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O show do ano

Como bom fluminense, no sangue e na paixão, carioca de quatro costados e filho de boêmio, ainda menino, ganhou seu primeiro violão.
     - Ricardo, vê se mantém a tradição hein, moleque – proferiu seu pai no dia de seu 12° natal.
     Orgulhoso com o instrumento – seguiria os passos do pai, que freqüentava assiduamente as rádios numa época de Tevê incipiente – partiu para receber as primeiras aulas básicas, ministradas por uma tia, maestrina do Conservatória Nacional de Música.
     No início, ainda bastante empolgado, assimilava tudo, com uma dedicação que satisfazia os anseios dos mais céticos familiares que preferiam-no médico como o padrinho.
     - Esse leva jeito! – profetizavam os mais otimistas.
Porém, nem tudo eram acordes, tons, semínimas ou pausas. Coexistiam o futebol, a praia, as festas de final de semana, repletas de moças lindas. O interesse pela música ia diminuindo em função de tamanha tentação. Bastava pegar o violão e vinham os chamados:
     - Cê vem ou não vem? E lá ia o futuro Baden Powel correndo atrás da redonda edificante ou das curvas estonteantes das amigas de suas quatro irmãs.
     Passaram-se alguns anos. O futebol escasseou, os bailes cessaram e a música voltou, aliada, agora, à poesia reunidas em composições simples e harmoniosas.
     Ricardo apresentava-se em bares e hotéis, quando decidiu montar uma banda, contando com a participação de alguns amigos, músicos penitentes. O novo grupo musical receberia o nome de Banda Renascença numa clara alusão à nova década que despontava, recheada de otimismo e democracia. Faziam parte da formação: Ricardo; Carlinhos, excelente guitarrista; Joãozinho, na bateria; Ronald, no contrabaixo; e...
     - Pô, Cremilço, atrasado de novo?
     - Nem te conto. Fui a um festival de chope maravilhoso ontem e...
     - Tá bom, chega! Vamos ensaiar. O dia da apresentação está chegando.
     Nessa época, Joãozinho cursava Publicidade e o Diretório Acadêmico, promovia, com freqüência, encontro de artistas e bandas independentes, e o futuro músico-publicitário incluiu-os num desses encontros.
     Os preparativos estavam adiantados e a rapaziada bem afinada. Tocariam apenas uma música é bem verdade, mas não se importavam, afinal, aquela seria a primeira aparição do grupo para um público maior que seus parentes, vizinhos, moscas e baratas. A confiança era tanta que já vislumbravam o sucesso de suas composições Brasil afora.
     Chega finalmente o grande dia:
     - Pessoal, agora é a nossa vez,Hoje é o momento mais importante da minha vida e eu acredito que faremos uma apresentação inesquecível – discursou o profeta Ricardo.
     Como o nervosismo da estréia se fazia presente, decidiram beber alguma coisa, assim que chegaram à Faculdade.
     - Ricardo, que tal uma cerveja para descontrair?
     - É, Carlinhos, acho que não vai fazer mal.
     Beberam algumas cervejas e voltaram para assistir à apresentação de outras bandas, enquanto Cremilço resolveu ficar “só mais um pouco”.
     - Olha, cara, vê lá o que você vai aprontar...
     - Tá me chamando de pinguço irresponsável!?
     - Não. Imagina...
     O show teria início e, quase se atrasando, chega Bebum meio barro, meio tijolo. Os amigos entreolharam-se, mas desistiram de interrogá-lo. A ansiedade era maior que seus temores.
     - Quero agora apresentar a Banda Renascença – anunciou o locutor improvisado.
     Entre aplausos e sussurros, os músicos subiram ao cadafalso, isto é, ao palco.
     - Esta música é de minha autoria e se chama Confissões de um vagabundo...
     Feita a introdução, Ricardo começou a cantar, enquanto os outros o fariam apenas no refrão.
     - “ ...sei que existe alguém mais forte que eu...” – e o riso era geral! ” ...amante, cavaleiro errante...”
     Os rapazes entreolhavam-se, espantados, sem entender o motivo da algazarra. A letra era séria, contestadora, mas o clima, de picadeiro de circo.
     E segue o refrão:
     - “...sei que existe alguém mais...”
     Não foi possível segurar a gargalhada. Ao olhar para Bebum, os rapazes descobriram o porquê da balbúrdia: Cremilço, o amigo (?) Bebum, cantava sem perceber que o microfone estava pendurado fora da base e, no afã de tornar-se um Milton Nascimento, consumia suas energias, no tripé de ferro.
     Será preciso concluir!? O sonho acabou antes mesmo de concluírem a primeira música.
Nel de Moraes
Enviado por Nel de Moraes em 17/06/2005
Código do texto: T25322

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Sobre o autor
Nel de Moraes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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Nel de Moraes