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BloomUlisses!!!

(texto revisado)

"Sereias ou não sereias, eis o dilema do mar"
ditado popular da Ilha Acála.


Dia de agosto, calmo, navegafável. Final de tarde. Por mar, já mareados, voltastomacos de Sagres, chegámos a Tróia. Uma guerra interior versus exterior.
Verso mal, disse ele.
Não vales um eurotostão, disse ela.
Odisseus! - quantos eus meus exclamaram ao mesmo tempo? Não sei.
Vinha briga no arzul, e Caetrobriga não era distalonge.
Se tivéssemos ido de carro, não nauseávamos a viagem. Andamos às voltas. Que sado! disse ela.
Não há canto bronzeado na terra, disse ele.
E as searas o que são, perguntei.
Sereias pedestres.
Bastavam essas. As outras são taliscas.
Bloomulisses!
Levantamos ferros pela manhã, disse ele.
As gaivotas já tempestavam e o vento já não cantava. Ruivava de raiva nas vias da pele láctea. O sol lentejoulava as vagas vagarosas. As rosas dos ventos, pelos ventos desfolhadas. Ventos lentos e lentes. Ventos valentes. Nós, lentos. Sem ventos.
Fsttttt fsttttt.
Isto é uma Cilada! exclamou ela
Não! É o ouro que encarnece, que se funde no fundo do mar. Um verdadeiro combate. Um con e um bate. O que bate ao con bate e é forte, e o que vence antes de con bater é poderoso. A verdadeira sapiciência está em vencer sem que con bata! No fundo no fundo tudo é Confucio, não?
Chega de fiar conversa. Falta-nos o El pendor! lacrimenosmijou ele.
Quem te viu e quem tv! resmunga dela.
Vamos lá saindo por esses mares fora, que a manhã vem vindo nos braços d'Aurora, cantei.
Veleiem! gritou ele.
Tenho que ir ao pipiroom, disse aflita.
Agora, não. Dá Cortázar. Quando o convidado vai ao pipiroom os outros falam do Biafra e de Michel Foucault.
Isso são pudores de rãs, respondi.
Mas havia algo no ar, como se o mundo tentasse esquecer-se que tinha ouvidos e ao mesmo tempo as orelhas fossem santuários.
Diabos! Ouviram? Agora, sim. É uma Cila...
Cala-te, ordenou ele, enquanto aprumava os ouvidos.
Já estou saturnada disto! choramingou ela enquanto gingava com os anéis dos remos.
Ao longe a Aurora dos Cachos de Oiro. Os ferros cantavam. Prelustrou a vista.
Por Setenaves! Ao mastro, ao mastro.
Enleou-se, enlevou-se, enrolou-se.
Quem me desatar, é um homem morto.
Somos duas mulheres, cantamos num coro de sereias.
Vocês?! Não.
Sim. Não: somos rotas de marear. Se és do mar não nos enjoarás.
Ouvia um estridente assobio. Cantos. Trinados sedutores de roladeusas. E sem medo do castigo, fez ouvidos de mercador.
Foi-se. Foices das ondas. Castigo pra lá, castigo pra cá. Batem ferros. Batem remos. Rompem-se os grilhões do mar.
Calem esses remos. Sussurram marfins passados, disse ele
Levantam-se os remos. Gotejavam destinos.
Daqui até à boca do inferno, disse ele.
Parece que és feito de ferro, disse ela.
E os rochedos, perguntei eu.
Outros a foram beijar. Uns passarão. E eu passarinho.
Já ouvi isso, disse ela.
Lutoceano. Negro céu. Bronzes calados.
Borrasca, exclamei.
Fiuuuu fiuuuuu
Parem de soprar, disse ele.
Não somos nós, gorjeamos.
Nem uma ideia me sai do casco, ringiu ele. Desmastreámos! Vamos lá, ó rapsódias!
Castigo pra cá, castigo pra lá. Fogem os remos. Ferram as velas.
Palmamos. Palmarés. Navegamos a terra seca. Condensamos a ameaça.
Recomeçamos, perguntou ele.
Mais pourquoi répéter ce récit, perguntei.
Porque águas passadas movem histórias, disse ela
Santos e salvos. Amén!
Emeneope, m n o p. Moins notre odysée pathétique, disse eu.
Cristina Pires
Enviado por Cristina Pires em 14/06/2005
Reeditado em 02/11/2007
Código do texto: T24516

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Sobre a autora
Cristina Pires
França, 51 anos
87 textos (6701 leituras)
1 áudios (37 audições)
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Cristina Pires