pessoas que esperavam nas proximidades do cartório. Marieta saiu de lá toda sorridente, bem equilibrada nos sapatos de salto alto que há anos não usava. De braços dados com o Geraldo. O próprio. O mesmo Geraldo que  havia sido o seu primeiro marido.
Terezinha Pereira
Enviado por Terezinha Pereira em 13/06/2005
Código do texto: T24376
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Sobre a autora
Terezinha Pereira
Pará de Minas - Minas Gerais - Brasil, 68 anos
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