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MAIS UMA VEZ

O gosto ácido do limão é prazeroso, a queimação do gás na garganta mais ainda. Fazem três horas que estou sentado na mesa desse bar, esperando. Fumei quase meio maço de cigarros e ainda continuo aqui, sem por uma gota sequer de álcool na boca. Estou em dúvida entre o whisk e a vodka, que bebida seria melhor companhia à minha espera?
 
Queria estar sóbrio quando chegasse a hora. Queria ter certeza que não fui afetado e que era isso mesmo que queria. É incrível como o tempo é variável, horas que pareciam minutos a algum tempo, hoje parecem dias, poderia jurar que já estou aqui há uma semana.

Sempre achei deprimente sentar sozinho em mesa de bar, nunca me pareceu uma opção. Quem desejaria enfim, estar só em um lugar desses, onde as noites são decididas? Dependendo do que as bocas falassem ou bebessem alguém iria dormir sozinho, ou então, teria uma boa noite de sexo. Daquelas mesas, vidas seriam traçadas, crianças ganhariam pais, maridos perderiam mulheres. Como poderia alguém dar-se ao luxo de sentar-se sozinho em um desses altares de consagração?

Meu whisk com gelo chegou, gosto do cheiro de madeira que sobe para meu nariz depois que bebo um gole, é como se estraçalhassem os miolos de uma grande árvore dentro de mim. Espero até que o calor chegue ao meu estômago, só aí respiro saciado. Dou mais uma tragada no meu cigarro e minha suposta ansiedade parece estar sob controle.

Você chegou assim, do jeito que sempre chega: parecendo um lindo e maldito fantasma. Juro que não faço idéia de onde surgiu. Quando dei por mim, já estava sentada em minha frente, pegou um dos meus cigarros, acendeu, deu um trago e me encarou.

Aqueles olhos pareciam me ver mais do que eu mesmo conseguia, era como se soubessem de algo que eu ainda não sei. Não, eram olhos inquisitórios, davam ordens, pareciam me subjugar de forma irremediável à sua vontade. Sabia que iria acontecer novamente, mais uma vez eu não abriria a boca, mais uma vez esqueceria tudo o que eu deveria ter dito e mais uma vez acabaria fazendo o que você queria.

Sem pronunciar uma só palavra, você se levantou da mesa, beijou-me os lábios e foi ao banheiro. Era sempre do mesmo jeito, era sempre como você desejava. Eu sabia que não era assim que deveria ser, mas minha vontade era maior que a minha certeza e mais uma vez o meu desejo iria imperar e você sabia disso, por isso aquele sorriso irônico na sua cara. Contrariando tudo que eu acreditava, desfazendo todas a minhas convicções a respeito do certo e do errado, eu levantei e te segui.

Quando cheguei ao banheiro, lá você me esperava, tranquei a porta atrás de mim e como das outras vezes te currei como minha puta, ali mesmo naquele banheiro fedido e imundo de um bar qualquer. Ainda lembro da expressão de satisfação do teu rosto refletido no espelho enquanto eu puxava teus cabelos como se fossem rédeas. Eu sabia que era do macho que você gostava e não do homem. Sabia que era o meu silencio que te atraia. Sabia que era o meu jeito rude que te excitava. Vinte minutos depois, você desaparecera, e eu pagava a conta naquela espelunca. Sabia que nunca mais voltaria ali, mas a maior certeza que tinha: jamais beberia sozinho em uma mesa de bar.
Hugo Eduardo
Enviado por Hugo Eduardo em 27/09/2006
Reeditado em 07/03/2007
Código do texto: T250456
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Sobre o autor
Hugo Eduardo
Fortaleza - Ceará - Brasil, 34 anos
28 textos (1448 leituras)
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