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Por Causa da Química

Os olhos escuros e pequenos de sono, lacrimejaram quando Roberto terminou de virar aquele copo cheio de pinga, incentivado pelo melhor amigo Armando. Cresceram e estudaram juntos na grande e perigosa Curitba. Armando sempre foi mais arrogante, desde quando aprendeu que o dinheiro de seu pai poderia romper as barreiras que sua inteligência era incapaz. Roberto não era muito diferente, foi depois de um acidente com fogo e álcool aos 14 anos, na rua do condomínio Amazonas, que passou a pensar um pouco na vida. A partir desse momento, os dois tomaram rumos diferentes. Roberto demorou para superar o trauma, passou por sessões com  psicóloga, e passou a ser uma pessoa extremamente tímida. A cicatriz feita pelo fogo, ia da orelha esquerda até seu pomo-de-adão. Resolveu se esconder e deu graças a Deus quando soube que mudaria de cidade. Seu pai, Virgílio, recebeu uma proposta para trabalhar no novo cinema de uma cidade no oeste de Santa Catarina. Aos 17 anos, Roberto separava-se de Curitiba, de seus amigos, de Armando e de Laura, um enterno amor da escola. Resolveu recomeçar.

Armando não estava junto com Roberto no dia do acidente. Recebeu a notícia com muito desgosto, uma grande tristeza, porém nenhuma lágrima. Era orgulhoso, daqueles que dizem por aí que homens não choram e se choram é por causa da queda do seu time para a segunda divisão do campeonato estadual, e olha lá. Durante todo o período adolescente fez muito sucesso com as gurias da escola, costumava contar vantagem. Quando soube da mudança de Roberto para outro estado ficou extremamente triste, dizem por aí que derramou uma lágrima enquanto tentava lembrar de uma piada para rebater a tristeza da notícia que lhe chegava aos ouvidos.

Era uma amizade muito forte. Não passava um feriado prolongado onde um não visitava o outro,e nessa de ir e vir, 7 anos se passaram. Roberto já era um profissional formado em engenharia química quando decidiu voltar para Curitiba. A princípio morou em um pequeno apartamento, coisa simples, onde só cabia sua cama, uma mesa, seu quadro do Bee Gees e a pia. Após 14 meses de muito trabalho como professor na escola Abílio Diniz como professor de química, Roberto se deu ao luxo de mudar. Coincidência ou ironia, mudou-se para o condomínio Amazonas, parece que queria provar para ele mesmo que já havia superado tudo daquela época. Pode soar engraçado, mas depois de mudar para mais perto, Roberto acabou mais longe de Armando. Eles quase não se viam, mas quando se encontravam, eram abraços e gritos de felicidade. Os encontros, geralmente ocorriam no “Não há de quê”, barzinho tradicional no centro de Curitiba, e eram marcados por conversas eternas sobre o tempo de colégio, conversavam sobre Laura e sobre seus atuais casamentos. Eram marcados também por um consumo absurdo de álcool por parte de Armando. Os olhos escuros e pequenos de sono, lacrimejaram quando Roberto terminou de virar aquele copo cheio de pinga, incentivado pelo melhor amigo Armando. Logo após o cantarolar “vira, vira, vira” de Armando, chega à mesa um homem estranho, parecia pedir alguma coisa, alguma informação. O homem andava de chinelos de dedo, calça jeans dobrada na barra, uma camisa aberta que mostrava uma pequena cicatriz no peito e seus cabelos eram encaracolados grandes e estavam amarrados. Armando, com seu ar superior de sempre, quis “tocar” o homem de lá imediatamente, imaginando que este fosse um mendigo qualquer. Mal sabia Armando que o tal homem estava armado e por algum motivo desconhecido resolveu atirar em Roberto. Parecia que tudo mudava, Armando começou a chorar e implorar para que o misterioso homem não atirasse. Roberto de repente viu que voltou para Curitiba para encontrar um amigo alcoólatra e ser assassinado por um desconhecido se nem saber o porquê. Pouco, muito pouco antes de ser assassinado, Roberto lembrou que o tal homem era o Senhor Antunes, pai da Camila, aluna dele na turma de química naquele semestre e que havia reprovado apesar das propostas e ameaças do Senhor Antunes. O atirador não poupou balas, foram 8 tiros enquanto Armando chorava desesperado como uma criança em um supermercado com a madrasta malvada. Roberto não esboçou reação alguma.

Por fim, Senhor Antunes sumiu no meio da multidão que também corria. Foi pego 2 semanas depois, após denuncia da própria filha. Armando foi internado, não parava de repetir o nome do amigo e de vez em quando catava: “vira, vira, vira”. Roberto teve um velório digno de pessoa querida, sua história foi passada em slides para os presentes, que se emocionavam a cada foto mostrada. Laura estava presente.


                                                                Carlim (19/09/06)
Carlim
Enviado por Carlim em 21/09/2006
Código do texto: T245771
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Sobre o autor
Carlim
Umuarama - Paraná - Brasil, 30 anos
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