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NOSTALGIAS




Quando o estress causado pelo dia-a-dia na cidade começa a me incomodar, busco sombra e água fresca em algum sítio próximo.
Hoje, compromissado somente com o ócio, aqui estou, deliberadamente fechado em um quarto bastante esfumaçado. Sinto-me feliz por não estar só; ela está comigo.
O suor profuso, com tendência ao desconfortável, faz-me ligar o ventilador.

Nu, deitado de costas, olhos cerrados, extremamente relaxado, sentindo as benesses das endorfinas naturalmente produzidas pelo meu organismo, procuro curtir cada fração de segundo provocado pela magia dessa companhia. Sinto-me totalmente envolvido por ela, calmamente, começo a realizar minhas contumazes incursões mentais por lugares dantes visitados.

De repente estava no famoso “barrio” de Buenos Aires, “La Boca”. Num pequeno palco, um elegante casal de portenhos, com glamourosos, harmônicos e precisos passos, executavam o Tango-dança, de corpo e alma. Num átimo, sonoras harpas e violões executando dolentes guarânias, e lá estava eu, no interior de um cassino de Assunción. Senti até o gosto do legítimo Chivas que bebia naquela noite, acompanhado de Reina, uma paraguaia de tez jambete, cabelos de azeviche, descidos à altura da cintura, seios delicadamente medianos, um corpo digno de fotografias de modelos nuas que infestam paredes de oficinas mecânicas.

Repentinamente, senti as forças e velhas compulsões retomarem meu ser. Nu, defronte ao espelho, gritei com todas as forças do meu pulmão: “Pandora, vivi os males, porém agora, visualizo a esperança, no fundo de tua caixa!”

Alegrei-me ao pensar na possibilidade de rever Reina. Gargalhei como um garoto vencedor. Ao apanhar minhas roupas, para ganhar estrada, a sanidade retomou seu papel. Minha relação com a paraguaia distava trinta anos. Olhei no espelho meu cabelo branco — registro fiel da marca implacável do tempo. Cabisbaixo, mas conformado, apaguei suavemente o cigarro no cinzeiro da penteadeira e retornei ao leito.

Encontro-me novamente deitado, ela, demonstrando todo seu mágico poder de persuasão e criatividade, sugere-me novas excursões.

Meu pensamento viajando mais rápido que a velocidade da luz, dá-me uma serena sensação de bem-estar pela brilhante decisão de ter vindo para esse sítio, em busca de paz interior. Aqui, só eu e ela. Esse belíssimo recanto é um local paradisíaco. Há duas casas, em uma delas, moram os caseiros, e numa pequena elevação do terreno, a casa avarandada um pouco maior, local onde me encontro hospedado. Daqui, avista-se um belo bosque e, logo abaixo, um belíssimo lago rodeado de flores silvestres e algumas palmeiras.

Ontem à noite, respirando o refinado cheiro da mata, somente eu e ela, estivemos na aconchegante varanda. Eu simplesmente a ouvia. Por um momento, olhando a lua cheia espelhada n’água, rodeada de milhares de estrelas, recordei-me de minha juventude. Uma pequena cidade sem luz elétrica. À noite quando saía para namorar, a lua não era tão somente a fonte inspiradora para a conversação, era o farol natural de minhas andanças noturnas e volta segura ao lar. Foi a fase mais fantástica da minha vida. Ali sentado, não contive as lágrimas, quando lembrei-me de minha última viagem a esta cidade.

Onde estavam meus amigos da juventude? E aquele barzinho, nosso ponto de encontro, onde sob devaneios etílicos, vangloriávamos sobre “fictícias” relações íntimas com as garotas esnobes da pequena cidade? E as rápidas soluções para qualquer tipo de problema, local ou nacional, que sempre tínhamos? Onde foi parar a casa que eu morava? E o sarau dominical no único clube da cidade? E a sardenta garotinha de tranças...?

A dinâmica do tempo vai exterminando velozmente o presente. O tempo pulveriza inexoravelmente até as nossas referencias materiais mais valiosas. Dessas devastações, só nos resta a saudade. Talvez por isso aprecie essa minha companhia de hoje. Com ela, viajo no tempo e no espaço. Ela me conduz a verdadeiros palácios ou a ilusórios prostíbulos; aos rápidos momentos de amor ou aos infindáveis momentos de dor vividos, a lembrança de boas e más companhias que tive, amores, paixões, frustrações...

“É extremamente reconfortante, ter sempre tua especial companhia, minha música inseparável!”
Naquele quarto, a ascendência dos filetes de fumaça do cigarro pareciam acompanhar, delicadamente, os acordes da música etérea de um Noturno de Chopin.





Domingo, 23 de Maio de 2004/1:11:11
Luiz Celso de Matos
Enviado por Luiz Celso de Matos em 23/09/2006
Código do texto: T247528
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Sobre o autor
Luiz Celso de Matos
Curitiba - Paraná - Brasil, 75 anos
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Luiz Celso de Matos