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O VELHO E O LEÃO

   Eu queria mesmo caminhar devagar, embora se quisesse caminhar mais rapidamente, não poderia fazê-lo...Estava velho, irremediavelmente velho. Desci a alameda ofegante, com as chaves na mão...Esta seria a última vez que eu abriria as grades. Somente ele restara ali, ele e eu...Dois velhos e inúteis...Criaturas sem função neste mundo cada vez mais desprovido de necessidade humana.

  Ele estava lá, o mesmo olhar triste e embaçado de quando chegara aqui, os mesmos dentes cerrados, as mesmas marcas de queimaduras, as mesmas patas quebradas...Miserável, tão miserável quanto era quando foi retirado do circo, uma das atrações principais.  Parei, já com o coração disparado de tanto esforço em frente à sua grade. Ele percebeu minha presença, virou lentamente a cabeça, tão cheia de marcas e me encarou, como quem encara um nada, como quem observa sua própria miséria.

  Abri lentamente o cadeado...Talvez imaginando que ele pudesse estar fingindo, durante todos estes anos, aguardando apenas a chance de devorar-me lentamente, esperando uma pequena distração para saltar, rápido e jovem, retirando uma máscara tão bem produzida por anos de simulação e mentiras circenses, observando a minha agonia ao perceber ser devorado em vida... O câncer já o fizera tão bem, pobre coitado se imaginasse algo assim. Comecei a tossir, o sangue espirrava por minha garganta, quase caí.. Não me importava com a dor, mas o cansaço... Como eu gostaria de não sentir tanto cansaço!!!

   Sentei-me ao seu lado...Sentar-me ao lado de um velho leão... Bem, impensável talvez fosse fazê-lo ao lado de um jovem leão, mas estava eu lá, pequeno frágil, morto. O leão voltou a posição em que estava anteriormente. Eu não o interessava, assim como certamente já não interessava a mais ninguém. Senti um desejo de rir, fumar um cigarro e rir, morrerei aqui, ao lado de um leão, incapaz de sair, de fugir da própria jaula. Difícil definir quem seria o mais miserável... Lembrei-me de meus anos como biólogo, das minhas filhas que tão entusiasticamenete seguiram a carreira do pai, biólogas bem sucedidas, com reconhecimento internacional... Lembrei-me do início do projeto, de quantos animais conseguíramos salvar dos maus tratos, das agonias, das dores... Agora eu próprio era o animal ferido, perdido, morto, irremediavelmente solitário...

   Com muito esforço consegui levantar-me e comecei a caminhar, vagarosamente, enquanto o leão ficava ali, com a porta aberta, com o caminho livre para uma nova conquista... Tentei exercitar a memória, lembrar de fatos relacionados àquele leão em específico, mas a memória é sempre seletiva, nos prega peças, nos amaldiçoa...
   Lembrei-me dos tempos de infância, da vida na roça, de quando acordava cedo para buscar lenha, de quando plantava inhame com meu pai. Quis lembrar-me com mais detalhes, mas a memória teimava em ser mais imponente do que eu mesmo fôra algum dia. Já não me lembro mais, já não importa mais lembrar-me de nada. A vida é um eterno esquecer-se, esconder-se, desintegrar-se. Todo instante grita por um final, e eu estava ali, com o leão... Lembrei-me vagamente de minha mãe, de sua pele áspera, de tom escuro, de suas manias com meu pai, da falta de carinho e excesso de caráter. Lembrei-me de ser mais do que era, lembrei-me de superar as dores, as misérias, as angústias, lembrei-me de criar meus filhos. Esqueci de quem eu era, de quem poderia ter sido, de quem fui. Agora já não importa querer, a vida não mais me espera, apenas me ausenta, me empurra para o fim. Meu coração estava explodindo, querendo parar. Comecei a sentir muita falta de ar, tive de sentar-me. O leão resolveu sair, caminhava tropegamente para o outro lado, olhar perdido. Ir para onde? Talvez fosse esta a pergunta que ecoava em sua mente. Ir para onde se todos os caminhos já haviam sido percorridos, se toda a angústia já havia sido sentida, se todo momento apenas começava a gritar por mais, mais e mais? O ar estava quente, abafado, quase rarefeito... Queria fugir também, queria que alguém abrisse a porteira e me indicasse a saída..Tarde demais. O leão parou, sentou-se e ficou ali, olhando misteriosamente para o infinito. Eu fiquei ali também, olhando para o vazio, para o nada. A dor em meu peito foi aumentando, meu braço formigava. Então a dor tornou-se única, um corpo todo, e o silêncio apoderou-se definitivamente de minha alma.
Marcos Rohfe
Enviado por Marcos Rohfe em 26/09/2006
Reeditado em 16/07/2015
Código do texto: T249770
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Marcos Rohfe
Mogi das Cruzes - São Paulo - Brasil, 46 anos
107 textos (10411 leituras)
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Marcos Rohfe