Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

A última vez que eu falei com ela...

A última vez que eu falei com ela estávamos no mesmo boteco, na mesma mesa, a mesma cerveja, o mesmo cigarro e o mesmo tira-gosto. O copo vazio de cachaça era o mesmo também, vazio, que eu pedia no balcão antes da cerveja chegar. Se fosse um boteco com o mínimo de consideração ao cliente e bom caráter eles tiravam o copo de cachaça de cima da mesa. Mas não, deixavam ali. Primeiro, se eu quisesse um boteco com "consideração e carater", que eu procurasse um restaurante ou um bar onde se cobravam dois e cinquenta por uma skol e mais dez por cento do maldito garçom (ô chefia, ele não tem um salário não?). Mas a gente tava ali na última vez que eu falei com ela. O papo também era o de sempre. Ela se impressionou com um poema que eu escrevi sobre voar, solidão, olhar, enfim, coisas sem nexo algum, como tudo que eu escrevo. Ela pediu pra usar o meu copo de cachaça vazio, eu emprestei. Ela pediu uma dose "caprixada". [Põe duas!], eu gritei. [Três!] Ela gritou meio que de brincadeira. Se for pra brincar, vamos brincar direito, [Traz uma garraga e fecha a conta!]. Paguei. Vamos para a praça como adolescentes, e talvez encontrar estes lá e contar algumas histórias. Algumas mentiras. A gente foi. E tinha um prédio em construção ali perto, a lua tava maravilhosa (ela sempre é, mas nesse dia ela tava sem vergonha e se mostrou toda pra gente). Fomos para a cobertura, abrimos a cachaça e começamos a falar de poesia, voar, solidão, olhar. Eu já me sentia embriagado demais para ficar sentado ali, deitei. Deitei e comecei a conversar com ela de olhos fechados. Poesia, voar, solidão, olhar. Me distraí. Aaaaahhhhhhhhh. Só pude ouvir o grito. Poesia, voar, solidão, olhar. Ela quis voar dali de cima. Meu olhar me traiu. A solidão me achou entre um gole e outro. Não consigo escrever mais poesia pensando nela. Só penso nela e em poesia, voar solidão, olhar.

"Na Poesia que eu vivia
Não hesitava em voar
O voo da solidão de encontro a mim
Não abro meus olhos, não quero olhar."

--------------------
texto retirado do meu blog
http://tirania.zip.net
Júnior Leal
Enviado por Júnior Leal em 15/06/2005
Código do texto: T24748

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Júnior Leal
Lagoa Santa - Minas Gerais - Brasil, 31 anos
958 textos (30824 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 12:48)
Júnior Leal