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O Pulo da bolacha

     Chegou o dia do passeio em casa dos tios. Levantei-me cedo para os preparativos da saída.Minha mãe já estava com tudo pronto. O nosso transporte era um carro-de-bois, tendo à frente, como guia, um rapaz que se dispunha a andar conforme o toque dos bois. Era um carro bem arrumado: coberto com uma pele seca (couro) de boi, e dos lados, presas aos fueiros, duas esteiras de palha de coqueiro que cobriam o trançado de varas; no assento entabuado, um colchão bem macio com lençol, colcha e travesseiros. As pessoas se acomodavam ali dentro do carro como podiam.
     - Venha,  Joel, suba e tire os sapatos para não sujar o colchão - disse minha mãe, já aboletada na frente do carro.Este era um lugar privilegiado, somente minha mãe e outro que ela escolhesse para fazer-lhe companhia. Os demais se sentavam pelo meio. Meu pai ia a cavalo. Esse negócio de carro-de-bois não era com ele, não tinha paciência.
     Era preciso sair muito cedo para aproveitar a frescura da manhã. Meio dia quebrantamos o sol embaixo de uma árvore. Então, comemos uma gostosa galinha com arroz, adredemente preparados durante à noite.
     Com os estômagos forrados, instalamos novamente no carro e prosseguimos a viagem. Desta vez coube-me ocupar o lugar junto a minha mãe.
     - Não pendure as pernas, Joel, você pode cair a frente nos pés dos bois - recomenda minha mãe.
     - Estou seguro, mãe, respondi-lhe ao tempo em que tocava os bois com uma vara.
     O rapaz, coitado, ora andava,ora corria. Sentia pena dele, mas o que se ia fazer? alguém tinha de ocupar aquale lugar, estava sendo pago para isso.
     A estrada era cheia de surpresas. Passamos por todo tipo de terreno: pedregoso, o carro dava baques duros, pois não possui molas amortecedoras em seus eixos; terreno arenoso - ó que bom, andava maciiiiio que dava sono.
     Adiante, um riacho de água limpinha que era um convite a entrar nela. Descemos todos e fomos matar a sede, refrescar o rosto e os pés. É gostoso ouvir o chape-chape dos pés andando na água e sentindo o seu frescor. Os bois, também, sorveram bastante daquele líquido precioso, reabastecendo sua pança enorme.
     Quando saímos do riacho, entramos numa vereda. Num dado momento, o rapaz guia, com voz de comando, faz os bois pararem: ê ê ê a! "O que teria acontecido?" Olhando à frente, vimos uma coral atravessando a estrada. O rapaz pega um pau e dirige-se para perto da cobra, disposto a golpeá-la. Tinha que ser de primeira, não podia errar, senão ela ia embora por entre os matos.
     Do carro ficamos torcendo; minha mãe rezava.
     A coral venenosa, pressentindo o perigo, enrola-se para armar o bote. Concentrando no alvo, o rapaz desfere uma paulada certeira, quebrando o dorso do reptil que se estrebucha no chão, tentando arrastar-se.
     Sua língua bifurcada parecia de mola, não parava. Com mais um golpe na cabeça e eis a peçonhenta estirada sem vida. Urgia procurar um lugar para jogar a cobra morta. Uma moita de quiabento foi o ideal, porque era lugar impérvio, não se corria o risco de furarem nas espinhas da víbora.
     Passada a tormenta, todos nós voltamos ao carro-de-bois. Cada um contava, a seu modo, as peripécias do acontecido.
     Estávamos quase chegando à casa de meus tios. Minha mãe, muito zelosa, fez algumas recomendações a todos como procedermos, para não passarmos por mal-educados.
     À mesa, devíamos comer com o garfo, não pegar a comida com a mão.
     Eu disse à minha mãe que iríamos observar tudo direitinho.
     Finalmente chegamos. Alguns dos meus primos nos avistaram e foram ao nosso encontro. Subimos os degraus da calçada, muito alegres, pois existia uma grande amizade entre nós. Meus tios nos receberam, abraçando-nos e dando-nos boas-vindas. Já éramos esperados. Naquele tempo era costume uma família visitar outra e passar alguns dias, desfrutando prazerosamente do convívio caloroso de uma hospedagem amiga.
     Entramos. Lavamos o rosto, como era de hábito, e tomamos um cafezinho. Só mais tarde é que íríamos tomar banho.
     De início, fiquei um tanto tímido, mas aos poucos, fui me acostumando.
     Na hora do jantar, sentamos à mesa e procuramos nos lembrar das recomendaões de minha mãe.
     À hora de ir para a cama foi recebida com alívio. Eu estava cansado da viagem e um bom sono restauraria a disposição. Tinha muito o que ver. Era um sítio maravilhoso.
     No outro dia, acordei com o canto dos pássaros e o berro dos bezerros no curral. Estava acostumado a levantar cedo, também morava em fazenda.
     Chegou a hora do café da manhã. Reunimo-nos todos em torno da mesa extensa, onde o café e o leite fumegavam quentinhos.
     Sentei-me numa cabeceira da mesa. Serviram-se requeijão, bolo e bolachas (daquelas papudinhas).
     Ia tudo muito bem se não fosse a lembrança da recomendação para não comer com a mão, comer com o garfo.
     Espetava o requeijão e o bolo e ia comendo. Mas, que desastre! Fui espetar a bolacha papuda e a danada saltou com impulso, pela mesa, indo cair na xícara de meu tio. Este levou um susto e quase entorna o seu café-com-leite. Um dos meus primos achou muita graça e soltou uma risada. Minha mãe, encabulada, olhou para mim. Eu estava trantornado. Perdi a vontade de comer e pus-me a chorar. Minha tia, muito bondosa, veio em meu auxílio;
     - Ora, Joel, isso não foi nada. Você não sabe que essas bolachinhas são bravas? É preciso segurá-las com os dedos. E passou a conversar comigo, deixando-me novamente à vontade.
     Terminei de tomar o café e fui andar com os outros pelo sítio. Meu primo, de vez em quando, lembrava: - E o pulo da bolacha, hem Joel? Você ainda vai comer bolacha com garfo?
     Eu, meio sem jeito, limitava-me a sorrir, porque se zangasse, aí sim, a arrelia era maior.



Zilda
Enviado por Zilda em 04/10/2006
Reeditado em 16/05/2008
Código do texto: T255755
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Sobre a autora
Zilda
Brumado - Bahia - Brasil, 93 anos
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